Mulher de TV

De Frente com Gabi. Os ventos mudaram, e ela deixou as novelas pelas entrevistas

Entrevista com

Patrícia Villalba

05 de junho de 2010 | 16h00

Novos desafios. "Eu gosto de correr risco. Tudo o que me parece confortável, estável, me perturba", diz Gabi. Foto: Paulo Pinto/AE

 

 

Marília Gabriela não precisou de sobrenome - Baston de Toledo Cochrane - para se firmar como a entrevistadora mais importante do País. Não é algo comum no jornalismo - fora ela, só mesmo Glória Maria para ser reconhecida simplesmente pelo prenome. É coisa de personalidade, celebridade, não de jornalista. Como também são atuar e cantar. Jornalista canta? Ela sim, já lançou três discos e se prepara para um show no Bourbon Street, em setembro. Jornalista faz novela? Ela sim, já atuou em duas novelas e duas minisséries. "Nunca parei para pensar, continuei vivendo. Até que as pessoas me assimilaram como eu sou", reflete Gabi, numa entrevista feita em seu camarim no SBT, na terça-feira.

 

A emissora de Silvio Santos a recebe de volta depois de sete anos, para comandar o mesmo De Frente Com Gabi que ela apresentou entre 2002 e 2004. Entra no ar hoje, depois do Programa Silvio Santos, depois das 23 horas, entrevistando Hebe Camargo. Com isso, Gabi continua com o Marília Gabriela Entrevista no GNT (que também vai ao ar hoje, às 22h), mas não fará mais novelas na Globo. Foi uma decisão surpreendente, ainda mais por ter sido tomada depois da minissérie Cinquentinha, na qual teve performance bastante elogiada.

 

É sobre essa coragem, que a tornou um símbolo feminino da televisão essa conversa com Marília. E se é para falar em exemplo feminino, não deixamos de lembrar os 30 anos do TV Mulher, programa que ela comandou na Globo de 1980 a 1984 e que ainda nos parece tão arrojado e necessário.

 

Por que resolveu voltar com força total ao papel de entrevistadora justamente agora, que consolidou a carreira de atriz?

Acho que me percebi muito ligada em jornalismo ultimamente. Tenho muito claro na minha vida fazer coisas que me desafiem, no sentido de que eu perceba que estou correndo um risco. É a única maneira de eu sentir uma mudança em mim, uma evolução. É isso: eu gosto de correr risco. Tudo o que me parece confortável, estável, me perturba.

 

Foi uma tremenda ousadia dar a cara para bater como atriz.

O que eu acho que aconteceu comigo é que eu cresci na televisão, mas fazendo outra coisa por 40 anos. E quando comecei a fazer dramaturgia, os olhares foram muito mais críticos, porque, com toda razão, eu não tinha o razoável anonimato para me caracterizar como uma personagem. O que estava em jogo, mais do que a interpretação, era o fato de me conhecerem em outra função. Em todas as vezes em que fui convidada, achava que tinha normas a seguir por ser jornalista. Até que quando fiz 50 anos, disse "Quer saber? Vou tentar". É o tipo de coisa que todo ser humano deveria experimentar.

 

Não pensou em propor um programa de entrevistas à Globo?

Ah... A Globo tem uma grade de programação que é pré-determinada com muita antecedência. Tinha uma conversa com um diretor, mas era sempre "pra daqui a um ano e meio". E pra mim, hoje é sempre melhor do que amanhã.

 

Você falou em correr risco. Que risco você está correndo na volta ao SBT?

É o do retorno à TV aberta fazendo a jornalista. O risco no SBT é tentar ter de novo a aceitação que tive antes com o De Frente com Gabi, porque o tempo passou. Espero que o público de TV aberta possa curtir e se interessar o suficiente para ainda ouvir alguém falar durante uma hora.

 

Você acha que cabe profundidade na TV hoje em dia?

Ah... Eu gostaria que coubesse, quero muito acreditar que caiba. Acho que é sempre hora da gente pensar e refletir, ainda que por meio de ideias e respostas de outras pessoas.

 

Você disse que faz entrevista há 40 anos e ainda não descobriu o que as pessoas querem saber. Você, que já esteve do lado de lá da vidraça, acha que uma das coisas que as pessoas querem saber é sobre a vida dos outros, como o Miguel Falabella discute no seriado A Vida Alheia?

Acho que sim, senão não existiria esse mercado mundial de fofocas. Acho que é mais fácil para todo mundo, no geral, não se aprofundar em grandes ideias e não refletir sobre a própria vida. Os tempos estão muito promíscuos, na invasão e na evasão de privacidade, e tem muita gente ganhando muito dinheiro com essa promiscuidade.

 

Você sempre apareceu bastante, tornou-se uma personalidade, quando ainda se cobrava uma certa sobriedade dos jornalistas. Teve dramas de consciência com isso?

Não. Na verdade, é uma questão que me coloquei só recentemente. Nunca tive muita consciência de que eu era mulher, nunca briguei por melhores salários por ser mulher senão por que achava que merecia. Nunca parei para pensar, continuei vivendo. Até que, deve ter sido assim, as pessoas me assimilaram como eu sou.

 

Você circula no meio das personalidades que entrevista. Isso ajuda ou atrapalha?

Ter acesso às personalidades é mais fácil. Mas Caetano, por exemplo, não me dá entrevista há muitos anos. Então, acesso a essas pessoas eu tenho, mas isso não me garante a entrevista. Acho que o que me garante a entrevista é o momento dessas personalidades. Acho mesmo que as pessoas só vão falar certas coisas quando quiserem e estiverem prontas para isso. Não acredito em furo, em arrancar coisas. Acho que há uma coordenação cósmica. Entro na fila até hoje para conseguir.

 

O tempo que você passou sendo entrevistada como atriz mudou de alguma forma o seu jeito de entrevistar?

Não. Mudei como entrevistadora muito antes, quando percebi que a agressividade não leva a lugar algum - e eu já fui mesmo mais agressiva. A informação você não arranca, conquista.

 

 

DE FRENTE COM GABI

 

"Meu contrato com o SBT é de seis meses. Depois, a gente vê. Se eu estiver infeliz, posso ir embora."

 

"Já tive experiência com plateia e não gostei. Ficava querendo mandar o público calar a boca."

 

"Esse tipo de programa fala com o formador de opinião. Por isso, não temos meta de ibope."

 

"Domingo é um ótimo dia para esse tipo de programa. E entrar depois do Silvio Santos é uma maravilha."

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