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Mostra resgata o repórter Ernesto Varela criado por Marcelo Tas

Exposição no Itaú Cultural, 'Varela Upload', que será aberta nesta quarta, 30, reúne imagens da época em que a produtora Olhar Eletrônico começou

Adriana del Re, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2016 | 04h00

Em Brasília, o repórter de TV, sem rodeios, faz a seguinte pergunta ao então deputado Paulo Maluf: “Muitas pessoas dizem que o senhor é corrupto, é ladrão, é verdade isso, deputado?”. Em outro momento, às vésperas de embarcar para Moscou, ainda em tempos de URSS, esse mesmo repórter pede ajuda para Hebe sobre o que deveria levar na mala para sua viagem a um país comunista. “Eles não admitem quantidade. (Leva) três camisas, gravata pode ser uma só, três cuecas”, aconselhou ela. E ele também quis saber dela: “A senhora é comunista?”. A resposta veio na forma de uma gostosa gargalhada da apresentadora. Muito antes da existência de repórteres do CQC e similares, Ernesto Varela, acompanhado de seu fiel parceiro, o cameraman Valdeci, já lançava questões desconcertantes a seus entrevistados. 

Uma das figuras marcantes da televisão nos anos 1980, Varela era um personagem encarnado pelo jornalista Marcelo Tas, e forjado por ele e por Fernando Meirelles (que, anos depois, se tornaria cineasta consagrado com filmes como Cidade de Deus) na produtora Olhar Eletrônico, em 1983. Tas se apresentava nas reportagens como Varela e Meirelles, como Valdeci – que foi vivido também por outros câmeras. “O Valdeci não era apenas o câmera do Varela, mas seu editor também e as músicas que escolhia eram também um ponto importante no pacote”, ressalta Meirelles, ao Estado. Agora, Varela e seu legado serão relembrados na mostra Varela Upload, que será inaugurada nesta quarta, 30, no Itaú Cultural. A exposição reúne as reportagens realizadas por Varela, num total de cerca de 80 audiovisuais e mais de 10 horas de gravações.

Tas conta que tinha cerca de 60% desse material. Mas muita coisa ainda estava perdida. Esse projeto de resgate existe há muito tempo, mas só foi possível agora. “Com o Itaú Cultural, a gente está há dois anos fazendo isso. Fui atrás dos parceiros todos, que me ajudaram a encontrar o que faltava”, diz Tas. “Todo o material do Varela, é importante entender, é produção independente, da Olhar Eletrônico. E como era veiculado em emissoras diferentes, com parceiros diferentes, a gente foi atrás desses parceiros.” Tas só lamenta que três episódios ainda estejam desaparecidos: Varela em Nova York, em que mostra o custo de morte local; a ida do repórter ao The Gallery, badalada boate paulistana nos 1980, onde entrevistou “uns bacanas dentro do banheiro”; e o registro dos bastidores de uma final de Santos e Corinthians. “A gente até vai fazer uma campanha para ver se alguém gravou”, comenta ele. 

A exposição traz ainda anotações com detalhes de viagens, de reportagens, feitas por Marcelo Tas enquanto Ernesto Varela em cadernos e mais cadernos – todos guardados no acervo dele até hoje. A proposta do projeto também é deixar disponível num canal do YouTube todos esses vídeos do repórter Varela para o público, um desejo antigo, segundo Tas.

Vale conferir os momentos antológicos de Varela, como as já citadas entrevistas com Maluf e Hebe, e tantas outras, como a cobertura do primeiro comício por eleições diretas. “Garotos irresponsáveis que conseguem fazer as únicas imagens televisivas do primeiro comício. Lá, entrevisto o Lula, Marta Suplicy, Fernando Henrique Cardoso. A pergunta que faço a todos é: qual o prazer da política? As respostas são muitos legais. E a Marta curiosamente fala que não vê nenhum prazer na política”, lembra. 

E em que contexto nasceu Varela? O cenário era de efervescência artística em São Paulo. E aquela turma era formada por garotos do vídeo, rebeldes, de diferentes formações. Que achavam que cinema era “coisa de tiozinho” e que queriam “usar tecnologia de ponta, coisas em tempo real”. Eles estrearam na televisão a convite de Goulart de Andrade, na TV Gazeta, onde ganharam logo de cara um programa semanal, de duas horas. “Varela nasce da nossa absoluta incapacidade de fazer TV careta.” Uma lição seguida por outras gerações. A seguir, entrevista com o cineasta Fernando Meirelles sobre o personagem Ernesto Varella interpretado por Marcelo Tas.

O repórter Varela foi uma figura transgressora para os padrões de TV na época, certo? Quem ou o que inspirou vocês a criá-lo dessa forma: um personagem, com nome fictício e perguntas desconcertantes e inesperadas?

Ele foi nascendo meio por acaso. Rodamos duas matérias inteiramente roteirizadas e sem entrevistas. A turma gostou e resolvemos fazer outras matérias com o personagem.  Batizamos o gajo com o nome de Ernesto, em homenagem ao Ernesto Paglia e Varela era o sobrenome de um colega do meu pai que soava bem. No começo, fomos entrevistar populares em boates, ou situações da vida. Aos poucos, fomos criando ou aprendendo quem era este Ernesto e começamos a entrevistar gente conhecida até chegar nos políticos.

Aliás, os políticos que ficavam mais desconcertados com essas perguntas, não?

Enquanto ninguém sabia que se tratava de um personagem, coisa que ninguém havia visto até então, o Varela funcionava bem; depois de algum tempo ele passou a ser identificado, quando isso acontecia o entrevistado já abria um sorriso de cara, o que comprometia um pouco o truque.

O Varela continua muito atual. Você identifica esse personagem em outros repórteres ou personagens que surgiram na TV depois?

Muitos programas criaram falsos repórteres ou falsos entrevistadores, mas quase todos eram mais caricatos. Acho que a beleza do Varela foi ter conseguido andar na linha tênue entre realidade e ficção. Eu sempre pressionava o Marcelo para ele ser mais contundente ou mais agressivo, mas ele compreendia melhor o personagem e se recusava. Estava certo.

Na sua opinião, quais foram as melhores entrevistas feitas pela dupla Varela e Valdeci? Por quê?

Gosto muito do Varela na Serra Pelada por termos conseguido mostrar aquele mundo de um maneira em que as piadas não eclipsaram o drama que havia por trás. Para mim tem ali um comentário sobre a condição ou a loucura humana.Também gosto muito do Varela no Congresso, quando acompanhamos de dentro do plenário a votação pelas Diretas. Dois momentos que gosto é quando cruzamos com o Sarney numa garagem, o Varela faz alguma pergunta, o Sarney responde e se afasta e eu pergunto: "Quem é esse cara? “ (não sabia de fato) e ele responde algo como “Acho que é um deputado do Piauí, do Maranhão, sei lá.”

Depois, no plenário, o Varela pergunta ao Nelson Marchezan se ele acreditava no discurso contra as diretas que ele havia feito. Ele diz que sim. Varela pergunta: “E o senhor acredita que o espectador acredita que o senhor acredita no que está dizendo?”. Marchezan faz cara de quem tomou um xeque-mate.

VARELA UPLOAD

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 3ª a 6ª, 9h/ 20h; sáb. e dom., 11/h 20h (dia 6, às 20h, debate). Grátis. Até 6/12.


 

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