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'Nada Será Como Antes' conta sobre os primórdios da televisão brasileira

De época, a série mostra os dramas e os romances nos bastidores da TV

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2016 | 06h00

Em 1950, era inaugurada a televisão no Brasil. A primeira transmissão foi realizada em caráter definitivo pela TV Tupi, que pertencia aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em 18 de setembro. O feito histórico deflagrava uma revolução sem volta nos meios de comunicação. O próprio Brasil passaria dali para frente por transformações. A nova série da Globo, Nada Será Como Antes, que estreia no dia 27, joga luz justamente sobre os pioneiros da TV brasileira. Criada por Guel Arraes e Jorge Furtado, é escrita por Guel, Furtado e João Falcão e tem direção-geral e artística de José Luiz Villamarim.

Mas, logo que pensaram em recontar sobre os primórdios da TV no País, Guel e Furtado descartaram uma série documental, com personagens reais. Preferiram a liberdade da ficção, só que escorados pelos acontecimentos históricos. “Achamos mais importante pegar a essência da nossa experiência. Há desde fatos históricos, cenas inspiradas em coisas que a gente leu que aconteceram realmente, até coisas que a gente viveu, porque também fazemos parte dessa história”, diz Guel ao Estado. E a trajetória conturbada do casal central, formado pelo dono de TV Saulo (Murilo Benício) e pela atriz Verônica (Débora Falabella), dá o tom do drama romântico tão almejado pelos autores. 

Em Nada Será Como Antes, Verônica, personagem de Débora Falabella, é uma estrela das radionovelas. São dela os papéis das heroínas, das mocinhas. Com a chegada da TV, a atriz, assim como tantos outros profissionais que atuam nas rádios, migra para a telinha. É um caminho natural. A bela Verônica consegue fazer a transição sem perder seu status. No entanto, chega um momento em que surge a jovem Beatriz, aspirante a atriz interpretada por Bruna Marquezine, e o papel da mocinha parece cair melhor para ela. 

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Dono da TV Guanabara, Saulo, papel de Murilo Benício, tem de falar para Verônica, sua estrela, e também sua mulher, que ela não ficará mais com aquele personagem. “A crise do casal ocorre também a partir disso”, afirma Jorge Furtado. A vida pessoal da atriz acaba interferindo em sua carreira. “Outra coisa que a gente coloca é um personagem negro, que, no rádio, fazia todos os papéis e, na TV, ele não podia fazer um conde russo. Também tem isso: as novelas e os programas eram uma dramaturgia europeia, importada, então ele não podia mais fazer esses papéis”, completa ele. O relacionamento de Verônica e Saulo vem antes mesmo do sucesso profissional de ambos – remete aos anos 1940, quando ela era ainda locutora numa estação de rádio no interior e ele, um vendedor de aparelhos de rádio.

Há ainda outra figura importante nesse nascedouro da TV: a do anunciante, encarnado por Pompeu (Osmar Prado), empresário influente. “O patrocinador era um cara que até poderia interferir na escalação de uma novela”, conta João Falcão. Vale aqui um parênteses: Pompeu é pai de Otaviano (Daniel de Oliveira) e de Julia (Letícia Colin), e os dois irmãos acabam formando um triângulo amoroso com Beatriz – que namora o rapaz e tem um affaire com a moça. 

Hollywood. Enveredar-se por esse universo era um desejo antigo de Guel Arraes e Jorge Furtado. “A gente queria fazer uma história que fosse ambientada no momento do surgimento da televisão, as primeiras telenovelas, os primeiros comerciais. A gente achava que era um ambiente muito rico”, diz Furtado. “Fazendo a pesquisa, é muito curioso ver que as pessoas não tinham ideia do poder da TV. Ela estava começando e muita gente falava que a TV ia ser um rádio com imagem, até porque, naquele momento, o rádio era uma grande paixão nacional que estava se modernizando e sendo transistorizado.” 

Para Guel, a televisão é como se fosse a “nossa Hollywood”. “A gente gosta muito de ver filmes de Hollywood falando de Hollywood.

Talvez 20 anos depois de ter começado, Hollywood já estava contando sua história. Temos 60 anos de TV e acho que nunca tivemos uma ficção mais consistente sobre seus primórdios”, avalia ele. “E é curioso, porque, de uma certa maneira, a TV é a nossa Hollywood, a influência da TV no Brasil é gigante. Quando começa a estudar sobre TV, você passa a ver que ela é um pouco um símbolo dessa entrada do Brasil na contemporaneidade”, continua Guel.

O processo de pesquisa ficou por conta dos próprios Guel e Furtado – que colecionam trabalhos em parceria há 26 anos, como Cidade dos Homens, Ó Pai Ó, entre outros. No entanto, depois que o roteiro ficou pronto, a dupla de criadores sentiu que a parte romântica da trama não estava a contento. Foi então que João Falcão, com habilidade apurada para construir relações afetivas nas tramas, foi convidado para o projeto. “O João entrou para trabalhar no enredo romântico, a gente reescreveu tudo de novo, pensando na relação amorosa dos personagens”, afirma Furtado. 

E João Falcão ajudou a dar o tom de telenovela, de folhetim à série. “Acho que minha colaboração entra mais no drama: tornar ela mais heroína, ele mais heroico. Tenho ligação histórica com novelas, sobretudo as antigas. Sabia todos os requisitos de uma mocinha de novela, de um galã. E a série tem muito disso”, conta Falcão. De época, Nada Será Como Antes tem 12 episódios e será exibida às terças, logo após a trama contemporânea da novela Velho Chico – dois universos bem distintos que poderão ser vistos na sequência.

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