João Cotta / Globo / Divulgação
João Cotta / Globo / Divulgação

MPT notifica Globo sobre falta de representação racial em novela

Apesar de ser ambientada em Salvador, a trama apresenta poucos atores negros, o que tem gerado reclamações de entidades e de parte do público. 

Fábio Grellet e Paulo Roberto Netto, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 15h25
Atualizado 15 Maio 2018 | 16h22

SÃO PAULO e RIO DE JANEIRO - O Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ) notificou a Rede Globo nesta sexta-feira, 11, após repercussões negativas sobre a ausência de representação racial na novela "Segundo Sol", que será exibida a partir da próxima segunda-feira, 14. Apesar de ser ambientada em Salvador, município onde cerca de 80% da população é de negros e pardos, segundo o IBGE, a trama apresenta poucos atores negros, o que tem gerado reclamações de entidades e de parte do público

A notificação, de teor recomendatório, aponta 14 exigências que devem ser cumpridas pela Rede Globo nos próximos dias. Em relação à novela, a emissora deverá realizar mudanças no roteiro para "assegurar a participação de atores e atrizes negros e negras" e promover a "representação étnico-racial da sociedade brasileira, especialmente em cenários de população predominantemente negra".

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Outras recomendações feitas pelo MPT-RJ incluem a elaboração de um Plano de Ação para inclusão e igualdade de oportunidades para a população negra, a realização de um censo entre trabalhadores com recorte de raça/cor e gênero e também um levantamento do número de artistas, jornalistas e comentaristas negros que atuam na emissora. A Rede Globo deverá ainda desenvolver ações de conscientização sobre racismo interna e externamente.

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O Ministério Público concedeu prazo de dez dias para a comprovação de mudanças no caso relativo à novela e 45 dias para as demais recomendações. Caso a Rede Globo não cumpra, o órgão alerta que poderá ajuizar ação judicial.

As recomendações foram apresentadas por um segmento do MPT chamado Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidade e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade). Para o MPT, o não espelhamento da sociedade nos programas televisivos gera a perpetuação da exclusão e reafirma estereótipos de limitação de espaços a serem ocupados pela população negra. O caso chegou ao MPT por meio do grupo de Trabalho de Raça, subdivisão da Coordigualdade, segundo o qual uma novela que se passa na Bahia não estaria observando o respeito à representatividade negra, violando normas de promoção da igualdade. 

“Decidimos expedir essa nota com o fim de mostrar a importância de a empresa respeitar a diversidade racial. Apesar de ser uma obra artística e uma obra aberta, consideramos que ela tem como obrigação incluir atores negros em proporção suficiente para uma real representação da sociedade”, afirmou a coordenadora nacional da Coordigualdade, Valdirene Silva de Assis.

Em Salvador, a União de Negros pela Igualdade (Unegro Brasil) prepara ação civil pública em que vai solicitar à Justiça que ordene à TV Globo mudanças na trama para aumentar a proporção de negros.

Outro lado. Por meio de nota, a Comunicação da Globo afirma que recebeu a nota do Ministério Público e que respeita a diversidade e repudia qualquer tipo de preconceito. Logo que a polêmica sobre a escalação de elenco da novela ganhou as redes sociais, a TV Globo se pronunciou reconhecendo que tinha escalado poucos negros para a trama e informando que pretendia corrigir o problema na segunda fase da novela.  

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"Recebemos na data de ontem (sexta-feira, 11) a Nota Recomendatória do Ministério Público do Trabalho, mas reafirmamos que a Globo respeita a diversidade e repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação, inclusive o racial", escreveu a assessoria da emissora.

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