Tawni Bannister/The New York Times
Tawni Bannister/The New York Times

Na série ‘Disque Amiga para Matar', mulheres se unem em grupo de apoio ao luto

Christina Applegate e Linda Cardellini estão juntas em 'Disque Amiga Para Matar', série que acaba de estrear na Netflix e que alterna comédia, drama e thriller

Alexis Soloski, The New York Times

15 de maio de 2019 | 03h00

Em Disque Amiga para Matar, Jen e Judy são melhores amigas desde criancinhas. Ou até a próxima saia-justa. Esta “traumédia”, que estreou no dia 3 de maio na Netflix, fala de duas mulheres na faixa dos 40 anos que se conheceram num grupo de apoio a pessoas de luto no sul da Califórnia e se entrosaram quase imediatamente (a tragédia gosta de companhia e de maratonas da série Facts of Life no fim da noite). 

Jen (vivida por Christina Applegate), uma corretora durona como manteiga, perdeu o marido, Ted, num atropelamento. Judy (Linda Cardellini), uma pintora que vive sonhando, chora a morte do noivo. Provavelmente.

Em dez capítulos de 30 minutos cada um, que mudam abruptamente de comédia para drama e para thriller, as vidas e histórias das duas mulheres tomam desvios perigosos. Se você ainda não começou a assistir à série, pare por aqui, porque vêm aí alguns spoilers. Por exemplo, descobrir no fim do primeiro capítulo que Judy dirigia o carro que matou Ted. 

Há outras surpresas, menos letais, como discussões francas sobre problemas de saúde das mulheres – aborto espontâneo, perimenopausa, mastectomia – e uma visão diversificada sobre amizade feminina. 

Numa tarde recente nos escritórios da Netflix em Nova York, perto da Union Square, as duas mulheres posaram com saltos altíssimos (Applegate trocou rapidamente os seus por um par de tênis Converse). Em seguida, afundaram num sofá (excessivamente) confortável para falar de luto, companheirismo, perda. Na sequência, alguns trechos da entrevista.

Falem sobre Jen e Judy.  

Christina Applegate: Jen não se parece com ninguém, mas é uma mulher comum. O mundo tenta impedi-la de ser o que é, sentir o que sente, e o resultado é que ela reage com uma raiva incrível. Ela não sabe gargalhar ou mesmo sorrir e não permite que ninguém a console. Ao conhecer Judy, sua a vida muda.  

Linda Cardellini: Judy é aquele copo que não se sabe se está meio cheio ou meio vazio; o que se sabe é que a vida gosta de despejar água na sua cabeça. 

Por que vocês acham que essas personagens se tornaram tão amigas?  

Applegate: Porque elas se permitem sofrer. Passei pelo luto em minha vida. Nada deprime mais uma pessoa de luto que outras tentando fazer com que ela pare de sentir o que está sentindo. Jen e Judy permitem uma à outra sentir o que elas precisam sentir. Essa compreensão e fraternidade são laços que não podem ser rompidos. Cardellini: Elas são duas pessoas que podem se abrir totalmente uma com a outra, embora Judy nunca confie plenamente em si mesma. 

Qual a pior coisa que um amigo já fez a vocês?  

Applegate: Já tive amigos incríveis. Hoje sou daquelas pessoas que não fazem novos amigos, exceto os pais dos amigos de meus filhos. E ela, claro (aponta Cardellini). Quando era mais jovem tinha a tendência de permitir que pessoas – não vou chamá-las de amigos – entrassem em minha vida e me manipulassem.  

Cardellini: Sou cuidadosa ao escolher meus amigos. Lamento quando amigos saem de minha vida. Isso não é culpa deles, mas sinto sua falta.

Disque Amiga para Matar é sobre lidar mal com a perda?

Applegate: Existe um jeito certo de se lidar com a perda? A sociedade quer que soframos por, digamos, um mês e isso é tão desnecessário. Perdi repentina e inesperadamente pessoas incrivelmente próximas de mim, e ainda penso nelas. Não há meio certo ou errado de se passar por isso. O que se deve é ser fiel ao que se sente.  

Cardellini: Há duas coisas na vida que precisamos aceitar porque são inevitáveis: a morte de alguém querido e a perda de um amor. E é impossível aprender a lidar com elas, não importa quantas vezes aconteçam.

Vocês assumem essas personagens? Christina, você sugeriu a mastectomia dupla de Jen? 

Applegate: Eu quis dar à personagem algo que a tornasse vulnerável. Optar por uma mastectomia preventiva causou problemas em seu casamento. Assim, ela convive com uma carga insana de culpa e vergonha. Foi a coisa mais pessoal possível que dei a Jen. (Christina Applegate passou por uma mastectomia dupla em 2008)

Linda, o que você deu a Judy?  

Cardellini: Há uma cena em que Judy perde alguém e diz: “Não vou dizer adeus”. Isso não estava no roteiro, mas escapou de minha boca. Porque eu perdi pessoas às quais não queria dizer adeus (Cardellini começa a chorar). Desculpem. 

Só que agora vamos todos chorar...  

Cardellini: Apelidamos a série de ‘traumédia’ por que nela há muitos traumas, e aí entra o humor para aliviar as tensões e o estresse.  

Applegate: Isso deixou alguns confusos. Mas na vida nós rimos e choramos, somos agradavelmente surpreendidos e ficamos chocados. As pessoas não são o que aparentam. Assim é a vida: sombria, sinuosa, engraçada. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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