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Morre aos 84 anos o ator e diretor Paulo José

Vítima de uma pneumonia, ele estava internado havia 20 dias e deixa mulher e quatro filhos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 20h28
Atualizado 12 de agosto de 2021 | 16h45

O ator e diretor Paulo José morreu aos 84 anos nesta quarta-feira, 11, no Rio de Janeiro, de acordo com comunicado da TV Globo. Ele estava internado havia 20 dias por conta de uma pneumonia e deixa esposa e quatro filhos. Dono de um talento múltiplo, era um ator e um diretor que integrava o seleto grupo de artistas ideológicos.

Gaúcho de Lavras do Sul, Paulo José Gómez de Souza nasceu em 20 de março de 1937 e começou sua trajetória no teatro ainda na escola, no Rio Grande do Sul. A opção tornou-se mais forte quando participou de diversas montagens amadoras, entre 1955 e 1961. Foi em 1958 que estreou como diretor na peça Rondó 58, espetáculo de poemas dramatizados. Nesse período, ampliou suas habilidades aos exercer as funções de cenógrafo, iluminador, contrarregra, assistente de direção, maquiador e maquinista.

Na década de 1960, já em São Paulo, iniciou carreira no Teatro de Arena, em São Paulo, com a peça Testamento de um Cangaceiro (1961), escrita por Chico de Assis e dirigida por Augusto Boal.

Seu primeiro trabalho na Globo foi na novela Véu de Noiva, de Janete Clair, de 1969, mas Paulo marcou época com a parceria firmada com o ator Flávio Migliaccio na novela O Primeiro Amor, de 1972. Os personagens foram tão marcantes que deram origem a um seriado, Shazan, Xerife e Cia, escritor, dirigido e estrelado por eles de 1972 a 1974.

Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Paulo José esteve presente em mais de 20 novelas e minisséries, além de filmes como Macunaíma, de 1969, e Todas as Mulheres do Mundo, de 1966. Agora É que São Elas, de 2003, de Ricardo Linhares, surgiu a partir de uma ideia do próprio ator.

Paulo José também dirigiu episódios de Casos Especiais, a adaptação do livro Agosto, de Rubem Fonseca, Memorial de Maria Moura, adaptação da obra de Rachel de Queiroz, e Incidente em Antares, inspirado no romance de Érico Veríssimo.

O ator conviveu por 20 anos com o mal de Parkinson e seu último trabalho nas telas foi como Benjamin, personagem da novela Em Família que também sofria da doença.

No cinema, deixou uma carreira marcada por atuações muitas vezes inesquecíveis, que lhe valeram prêmios. Destaque para desempenhos nos filmes Todas as Mulheres do Mundo, 1966; Edu, Coração de Ouro, 1967; e O Rei da Noite, 1976. Destaca-se também pela atuação em Macunaíma; A Difícil Viagem; Faca de Dois Gumes e Policarpo Quaresma.

Paulo José buscava na arte uma forma de criticar o mundo que o rodeava. É como justificava suas escolhas artísticas, especialmente quando assumia a direção. 

Assim, optou pela incomunicabilidade do francês Bernard-Marie Koltès em seu espetáculo Na Solidão dos Campos de Algodão, montado em 2003. Da mesma forma, partiu para denúncia da corrupção que o russo Nicolai Gogol apontou em O Inspetor Geral, seu primeiro fruto da parceria com o grupo mineiro Galpão. A experiência foi como uma redescoberta. “Voltei a realizar um trabalho de grupo, como fiz no Teatro de Equipe, em Porto Alegre, e com o Arena, em São Paulo, que me permitiram descobrir realmente o que é fazer teatro”, afirmou, em 2003. “Uma coisa é montar uma peça, apresentar para o público e cada um seguir para casa; a outra é buscar experiências mais duradouras, encontrar novos caminhos como aprofundar a linguagem. Isso só acontece nos grupos.” 

Mesmo convivendo com a doença de Parkinson, Paulo José mantinha uma esplendorosa relação com a vida – ele enfrentava o problema de frente e se apoiava no teatro como inspiração. “Quando estou envolvido com o palco, os sintomas diminuem. Ou seja, o teatro me ajuda a conviver com o problema.” 

Também mantinha uma relação próxima do cinema. Apoiou, por exemplo, a restauração de um de seus principais trabalhos, o filme Macunaíma, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1969, inspirado na obra de Mário de Andrade. Para o ator, o longa ganhou vivacidade ao longo dos anos ao resgatar a falha trágica no caráter do brasileiro. “A cada vez que Macunaíma diz ‘Ai, que preguiça!’, percebemos muito da nossa indolência, aquela indisposição para o trabalho que justifica a vinda da mão de obra escrava negra”, comentou em 2006.

Paulo José lembrava-se do momento em que o filme foi rodado, quando a ditadura acirrava a pressão. “Era a época do AI-5, visualizado no filme quando o sangue brota da água”, comentou ele.

A trajetória de Paulo José coincidiu com a da arte brasileira, especialmente o cinema e a TV. Afinal, ele foi um padre que pecou por amor, sonhou ter todas as mulheres do mundo (e ficou com uma só), deu vida a um herói sem nenhum caráter e, já debilitado, viveu o artista de circo que discute a profissão com o filho em crise.

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