Raphael Dias/Divulgação
Raphael Dias/Divulgação

‘Não existe papel pequeno’, diz Elizabeth Savalla

Na reta final de ‘Amor à Vida’, que sai do ar no fim do mês, atriz continua a roubar a cena dos protagonistas

João Fernando, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2014 | 17h00

O jeito popular e cômico da Márcia de Amor à Vida não é uma mera orientação do diretor. O ar de gente simples e um pouco exagerada pode ser identificado em Elizabeth Savalla. Com um vestido liso, sandálias e nenhuma maquiagem, a atriz recebeu o Estado em seu apartamento, na zona sul do Rio.

“Mamãe coloca sapato, penteia o cabelo. Eu sou um esculacho, sou relaxada mesmo. Eu ia recebê-lo de robe, mas achei demais. Aí, a empregada falou: ‘Dona Beth, é um moço. Põe esse vestido aqui’. Se fosse mulher, ia usar um quimono que tenho. Eu gosto de usar uma camisolinha. Meu marido não liga. Eu estou pouco me lixando”, entrega a paulistana.

Mesmo com status de estrela do horário nobre, o dia a dia de trabalho na televisão tem dificuldades que se assemelham às de quem não leva uma vida glamourosa. “Deve ter havido uns três finais de semana em que não trabalhei. Tem dia em que saio às 6 h e vou pra lá. Agora, com o trânsito do jeito que está, chega a quase três horas (o percurso). Eu levo uma hora e meia para fazer o cabelo. Quando começo a gravar, já estou cansada, querendo ir embora. Fazer pobre em novela é complicado.”

Ao longo da trama, que termina este mês, a atriz teve de vir a São Paulo para gravar. “Corri muito do rapa na 25 de Março”, diverte-se. Nas ruas é que ela sente o impacto de Márcia no público. “Outro dia, fui a um restaurante e fiquei segurando mesa. Atrás de mim, havia uma mesa só de homens e eles ficavam falando ‘a periguetona’. Comecei a ficar p... Aí, que eu saquei que era por causa do personagem do Fúlvio (Stefanini, que a chama assim). Sabe quando você desliga porque está em outro ambiente? Eu comecei a rir sozinha”, relembra ela, que gargalha entre uma resposta e outra.

Durante a entrevista, Elizabeth para mais de uma vez para dar atenção aos operários que faziam uma obra no apartamento. Um deles, fica constrangido em interrompê-la. “Vergonha é roubar. E esses políticos todos roubam de carro oficial. Pode vir”, diz ela, rindo mais.

Prestes a comemorar quatro décadas na TV, ela prefere manter a simplicidade. “Meu pai sempre ensinou para a gente. Ele é filho de gente batalhadora, minha mãe chegou a trabalhar na roça. A história da minha família é parecida com a de todo mundo no Brasil. Meu pai teve uma empresa grande, mas foi com muita batalha. Passei muito Natal sem ganhar presente. Cansei de embrulhar presente para os filhos dos funcionários, mas sabia que, em dezembro, eu não iria ganhar.”

Sem frescura, ela produz e encena espetáculos em comunidades de todo o País e costuma bancar a produção. “Eu sempre fiz com dinheiro do meu bolso, nunca esperei patrocínio de ninguém. Se você não quer fazer um trabalho, fica esperando patrocínio. Camilo (marido) e eu fazemos o projeto Teatro de Graça na Praça, que começamos nas favelas”, explica.

Parceria. Um dos pontos altos de Amor à Vida são os momentos em que Elizabeth contracena com Tatá Werneck. “Eu não conhecia o trabalho dela. Na primeira reunião de elenco, falei que estava com medo, pois não sabia fazer a personagem. Aí, a Tatá, deu uns pulos, me abraçou e falou assim: ‘Se você está com medo, imagina eu. Estou desesperada’. Então, a gente definiu que estava junto.”

As duas fazem que o podem para criar, pois o autor, Walcyr Carrasco, reprova improvisos. “Ela vai, eu vou e a cena continua. A gente cria muito no fim, tenta fazer uma coisas nonsense dentro do texto”, entrega. Presente em grande parte das tramas dele, a atriz não se considera um talismã do novelista. “Você tem de perguntar para ele. Vai que eu respondo alguma coisa que ele não gosta, o sobrenome dele é Carrasco.”

O desempenho na carreira, garante ela, depende de diferentes fatores. “Mais do que talento, tenho sorte. O que mais conta é estar na hora certa no lugar certo com pessoas que gostam de você. Tive autores que gostavam de mim, como a Janete Clair, o Mario Prata e o Walcyr”, enumera. Para ela. não há distinção entre estar no horário nobre ou em atrações infantis, como o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em que atuou, em 2002. “Não existe papel pequeno, existe o tamanho de cada ator que faz o papel”, sentencia.

A estreia de Elizabeth na TV, em Gabriela (1975), como Malvina, foi bem-sucedida. Na parede da sala, ela mantém uma gravura feita por um amigo que remete ao papel. Ao fazer as contas, a vaidade aparece. Ela lamenta os 59 anos recém-completados. “Estou arrasada. Quando você vê, já foi. Queria ficar eternamente jovem, morrer jovem.”

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