Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Morre a atriz Beatriz Segall aos 92 anos

Conhecida por viver a vilã Odete Roitman em 'Vale Tudo', a atriz estava internada com problemas respiratórios

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2018 | 13h55
Atualizado 05 Setembro 2018 | 15h03

Morreu nesta quarta-feira, 5, aos 92 anos, a atriz Beatriz Segall, conhecida por viver a icônica vilã Odete Roitman na novela Vale Tudo, de 1988. A informação foi confirmada pela assessoria da atriz ao Estado

Beatriz estava internada já há algumas semanas no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com problemas respiratórios. O velório será realizado na própria instituição, a partir das 19 horas, até por volta do meio-dia de quinta-feira. Em seguida, no mesmo dia, o corpo da atriz deve ser cremado em Cotia, na Grande São Paulo. 

++ Análise: Beatriz Segall exibia um talento múltiplo ao representar

Nem que quisesse, Beatriz Toledo Segall poderia interpretar personagens sem classe. Nascida em 1926, numa família de classe média, o pai dirigia uma prestigiada escola no Rio e ela teve educação esmerada, segundo os padrões dos anos 1940 – piano, francês e bordado. Amava o teatro, mas quando anunciou à família que queria ser atriz, o pai quase teve uma síncope. Meninas de boa família não subiam ao palco naquele tempo em que atrizes tiravam carteirinhas de prostituta para exercer a profissão. Mas, nos anos 1950, quando recebeu uma bolsa para estudar francês e literatura em Paris, não renunciou a nada. 

Quando ainda estava no Brasil, ela já havia iniciado um curso de teatro com a grande Henriette Morineau. A temporada na França foi gloriosa – prosseguiu seus estudos e começou a namorar Maurício, filho do pintor Lazar Segall. Casaram-se em 1954 e tiveram três filhos – Sérgio, Mário e Paulo. O primeiro tornou-se um importante cineasta, assinando como Sérgio Toledo. Foi premiado em Berlim, em 1987, com Vera. Durante dez anos Beatriz permaneceu devotada à família, aos filhos. Em 1964, o ano do golpe militar, retomou a carreira, substituindo Madame Morineau na montagem de Andorra no Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Não parou mais. O marido pertencia à ALN, tendo sido preso e torturado. Beatriz teve de ser o arrimo da família nesse período difícil.

Brilhou em todas as mídias – no cinema estreou em 1950, com A Beleza do Diabo, de Romain Lesage. Não filmou muito, mas participou de filmes importantes – Cléo e Daniel, À Flor da Pele, Pixote, a Lei do Mais Fraco, Romance, Desmundo. Na TV, embora tenha participado de novelas de grande sucesso – Dancin’ Days, Água Viva, Pai Herói, Sol de Verão, Barriga de Aluguel, etc. – o grande papel foi como Odete Roitman, que virou emblema de autoritarismo e corrupção em Vale Tudo, novela de Gilberto Braga (com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères) na Globo, em 1988, há 30 anos. Consagrada como vilã, sua personagem inspirou o mistério que, nem depois de solucionado – Quem matou Odete Roitman? –, deixou de inspirar humoristas e autores. 

No teatro, entre muitíssimas personagens, em montagens que fizeram história – Os Inimigos, Marta Saré, O Inimigo do Povo, A Longa Noite de Cristal, O Interrogatório, etc. –, foi uma extraordinária intérprete de Edward Albee em Três Mulheres Altas, contracenando com Natália Thimberg e Marisa Orth na versão de 1995. Em 2009, recebeu do então governador José Serra a comenda da Ordem do Ipiranga.

 

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