Ramón Vasconcelos/Globo
Ramón Vasconcelos/Globo

Mostra de Tiradentes discute raízes do bem e do mal na série ‘Carcereiros’

Encontro avalia o seriado que fala sobre o ranço da cultura autoritária e se baseia em livro de Drauzio Varella

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2018 | 06h00

TIRADENTES - Cercada de montanhas, a histórica Tiradentes inaugura todo ano o calendário audiovisual brasileiro. A Mostra de Tiradentes ocorre em janeiro e abriga, dentro dela, a Mostra Aurora. Ao longo de dez anos - é a 11.ª edição -, a Aurora virou a grande vitrine do cinema autoral e independente do País. Por isso mesmo foi importante o debate que ocorreu nesta semana. O diretor José Eduardo Belmonte e os escritores/roteiristas Fernando Bonassi e Marçal Aquino vieram a Minas participar de um encontro com o público. Cinema e Literatura na Multitela, com mediação de Rodrigo Fonseca.

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Na pauta, o seriado Carcereiros, adaptado do livro de Drauzio Varella. Carcereiros já está disponível no Globo Play. Estreia na TV aberta em junho. No ano passado, foi premiado no fórum internacional MIP TV, em Cannes. Tiradentes é o território por excelência da experimentação no Brasil. Mesmo assim, o trio de criadores de Carcereiros, operando dentro da indústria cultural - a Globo! -, teve aplausos entusiásticos. As cenas exibidas - para fomentar o diálogo - foram fortes. Para Belmonte, o seriado tem a cara do Brasil, e de seu cinema. “Quem já assistiu a meus filmes sabe que o tema é sempre o ranço da cultura autoritária contra o indivíduo que tenta resolver seus problemas. Gosto de mostrar pessoas confrontadas com problemas grandes demais. E já que elas não conseguem dar conta dessa coisa macro - ninguém consegue -, o negócio é estimular uma micropolítica para tentar contaminar o todo.”

Foi essa micropolítica que Belmonte e seus roteiristas encontraram nos carcereiros de Drauzio. “O sistema penitenciário brasileiro é um dos mais cruéis do mundo. Temos uma extensa população carcerária que vive em condições desumanas. Nossa Justiça só se preocupa em punir. O sujeito entra ali dentro e sai pior, pelas próprias condições de sobrevivência”, avalia Bonassi. E Marçal - “O agente penitenciário, personagem do seriado, vive entre dois fogos. É um servidor público a quem o Estado não fornece recursos para enfrentar a dura realidade da cadeia. Lá dentro se digladiam facções criminosas, e ele não tem condições para vivenciar esse processo. A sociedade não quer nem saber, e o mantém na invisibilidade. A gente só os vê no noticiário quando ocorrem rebeliões, ou denúncias de corrupção. O seriado procura resgatar o carcereiro no que tem de mais complexo.”

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Na preparação da série, Belmonte diz que conheceu vários desses profissionais e se surpreendeu. “Confrontados com a violência, eles fazem suas revoluções para não ser absorvidos por ela. Tem gente dando aula de poesia para detento, aplicando técnicas do teatro do oprimido para despertar o que há de criativo nessas pessoas confinadas. É uma batalha por dia que extrapola, e muito, os grandes eventos midiáticos que a gente associa às cadeias.” Um trabalho de formiguinha. Mocinhos vs. bandidos? Pelo formato de ação com drama, Belmonte admite que Carcereiros se aproxima mais de Alemão (o filme) do que de qualquer outra coisa que tenha feito. “A TV trabalha muito com esses códigos, mas não creio que aqui seja possível enquadrar os conceitos de mocinho e vilão. Pedi aos atores que resgatassem o que há de mais humano nesses personagens, para a gente tentar entender, em cada um deles, as raízes do bem e do mal.”

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Rodrigo Lombardi é o protagonista, mas Marçal explica. “Quando escrevemos a primeira temporada, não sabíamos quem seria. Não escrevemos para o ator, mas agora, na segunda temporada que vamos fazer, a coisa será diferente. E o ator, sem dúvida, dá uma alma ao que a gente escreve. Uma das coisas bacanas do seriado é que oferece um papel à altura do grande ator que Tony Tornado é. Esse cara teve poucas chances. É um resgate.” O seriado tem um registro documental, com imagens de um documentário realizado por Fernando Grostein, Pedro Bial e Cláudia Calabi. “O documentário nos permite mostrar a escala monumental dessa história baseada em dilemas morais. Temos, inclusive, depoimentos de agentes de verdade. A ficção nos liberou para uma escala mais próxima do público”, diz o diretor.

 

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