José Patrício/AE
José Patrício/AE

Não diga 'alô'! Isto é um controle remoto

Com custo ainda salgado, celular que transmite TV já provoca mudanças de conteúdo e de hábito

Gustavo Miller, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 23h21

O casal Jonny Ken, de 32 anos, e Amanda Wanderley, de 25, é daqueles que nunca conseguem chegar a tempo de ver a novela em casa. Há alguns anos, eles usavam o videocassete para gravar os capítulos, mas o aparelho quebrou. Daí, o jeito foi usar o YouTube. Mas ali só rolava um best of, uma cena em especial, não era o integral.

Agora, "o problema dos dois se acabaram-se". O empresário e a bióloga têm um celular com sintonizador de TV digital. "Vi novela no carro, Fórmula 1 no banheiro e o Auto Esporte enquanto ela fazia compras", ri Ken. Depois que fizeram a foto ao lado, eles foram jantar. No telão do restaurante passava um jogo do Palmeiras, mas...

"Eu assisti a Caminho das Índias via celular. Fiquei impressionada com a qualidade", diz Amanda.

A dupla é retrato de um hábito que começa a nascer no País: assistir televisão pelo celular. Um estudo de 2009 da TNS InterScience mostrou que o desejo de ver TV pelo telefone vem logo depois de ter um aparelho que tire fotos, toque música e grave vídeos. Entre as classes média e baixa, esse é um sonho de consumo de 70% dos brasileiros. Na classe alta, 57%.

Sua popularização depende de alguns fatores, como o barateamento da tecnologia, a disponibilidade dos canais e o custo do serviço. As emissoras sabem que esses problemas não serão eternos - e que a tecnologia, conforme avança, fica acessível. Projetos para a chamada TV móvel não faltam. O mais comum são as parcerias entre as operadoras de celular e as emissoras, que vendem conteúdo adaptado para a telinha do telefone. Também cresce a interatividade do aparelho com a TV, com as populares mensagens SMS. Nessa toada, a MTV planeja levar o celular ao posto de controle remoto universal, no audacioso Second Skin.

É SÓ PUXAR A ANTENA

O melhor jeito de ver televisão no celular é com um telefone que tenha sintonizador de TV digital. São duas as razões: além de ser de graça, a qualidade de imagem dos canais abertos é em alta definição. Mas também há dois problemas: os três aparelhos vendidos no País (da Samsung, Semp Toshiba e LG) custam, em média, R$ 1 mil e só 18 cidades brasileiras captam o sinal digital.

Quem tem um celular assim irá acompanhar a mesma programação da TV aberta, não algo adaptado para o novo formato. Explicação: o Ministério das Comunicações exige que o broadcast da TV aberta seja simultâneo, o mesmo.

Para José Marcelo Amaral, diretor de Tecnologia da Record, ao se alterar essa portaria, a produção de conteúdo específico para celular será fomentada. "Vai resolver o problema do tempo da TV aberta", crê. Já para Amilcare Dallevo, presidente da Rede TV!, a mudança fará com que as atrações sejam pensadas para as duas plataformas desde sua concepção. "A transmissão de um jogo de futebol será especial. Hoje não dá para ver a bola na telinha de um celular", ri.

A Rede Globo já desenvolve versões resumidas de seus telejornais para os telefones móveis. Mas não há data de estreia para a novidade.

 

O JEITO É O DOWNLOAD

Enquanto a TV digital demora para se expandir pelo território brasileiro, as emissoras de televisão apostam na parceria com as operadoras de telefonia móvel para levar seus programas à telinha. O conteúdo pode ser visto via streaming ou download.

Claro, Tim e Vivo dizem não cobrar o tráfego de dados, apenas o acesso aos programas. É um alívio. O preço nas operadoras varia. Pode-se escolher planos de 30 minutos, de 24 horas ininterruptas etc. São valores que vão de R$ 2,40 a R$ 15.

Desde a semana passada, a TV Cultura libera na Claro trechos dos programas Cocoricó, Rá-Tim-Bum e Pé na Rua. "Nossas pesquisas mostram que o jovem vê TV de outro jeito, então precisamos atingir outras plataformas", diz Mauro Garcia, diretor de Novos Projetos da Cultura.

A Band tem conteúdo na Vivo, Claro e Tim (que tem 15 canais). Na Vivo, os quadros do CQC são os mais baixados e assistidos. "Ligamos o mundo offline da TV com o online do celular. Abrimos novas janelas para o mundo do telespectador", explica Walter Ceneviva, vice-presidente Executivo da TV Bandeirantes. 

 

MTV CRIA SUA 2ª PELE. E EXPORTA

Sabe esse celular que está no seu bolso? Então, para a MTV ele é um controle remoto. Imagine o videoclipe da Beyoncé. No canto da tela da TV, pipoca o ícone de um telefone, com um número para o envio de mensagem de texto, o SMS. O telespectador pode receber em seu aparelho uma curiosidade sobre o clipe. Ou uma foto da cantora. Futuramente, espera-se, baixar a música e o próprio vídeo que está no ar.

Esse é o Second Skin, da MTV Brasil. A segunda pele faz parte da nova "filosofia digital" da music television. Da programação, 80% já tem a novidade. Em junho, serão 100%. Segundo Zé Wilson, diretor geral da MTV, desde janeiro a emissora recebeu 2 milhões de SMS. "A ideia é que o público se relacione com o editorial. É conteúdo colaborativo dentro da TV."

A mensagem de texto dá um bom retorno. O SBT prioriza a produção de SMS para celular, afinal, quando Esquadrão da Moda vai ao ar uma média de 40 mil pessoas usam o teclado de seus telefones para pedir dicas exclusivas de como se vestir. Após o pedido, entra-se num banco de dados do SBT. "Isso fideliza o público, que diariamente recebe algo que não está no programa", comenta Daniel Kaestli, executivo de Interatividade do SBT.

Isso sem dizer que também há aí uma boa fonte de renda. A MTV, que já exporta o Second Skin para as MTVs do planeta, montou um case para utilizá-lo nos breaks comerciais. 

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