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MTV e Comedy Central interrompem programação para homenagear George Floyd

O silêncio de boa parte de Hollywood diante do assassinato de George Floyd em Minnesota, porém, incomoda

Steven Zeitchik, The Washington Post

02 de junho de 2020 | 14h29

Às 17h, na maioria das segundas-feiras, o cenário da TV a cabo dominado pela ViacomCBS está repleto de imagens familiares: Jim fazendo brincadeiras com Dwight em The Office, o apresentador Rob Dyrdek tirando sarro de aspirantes a vídeos virais em Ridiculousness, o ator Tim Allen tentando, sem sucesso, ser o chefe da casa em Last Man Standing.

Mas os telespectadores que se sintonizaram nesta segunda-feira viram algo bem diferente: uma tela preta com as palavras “Não consigo respirar”, piscando no ritmo do som da respiração de alguém que está ficando sem ar.

A imagem - parte tributo, parte videoarte - era uma homenagem a George Floyd, o homem de Minnesota que morreu nas mãos da polícia, e à onda nacional dos protestos Black Lives Matter disparados por sua morte. A imagem durou a mesma quantidade de tempo - 8 minutos e 46 segundos - que o policial Derek Chauvin ficou com o joelho em cima da nuca de Floyd. Dez canais a cabo da ViacomCBS, entre eles Comedy Central, MTV e CMT, transmitiram a mensagem.

No entanto, muitas pessoas que monitoram as iniciativas de Hollywood sobre questões raciais dizem que o evento se destacou exatamente porque poucas outras marcas de entretenimento estavam fazendo algo parecido. Até agora, a maioria das empresas de cinema e televisão fez pouco mais do que postar mensagens de apoio nas mídias sociais, abstendo-se de comprometer dinheiro ou programação com questões de injustiça racial na esteira dos protestos.

“Claramente, os principais expoentes de Hollywood, sejam grandes empresas ou divisões de grandes empresas, agora precisam se olhar no espelho e se perguntar se são parte do problema ou da solução”, disse Darnell Hunt, diretor do Centro Ralph J. Bunche de Estudos Afro-Americanos da UCLA e responsável por um importante relatório anual sobre a diversidade em Hollywood. (A versão mais recente desse relatório concluiu que, embora os negros representem 40% dos Estados Unidos, eles são apenas 27,6% dos líderes de equipe e 15% dos diretores de cinema).

Quando se trata de tomar iniciativa em relação aos protestos, parece haver um contraste entre a indústria da música e Hollywood.

A indústria da música está convocando um “blackout” nesta terça-feira, 2, durante o qual muitas gravadoras, produtores e artistas farão uma pausa no trabalho - um gesto grandioso, ainda que um tanto nebuloso. E muitas das maiores estrelas do mundo da música, entre elas Ariana Grande, participaram dos protestos.

Enquanto atores como Michael B. Jordan e Timothee Chalamet também saíram às ruas, alguns dos nomes mais conhecidos do mundo do cinema até agora ficaram em casa.

“Qual é o papel de Hollywood na circulação da imagem do homem negro violento e ameaçador?”, perguntou Todd Boyd, professor de raça e cultura popular da Universidade do Sul da Califórnia, que acompanha Hollywood de perto. “Qual foi a imagem que a indústria cinematográfica americana divulgou ao longo da história? Hollywood não é inocente nas coisas que estão acontecendo. Acho que é por isso que ela tem a responsabilidade não apenas de fazer declarações, mas de se comprometer a longo prazo com o fim da circulação de imagens que alimentam essas percepções.”

“Quando começarmos a ver as pessoas dedicando dinheiro e tempo de tela, aí poderemos falar em progresso”, disse ele.

A ViacomCBS chegou a tomar a iniciativa de outras maneiras. Na segunda-feira, 1.º, Trevor Noah, personalidade da Comedy Central, divulgou um vídeo de 18 minutos explicando a injustiça sistêmica e a privação de direitos dos afro-americanos que suscitaram os protestos.

Mas, mesmo na CBS, empresa irmã da ViacomCBS, os esforços se limitaram a uma declaração de apoio ao Black Lives Matter publicada em suas contas de mídia social. As transmissões da rede seguiram sua programação normal no horário nobre da segunda-feira. As outras três redes fizeram o mesmo.

O tributo “Não consigo respirar” - que também foi exibido na Paramount Net, Pop, VH1, TV Land e Logo, BET e CBS Sports - é resultado de uma inquietação de Chris McCarthy, presidente do grupo de entretenimento e juventude da empresa, que sentiu a necessidade de uma declaração maior para combater o ódio.

“Embora eu não seja negro e nunca possa entender completamente essa experiência, me sinto ofendido pelo racismo sistêmico e quero estar junto com nossas comunidades negras na aflição e na dor”, escreveu ele em um memorando para a equipe. “Todos precisamos fazer nossa parte - discriminação contra um de nós é discriminação contra todos nós.”

McCarthy tem um histórico de tentar mudar as coisas por dentro: ele orquestrou uma campanha depois dos tiroteios na Marjorie Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Flórida, e elaborou uma grade de programação mais diversificada no CMT, canal de música country tradicionalmente branco. Ele disse que seus funcionários se juntariam ao blackout da indústria da música na terça-feira.

Boyd disse que, embora as medidas sejam bem-vindas, executivos como McCarthy precisam pensar que, mais que uma questão de bem público, a mudança também tem a ver com responsabilidade financeira.

“Quanto dinheiro a ViacomCBS ganhou com a cultura negra? E quanto desse dinheiro ela devolveu?”, disse ele. “Não se trata apenas de ser benevolente”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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