'Na TV, a abertura é embalagem. E é vital'

Hans Donner fala sobre o trabalho de criar vinhetas para novelas

Patrícia Villabla, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h39

Você pode até não se lembrar da Maria Escandalosa, a trambiqueira interpretada por Claudia Raia em 1992. Mas é difícil esquecer a abertura de Deus nos Acuda, novela de Silvio de Abreu na Globo, em que os convidados de uma festa afundam na lama ao som de Gal Costa. É apenas um exemplo das dezenas de aberturas memoráveis criadas pelo designer austríaco Hans Donner, que se fixou no Brasil há 35 anos para criar a embalagem da TV Globo que virou referência mundial. Na tarde de quarta-feira, enquanto prestava atenção nos pés do Cristo Redentor imersos em nuvens, através da janela do seu escritório, ele falou sobre um dos seus assuntos preferidos com o Estado, por telefone.

Como nasce uma abertura?

Com um encontro com autor e diretor, onde recebemos um briefing. O autor descreve o tema, o clima e conta quais são os principais elementos. Então, chega o momento da nossa liberdade de criar, de sugerir. Como minha equipe cuida de todas as aberturas da Globo, tentamos variar o tratamento gráfico, para que as coisas que estão no ar não compitam entre si.

Depois de tanto tempo fazendo isso, qual é o maior desafio?

Quando o tema é parecido com o de novelas anteriores - por exemplo, Pedra sobre Pedra e Tieta -, o desafio é não fazer parecido. Outra coisa: telespectador já viu de tudo, e se acostumou a ser surpreendido com mulheres virando árvore (em Tieta). Agora espera que toda abertura supere o que ele já viu. Criamos um padrão tão alto que, agora, o desafio é superar nós mesmos.

Para a novela como um todo, a importância é enorme, então.

Qualquer produto que você ponha numa prateleira, vai vender melhor se a embalagem for bem feita. No caso da telenovela, a embalagem é vital, tem de prender a pessoa. Antes da Globo botar pra quebrar, nenhuma televisão do mundo tinha percebido isso, por mais que os produtos estivessem bem cuidados. Quando você cuida da embalagem da televisão, você vende melhor. Isso ajudou a Globo a vender suas novelas no exterior, por exemplo.

E quais são suas preferidas?

Difícil. Posso te dizer que são aquelas que ajudaram a Globo a se estabelecer, como as pirâmides sendo fatiadas na abertura do Fantástico de 1983. Deus nos Acuda, que fiz na época do impeachment do Collor. São vários os exemplos em que tivemos uma música boa e a sorte de encontrar a tecnologia certa para executar. Imagine, em 1989, uma mulher virando árvore? Era uma surpresa incrível (Tieta)! Gosto também de Barriga de Aluguel (1990), que foi simples mas emocionante. Agora, com Caminho das Índias, várias pessoas me param na rua, como foi antigamente.

Por falar nisso, ouviu a história de que ela seria um plágio de uma emissora indiana?

Ouvi. Mas acontece. O mundo inteiro gera tantas imagens hoje, que é impossível criar algo que não tenha alguma identificação com outra coisa.

Há várias histórias sobre como você cria imagens que, na TV, parecem coisa de computador e não são. Qual é o papel do computador no seu trabalho?

É engraçado, porque todos me carimbam como mago da computação gráfica. Mas gosto muito de misturar a computação gráfica com o lado humano, o jogo de cintura. Como, por exemplo, pôr 28 pessoas para afundar numa piscina de lama (Deus nos Acuda). Essa abertura foi enviada para um prêmio no exterior e não ganhou porque o júri não se convenceu de que não era computador. Captamos a Valéria Valenssa em 3D a partir dos movimentos dela dançando, mas é óbvio que não é tão belo quanto o que Deus criou. Agora, para fazer a de Caras & Bocas, compramos um software especial. Mas percebi que nada seria melhor do que jogar a tinta na cara dos manequins. Por isso, tenho o maior prazer em ter papel e lápis.

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