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Morre no Rio a atriz Tereza Rachel

Ela tinha 82 anos e estava internada havia 3 meses

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2016 | 13h07

Bastaram duas personagens, no cinema e na televisão, para garantir a imortalidade de Tereza Rachel no imaginário do espectador brasileiro. Ela foi a amante muito louca no filme de mesmo nome de Denoy de Oliveira, ganhando o Kikito de melhor atriz no Festival de Gramado de 1974 e a Coruja de Ouro do Instituto Nacional de Cinema, em 1973. E na novela Que Rei Sou Eu?, foi a rainha Valentine, manipulada pelo sinistro Ravengar de Antônio Abujamra. Formavam uma dupla excepcional, e nada romântica. A amante também não era flor que se cheire. Irrompia nas férias do amante bancário, mas a família de classe média, em vez de encarar a própria miséria moral, preferia considerá-la uma intrusa a ser descartada, em nome do bem comum.

Terezinha Malka Brandwain Taiba de la Sierra tinha um nome tão extenso como seu talento, mas se tornou conhecida só como Tereza Rachel. Nascida em Nilópolis, na Baixada Fluminense, em 1934, começou no teatro numa peça de Aurimar Rocha, Os Elegantes, dirigida pela lendária Henriette Morineau, em 1955. No sábado, dia 2, ela morreu no Hospital São Lucas, em Copacabana. Estava internada desde dezembro com um quadro de obstrução intestinal que foi se agravando. Tereza não resistiu. Tinha 82 anos. O hospital não informou onde seriam o velório e o enterro. Na segunda-feira, 4, à tarde, não se sabia nem mesmo se já havia sido sepultada. A família não autorizou a divulgação pelo São Lucas.

Em 1956, logo após a estreia, foi premiada como atriz revelação pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais, com a peça Prima Donna. O prêmio de alguma forma foi premonitório. Em seus melhores papéis, a própria Tereza era uma ‘prima-dona’. Histriônica, intensa, sem meias medidas. Quanto mais desmesurada a personagem, mais ela se sentia à vontade.

Nos anos 1950 e 60, adentrou o universo de Nelson Rodrigues, produzindo e atuando em peças como Bonitinha, mas Ordinária. Em 1965, preparava a montagem de Berço de Herói, de Dias Gomes, com Antônio Abujamra, quando a peça foi proibida pela censura. No mesmo ano, integrou o elenco de Liberdade, Liberdade, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes, produção do Grupo Opinião que virou marco da resistência durante a ditadura. Tereza Rachel era tão grande que precisava de uma casa para abrigar seu talento. Criou um teatro batizado com seu nome. Toda essa história linda foi colocada em xeque quando ela se ligou a Ipojuca Pontes. Fizeram alguns filmes e pelo primeiro, A Volta do Filho Pródigo, foi melhor atriz coadjuvante de 1981 para a APCA.

Ipojuca virou o homem do cinema de Fernando Collor de Mello, antes que as medidas econômicas do presidente eleito em 1989 transformassem a cultura em terra arrasada e varressem o cinema brasileiro do mapa. Tereza fez campanha por Collor, que concorria com Luiz Inácio Lula da Silva. Foi execrada pela esquerda numa outra fase de polarização extrema da vida pública brasileira. Nunca mais foi a mesma. O Teatro Tereza Rachel entrou em decadência, fechou e virou igreja evangélica. Arrendado pelo produtor cultural Frederico Reder, passou por remodelação completa e virou Teatro Net Rio, voltando a ser um palco importante da cidade.

“Sou muito feliz por ter tido a confiança de Tereza, que entregou o filho dela na minha mão, um sonho que iniciou e me deu a oportunidade de tocar”, disse na segunda-feira o emocionado Reder. “As peças montadas ali eram de grande importância. Tereza foi uma visionária, além de muito boa atriz. Seu teatro era uma referência nos anos 1970, não só no Rio, mas no Brasil. Não só de teatro, mas também um espaço político”, lembrou Ney Latorraca. Stênio Garcia, que foi o bobo na corte de Valentine, lembrou que a chamava de “minha eterna rainha”. E acrescentou - “Tenho um jardim em casa onde homenageio os grandes atores que se vão. Vou plantar a Tereza Rachel como plantei a Marília Pêra (que morreu em dezembro do ano passado)”. / COLABOROU ROBERTA PENNAFORT

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