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Morte de Roberto Talma acelera o fim de uma era

Currículo do diretor era um almanaque da diversão eletrônica da era pré-internet, pré-mobile e até pré-controle remoto

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2015 | 12h12

A morte de Roberto Talma, na madrugada desta quinta-feira, 23, no Rio, aos 65 anos, acelera o fim de uma era em que a televisão era o meio absoluto, quase único, de entretenimento, em mais de 90% dos lares brasileiros. Internado desde 2 de março passado no hospital Samaritano do Rio, Talma sofria de insuficiência renal crônica e doença arterial coronariana. Novela, show, novela e mais show fazem do currículo do diretor um almanaque da diversão eletrônica da era pré-internet, pré-mobile e até pré-controle remoto.

Não que ele estivesse afastado do mundo nas duas últimas décadas, longe disso. O pico de sua produção, no entanto, se concentra entre os anos 1970 e 2000, com passagens por várias emissoras de TV, idas e vindas constantes para a TV Globo, que concentra a maior parte de sua obra e os trabalhos mais relevantes. Ao lado de Paulo Ubiratan (morto em 1998), Talma assinou a direção de novelas como Pai Herói, de Janete Clair, Água Viva (1980), de Gilberto Braga, Coração Alado (1980), de Janete Clair; Baila Comigo (1981), de Manoel Carlos, Jogo da Vida (1981), de Silvio de Abreu, Sétimo Sentido (1982), de Janete Clair, e Sol de Verão (1982), de Manoel Carlos.

História. Nascido em 29 de abril de 1949, em São Paulo, Roberto Talma Vieira completaria 66 anos na próxima quarta-feira. Profissional pertencente a uma safra que aprendeu a fazer TV dentro do próprio set, passando por todas as etapas do processo de produção, Talma foi criado dentro do meio artístico. Seus pais eram donos de um circo no interior de São Paulo. A mãe era bailarina e o pai trabalhou na televisão como coordenador de programação da TV Rio. Aos 9 anos, ele já estava na TV Record dos Machado de Carvalho, onde se apresentava com um grupo de sapateado no programa A Grande Gincana Kibon.

No início da década de 1960, mudou-se com a família para o Rio, trabalhou durante algum tempo na TV Rio, passando também pela TV Excelsior e pela TV Tupi, até ser contratado pela Globo, no dia 1º de abril de 1969. Nessa época, além do trabalho na televisão, Talma também fazia incursões na música e no teatro, apresentando-se com um conjunto musical e atuando em algumas peças.

Na Globo, começou como operador de videoteipe, participando do núcleo de jornalismo da emissora. Trabalhou para o Jornal Nacional, Hoje, Jornal da Globo e fez parte da primeira equipe do Fantástico, em 1973, e editou programas como Globo Repórter e Globo de Ouro.

Já no ano seguinte, Talma se juntaria ao núcleo de dramaturgia para trabalhar com a equipe de Selva de Pedra (1972), de Janete Clair, dirigida por Walter Avancini. A parceria entre os dois durou oito anos, e Talma atuou como editor, assistente de direção e codiretor. Em 1975, foi convocado por Avancini para ser o diretor principal de O Grito, de Jorge Andrade. Em 1976, logo depois de dirigir Saramandaia, de Dias Gomes, voltou para a TV Tupi. Durante 11 meses dividiu com Gilberto Motta a direção do programa São Paulo, Túmulo do Samba (1977), espécie de documentário musical escrito por José Ramos Tinhorão, sob a supervisão de Maurício Sherman. Ao retornar para a Globo, assumiu a direção de shows no Fantástico. Era o responsável pela produção e direção dos clipes musicais semanalmente apresentados no programa, com lançamentos normalmente muito aguardados. Estamos falando, afinal, da era pré-YouTube. Naquela época, nem MTV existia aqui.

No final dos anos 1970, mudou de canal mais uma vez. Na Bandeirantes, dirigiu o programa Rosa e Azul, com o casal Débora Duarte e Antônio Marcos. Seis meses depois, voltou para a Globo, novamente a convite de Avancini.

Nos anos 80, dedicou-se a várias atrações da linha de shows. Comandou o programa em homenagem aos 60 anos do maestro Tom Jobim, Antonio, o Brasileiro (1987), que recebeu o Grande Prêmio na 30ª edição do Festival Internacional do Filme e Televisão de Nova York. 

Em 1982, trabalhou novamente na TV Bandeirantes, onde foi produtor de tramas como Campeão (1982), de Jaime Camargo e Marcos Caruso, e  Braço de Ferro (1983), de Caruso. Ao voltar para a Globo, assumiu o cargo de diretor executivo da Central Globo de Produção. Foi responsável pela criação de seriados como Armação Ilimitada (1985) e Tarcísio & Glória (1989) e das minisséries Anos Dourados (1986), de Gilberto Braga, Sampa (1989), de Gianfrancesco Guarnieri, Boca do Lixo (1990), de Silvio de Abreu, e O Sorriso do Lagarto (1991), de Walther Negrão e Geraldo Carneiro.

Como diretor executivo, cuidou de novelas como Brega & Chique (1987) e Que Rei Sou Eu? (1989), ambas de Cassiano Gabus Mendes, Rainha da Sucata (1990), de Silvio de Abreu, e De Corpo e Alma (1992), de Glória Perez. Na década de 1990, foi responsável pela implantação e supervisão de diversos Casos Especiais e episódios do interativo Você Decide (1992), além do humorístico Casseta e Planeta, Urgente! (1994), sem falar na criação de Malhação (1995), a novela teen que agora completa 20 anos.

Em 1992, dirigiu a novela Perigosas Peruas, de Carlos Lombardi, em que atuou também, pela primeira vez, como diretor artístico. No ano seguinte, desempenharia essa função na novela Renascer, o folhetim que traria Benedito Ruy Barbosa de volta à Globo, após a bela incursão de Pantanal, na Manchete. Credenciado pelo sucesso na concorrência, Benedito conseguiria, com Renascer, levar a temática rural pela primeira vez ao horário nobre da Globo e contar sua história à luz do sol, com um volume de externas até então inédito na emissora. Talma bancou a aposta e entregou a direção-geral a Luiz Fernando Carvalho, o que resultou em uma das mais belas produções que a TV brasileira já realizou.

Em 1995, Talma deixou a Globo novamente, para se dedicar a projetos pessoais, que incluía a criação de uma produtora independente. Realizou novelas para o SBT e voltou quatro anos depois, quando assumiu o núcleo de programas infantis da Central Globo de Produção. Cuidou de atrações como Gente Inocente (1999), Flora Encantada (1999), Bambuluá (2000) e a segunda versão do Sítio do Picapau Amarelo (2001). Sob sua responsabilidade também estiveram diversos programas de outras linhas da emissora, como o Domingão do Faustão, o Fantástico e o programa Linha Direta, criado em 1999.

O programa que nunca foi ao ar. De 1998 a 2010, assinou a direção geral dos especiais de fim de ano do cantor Roberto Carlos. Como diretor dos especiais do Rei, Talma tentou acompanhar a realização do único programa de TV protagonizado pelo cantor que nunca foi o ao ar: o Roberto Carlos Acústico MTV. Embora nada tivesse a ver com a direção do programa, Talma compareceu um dia a um dos ensaios do show, no Polo de Cinema, no Rio, acompanhado de uma assistente que trazia uma câmera profissional dentro de uma maleta. A certa altura, mandou retirar a câmera da maleta e disse que filmaria o ensaio, no que foi gentilmente impedido pela equipe da MTV que, àquela altura, ainda negociava com a Globo a possibilidade de exibir o show. A Globo acabou não autorizando a veiculação pela MTV e o Acústico RC só foi visto em DVD.

No teatro, em 2006, dirigiu as atrizes Maitê Proença e Clarice Derziê na peça Achadas e Perdidas, baseada no livro Os Ossos e a Escritura, da própria Maitê.

Esteve também na supervisão do remake de Pecado Capital e de Negócio da China (2008). Fez TV Xuxa (2010), Vida Alheia (2010), O Astro (2011) e Aquele Beijo (2011). Em 2011, foi o diretor-geral da microssérie Amor em 4 Atos. No mesmo ano, assinou, com Rafael Dragaud, o roteiro e a direção do especial Ivete, Gil e Caetano. Em 2012, assumiu a direção de núcleo da releitura de Gabriela e, em 2013, comandou o seriado Pé na Cova. Ainda em 2013, produziu o filme Dores de Amores, com direção de Raphael Vieira.

Velório. A Globo informa que o velório será no sábado, a partir das 11h, no Memorial do Carmo, no Caju. A cremação ocorrerá no mesmo dia, às 15h, em cerimônia reservada à família. Roberto Talma deixa  três filhos: Raphael Bethlem Vieira, de seu casamento com a atriz Maria Zilda Bethlem, Stephan Borges Vieira e Matheus Faloppa Vieira. 

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