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Mostra no Rio revê ambições intelectuais de Mário de Andrade e seus interlocutores

'Cartas do Modernista' será aberta no próximo dia 13 no Centro Cultural dos Correios

Roberta Pennafort / RIO ,

04 de novembro de 2012 | 11h23

"Mário, como te disse,

Quero fazer teu retrato.

Não é obra de tolice,

Pintarei com maneirice

Cheio de amor e recato:

um homem alto sentado

os dedos cruzados.

Alma lírica (cuidado

na gravata) cuidados

meus na expressão do olhar...

Mário, vamos começar?

Tela de um metro por 70

É nessa base que se assenta

a medida pura

dos retratos do quatrocento

retrato feito de pintura

e de pensamento.

Espero ordem tua:

moro 105 Rua

Asdrubal do Nascimento"

Datados de 25 de março de 1935, os versos rimados são de Di Cavalcanti para Mário de Andrade. É um retrato transcrito do pintor para o escritor - o quadro prometido nunca saiu.

A vasta correspondência do intelectual força motriz do modernismo já rendeu mais de 30 livros. No entanto, ainda existe material inédito a ser revelado. Como o poeminha de Di, a quem ele chamava de "mulatista-mor da pintura brasileira".

A publicação mais recente é Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência (Companhia das Letras/Edusp/IEB). Lançado na semana passada, o volume mostra uma conversa São Paulo-Rio de apenas 31 cartas, mas que perdurou entre os anos 1920 e 40 e passou por temas como o ideário e as realizações do grupo modernista, opiniões sobre a obra de um e de outro, além de apreciações sobre as duas maiores cidades do Brasil.

Poeta e romancista, catalisador da vanguarda paulista, o autor de Macunaíma, que viveu (de 1893 a 1945) para pensar e escrever, está exposto em palavras e imagens em Cartas do Modernismo, exposição que será aberta no próximo dia 13 no Centro Cultural Correios, no Rio.

A curadora, Denise Mattar, propôs a mostra para este espaço por conta do assunto afim - com isso, o nonagenário da Semana de Arte Moderna, que passou praticamente em branco na cidade neste 2012, ganha a sua reflexão carioca.

O foco está nas artes plásticas, mais especificamente na onda levantada em 1922, e há destaque também para indiscrições, disputas e picuinhas cultivadas entre os artistas (as brigas com Oswald de Andrade, relatos de bebedeiras, a necessidade de trabalhar para a sobrevivência, enquanto outros de seu grupo tinham dinheiro de família).

Os destinatários são interlocutores próximos: Tarsila, Anita Malfatti, Candido Portinari, Enrico Bianco, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Victor Brecheret e Henriqueta Lisboa. Todos já tiveram diálogos com Mário publicados antes.

Mas a exposição traz novidades: por exemplo, a exibição de cartas que falam sobre determinadas obras dos artistas ao lado dos quadros em questão. Como a inspirada comparação dos retratos dele feitos por Portinari e Lasar Segall (abaixo), enviada ao amigo radicado no Rio.

"A relação era de muito afeto, Mário como um irmão mais velho (dez anos). Ele se orgulhava de ter sido a primeira pessoa a descobrir o talento do meu pai", conta João Candido Portinari, que deve lançar em 2013, nos 110 anos de nascimento de Portinari, um volume com as cartas trocadas pelos dois (já existe um somente com as de Mário).

O Violinista, quadro que fez Mário olhar para o jovem Portinari no Salão Revolucionário de 1931 (aquele que abrigou pela primeira vez, artistas de perfil modernista), estará na mostra. E mais dois retratos de Mário, o de Segall e um de Enrico Bianco, aluno de Portinari e seu colaborador. O visitante vai ver ainda obras de Anita, Di, Cícero e Ismael Nery, entre outros.

Raridades nunca exibidas são as cartas ilustradas a guache, nanquim e lápis, de remetentes como Cícero, Di, Brecheret e Menotti del Picchia. Os desenhos podiam estar no centro do papel, com textos em volta, ou à parte, como o cartão de Natal em linóleo mandado em 1940 por Quirino Campofiorito. Mário, vez ou outra, também desenhava: com humor, retratou-se caindo do bonde num relato a Anita.

Entre as muitas cartas de e para Drummond e Bandeira, interessou à curadoria aquelas em que ele fala de aspectos nacionalistas da pintura que desejava ver. Elas estarão próximas de Di - para Mário, o mais brasileiro dos artistas. Está nessas escolhas o caráter pedagógico da exposição. "A correspondência do Mário é interessantíssima, e agora estará ao alcance de um público maior. O volume do Bandeira, por exemplo, é um tijolo de 740 páginas", diz Denise Mattar.

O material veio do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que guarda e analisa o acervo de Mário (bibliografia, manuscritos, cartas, obras de arte), e também do Projeto Portinari e de coleções particulares.

A maioria das cartas será apresentada em versão fac-símile, por sua fragilidade; uma parte foi transcrita, para facilitar a compreensão (a caligrafia nem sempre é clara); outra, será ouvida na interpretação de um ator, tamanha sua carga emocional - um exemplo é a declaração de adoração profunda por Tarsila. a qual via como uma deusa do equilíbrio, "inimiga dos excessos"

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