'Não pareço, mas sou doce'

Ela é autora,comanda o Irritando Fernanda Young, no GNT, e ainda vive sob o rótulo de metida

Etienne Jacintho, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2007 | 21h50

Quando se fala em Fernanda Young, quase todos fazem careta. Ela tem algo que incomoda - o jeito blasé, um pouco metida. Mas, de forma supreendente, desarma quem a conhece. Talvez esta jornalista tenha sido ingênua por se deixar conquistar; ou pode ser que Fernanda seja mesmo assim: "tímida, delicada e doce". Quando falei em entrevistar você, muita gente torceu o nariz. Você tem fama de antipática, blasé... Eu sei! É absurdo! Não pareço, mas sou doce. Passo eficiência - e isso constrange, irrita. Sou uma sobrevivente, talvez meio dura. E há também a questão das tatuagens, dos piercings... Fiz de propósito para me proteger. A carcaça social que vesti é a de uma pessoa dura. Sou tão tímida, delicada e doce que, no transtorno, fico forte e agressiva. Não sou extrovertida e as pessoas confundem timidez com antipatia. Não tenho por que ser metida. Sou defensiva. E a fama de ser egocêntrica? Sou egocêntrica depressiva, que é coisa de criança: o mundo gira em torno dela e, se dá uma merda, a culpa é dela. Meus pais se separaram e até hoje acho que a culpa é minha. Meu egocêntrico não é assim: o mundo gira em torno de mim porque sou poderosa e o sol nasceu porque meu xamã é forte. É assim: ?Está chovendo?; o Brasil perdeu a Copa?? É minha culpa (risos)! Qual parte da Fernanda irrita o público? Será porque compro em loja cara? Ah, é esse nariz (risos)! Já chorei na TV, contei meus problemas, acho que a identificação irrita as pessoas. O lado meu que elas têm, mas não querem ver, irrita. Talvez essa clareza e honestidade de eu lidar com minhas mazelas. Esse papo parece terapia... Que não faço mais. Me dei alta. Perdi um bebê e vi que isso era um fato. Passei tanto tempo elocubrando dores que me assaltavam, mas que eram da Fernanda pequenininha. Quando você fica adulta e sente uma dor concreta, você pensa: ?O que é agora? Meu pai, minha mãe, minha avó, a dona Mirtes que me expulsou do colégio?? Acabou. Sou crítica, sofro, mas não me culpo. Quero meu luto, mas não quero esmiuçar isso. Agora é a dor. Você escolhe os convidados que visitam o seu programa? TV não se faz sozinha. A equipe sabe a quem convidar, mas não recebo quem não quero. Não vou receber se não me sentir à vontade. Você parece íntima dos convidados. Eles são seus amigos ou você cria a intimidade facilmente? Eles são íntimos no meu imaginário. Crio essa intimidade a partir daí. Quando entrevistei o Evandro Mesquita falei: ?Você acredita que eu era apaixonada por você e você me perdeu?? E você cria essa intimidade também fora do programa? Conto minha vida e as pessoas contam a vida delas com certa rapidez, mas não converso com todo mundo. Conto tudo, mostro a calcinha (risos). Atraio e sou atraída rapidamente, mas não gosto de festa! Então, o que você faz para se distrair? Danço em casa (risos). Como em casa porque sou vegetariana e odeio me programar para sair. Não saio de casa depois das 20 horas. Não vou a shows, só quando me convidam. Sou de Niterói. Então não me chama para ir a um lugar longe. Como pizza no meu bairro e tomo cerveja no meu bairro. Minha vida social não é incrível! Você tem bronca com o incrível. Nego o incrível! Tenho amigos incríveis, bem-sucedidos, mas prefiro não conhecer outros incríveis na intimidade. Não tenho vontade de conhecer Caetano (Veloso) na intimidade. Para quê? Está tão bem assim... Com toda essa timidez, como você sobreviveu ao Saia Justa? (Risos) Errei muito pela coragem, que pode ser burrice. Me assustei quando vi que aquilo fazia sucesso e pedi para sair. Não conseguia frear meu instinto de ruído - sou capaz de falar as coisas mais nojentas, escatológicas e baixas em nome daquele instante de entretenimento. E a ironia é um manjar dos deuses. Se canto a Daniella Cicarelli não é porque sou lésbica, era uma voz coletiva. Pisei na bola. Dei minha cara à tapa. E deu confusão comigo, com minha mãe, expus amigos... E, quando vi, as pessoas me odiavam. Tive depressão. Fiquei mal.

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