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Na série 'Will' o bardo é roqueiro e punk

Na TNT, Shakespeare ganha tattoos, piercings e ‘London Calling’ na trilha

Alexis Soloski / THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2017 | 03h00

Alguns nascem grandes, outros se tornam grandes e outros ainda ganham uma série de TV 400 anos após sua morte. Em 10 de julho, a TNT exibe os dois primeiros episódios de Will, um drama de época num turbulento estilo steampunk (steam, que significa vapor; punk, a ideologia e estilo de vida cultural), que tenta imaginar como teriam sido os primeiros anos de William Shakespeare (1564-1616) em Londres. 

Shakespeare continua sendo um ícone cultural e um tesouro acadêmico. As histórias que ele adaptou ou criou ainda agitam, deliciam e provocam. Mas será que sua própria história – a de um jovem nascido numa cidadezinha sonolenta e pacata que um dia invadiu a cena teatral elisabetiana – pode inspirar um show de sucesso?

Isso já foi tentado no cinema – de um filme mudo de 1914 e Shakespeare Apaixonado (1998) ao thriller conspiratório autoral Anônimo (2011); e na televisão, principalmente com Will Shakespeare, a série inglesa de 1978 na qual Tim Curry fez Will e Ian McShane seu rival Christopher Marlowe. No entanto, nunca havia sido tentado com o uso de tantas tatuagens, piercings e stage divings, e tendo London Calling, da banda The Clash, na trilha sonora. 

Craig Pearce, há longa data coautor de Baz Luhrmann e criador de Will, explicou a pegada punk-rock como uma analogia do teatro do tempo de Shakespeare. “Não era um público sofisticado”, disse ele. “Eram 3 mil pessoas espremidas naquelas estruturas de madeira, brigando, bebendo e comendo.” Se gostavam da peça, aplaudiam; se não gostavam, rebelavam-se. 

Mas como mostrar esse ambiente visceral de suor, vibração e poesia no cenário cool da TV? Qualquer nova abordagem da vida e obra de Shakespeare, em qualquer veículo, tem de escolher entre permanecer no roteiro e história tradicionais ou, então, modernizá-los. 

Pode-se continuar fiel ao período e à linguagem, como nas adaptações para o cinema de Kenneth Branagh, digamos, ou nos filmes para a TV feitos segundo a antiga escola da BBC.

Pode-se partir radicalmente de ambos, como Ran, de Akira Kurosawa, ou Scotland, PA, ou mesmo o animado 10 Coisas Que Eu Odeio em Você, que transformou A Megera Domada num romance colegial entre Heath Ledger e Julia Stiles. O roteiro de Craig Pearce para Romeo + Juliet, de 1966 (dirigido e coescrito por Luhrmann) e o recente Muito Barulho por Nada, de Joss Whedon, de 2012, manteve a linha elisabetiana e modernizou o cenário, enquanto o Oregon Shakespeare Festival embarcou num projeto oposto, mantendo o clima da época, mas atualizando a linguagem.

Essa foi também a abordagem de Stilll Star-Crossed, sequência de Romeo and Juliet, da TV factory de Shonda Rhimes, em exibição na rede ABC e lutando para conquistar espectadores. 

Will, reverentemente fiel e descaradamente desleal, concilia as diferenças. Pearce claramente adora a linguagem e, em verdadeiro estilo shakespeariano, apropriou-se de muito dela. Mas ele e seus colaboradores optaram por um estilo visual, um vocabulário e uma trilha sonora (carregada de guitarra elétrica e leve em oboé) que capturam o pedregoso, flamejante agito do lado errado do rio na Londres do século 16. 

No piloto, o jovem Will se queixa: “Não posso passar o resto da vida fazendo luvas”. Assim, deixa Stratford-upon-Avon, com a mulher e os três filhos, e vai para Londres, determinado a perseguir seus sonhos de escritor e envolvendo-se na ocasional conspiração católica e em casos extraconjugais. 

A primeira visão de Will de Londres, marcada pelas tensões mod revival de That’s Entertainment, da banda britânica The Jam, é uma mistura de cores e sujeira com uma ponta de excêntrica maquiagem de olhos. Talvez os retratos do inglês Nicholas Hilliard (1547-1619) não mostrem cabelos eriçados ou coloridos, mas você vai vê-los aqui, coroando alguns coletes muito apertados. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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