MARI MALTA/DIVULGAÇÃO
MARI MALTA/DIVULGAÇÃO

Na TV, Adriana Calcanhotto fala de poesia

Compositora leva nomes como Arnaldo Antunes e Antonio Cicero a novo programa de entrevistas

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 03h00

RIO - Adriana Calcanhotto não consegue eleger seu poeta preferido. O de Antonio Cicero é Horácio. Eucanaã Ferraz tem Drummond em primeiro lugar; Alice Sant’Anna, Ana Cristina César. São revelações de Poesia em Movimento, programa do canal Philos que pode ser visto a partir desta sexta-feira, 12, por assinantes da Net e da GVT ou pela Globo.com. Convidada a princípio para conduzir apenas um deles, a cantora, tomada pela poesia desde os 13 anos, pelos modernistas, se propôs a tomar sua frente. 

“Quero que as pessoas vejam esses poetas de perto. O Eucanaã fala uma coisa interessante que é ‘o poeta é o cara que paga conta de luz, que pega ônibus, dá aula, não é um sujeito que come bicos de rouxinóis’. A figura do poeta tem de ser desmistificada”, diz Adriana, que escolheu pessoas com quem tem proximidade pessoal ou cujos versos lhes são íntimos. São cinco episódios, e provavelmente não haverá mais, ela acredita.

Cicero, Eucanaã e Arnaldo Antunes são seus amigos antigos. Claudia Roquette-Pinto ela nunca tinha visto, mas conhecia bem sua poética. Alice Sant’Anna, representante da novíssima geração, já havia encontrado superficialmente. 

Cleonice Berardinelli, que não é poeta, mas professora de literatura portuguesa e alta autoridade em Fernando Pessoa, é quem deu origem ao programa involuntariamente. A produtora Marcia Braga assistiu a um encontro de Adriana com Dona Cleo na Casa do Saber, sobre Mario de Sá-Carneiro, e visualizou um programa ali. “Achei que mais pessoas tinham de ver aquilo”, explica. Apesar da agenda pesada de shows, Adriana, que não assiste à TV, não titubeou: “Pela intimidade que tenho com os poetas ou sua poesia, fiquei muito à vontade. E fiquei muito contente de ver que eles se entregaram”.

Poesia em Movimento é a primeira produção própria do Philos, que pôs no ar conteúdo voltado às artes em 2012, e tem 16 mil assinantes. Os programas têm, em média, 40 minutos, e foram gravados na casa de shows Miranda, com plateia de convidados (só dona Cleo gravou no Real Gabinete Português de Leitura e se estendeu por 74 minutos).

Não há roteiro. Adriana recebe os convidados no camarim e eles começam a conversa ali mesmo. Pergunta movida pela própria curiosidade e o que acha interessante que o público descubra. No palco, com pouca iluminação, os convidados dizem versos, comentam a relação com a poesia e com outros poetas, falam do cotidiano, respondem sobre suas preferências. Nos papos, descontraídos, entram João Cabral de Melo Neto, Cecilia Meireles, Vinicius de Moraes. Por vezes, surge Adriana ao violão.

“Não conheço nenhum poeta como Horácio nem me atrevo a traduzir”, revela Antonio Cicero. “A gente, quando gosta mesmo de um poema, é porque ele já é seu, seja em que língua for. Parece que você é que tinha de ter escrito.”

Arnaldo lê dois poemas inéditos e lembra passagens da infância. “Comecei a escrever poesia com uns 13 anos, e já tinha ali um desejo de subversão sintática. Ia amalgamando palavras, e a professora de literatura gostava. Publiquei meu primeiro livrinho na gráfica do colégio Equipe”, rememora.

Alice ri ao dizer que o poeta pode ser “o boêmio doido ou a bailarina certinha”. “São encontros, e não sabemos por que aconteceu daquele jeito. Eu não estava buscando Ana Cristina Cesar, poesia marginal, e, de repente, esbarrei nela. Não sabia que aquilo podia ser poesia”, discorre Alice, ao mostrar como descobriu “um poema meio torto” dela aos 15 anos, no Google, para uma tarefa escolar.

Claudia conta que leu aos 8 anos Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira, e que dali a poesia “se estranhou”, se tornou um “modo de vida”. “Bandeira entrou na minha corrente sanguínea, é um carma bom”, brinca.

Para Adriana, não há por que inferir que poesia e TV não combinam. “O Afinando a Língua (no Futura, com Tony Bellotto) está no ar há muito tempo (15 anos). Cada vez mais existem eventos de poesia. As pessoas estão sedentas. Como dizia o Oswald de Andrade, ‘há poesia na flor, na dor, no beija-flor, no elevador’. E, no Brasil, se deu essa coisa única que é a veiculação de alta poesia por meio da música popular”, defende a cantora, que envolve poesia em seus CDs e shows há 20 anos e já musicou e gravou versos de poetas como Sá-Carneiro e Waly Salomão.

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