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Minas na rede

Chico Pinheiro troca cena regional por posto nacional, a partir de amanhã, em par com Renata Vasconcelos

Patrícia Villalba,

24 de setembro de 2011 | 22h00

Como tantos outros mineiros, alguns célebres como Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende e Fernando Sabino, o jornalista Chico Pinheiro desembarcou no Rio no começo do mês, senão para sempre, por tempo indeterminado. Amanhã, logo às 7h, ele estreia no comando do Bom Dia Brasil, depois de 13 anos à frente do SPTV. No fim das contas, depois de consagrado cidadão honorário paulistano, ele vem viver na "nossa grande namorada", caminho natural, como se nota por aqui, de muitos mineiros. "Nós, das montanhas, olhamos esse lugar como algo fascinante", divaga ele, citando Pedro Nava, escritor mineiro que falava com encanto da "cidade onde muito se pode".

 

A volta de Chico ao Bom Dia - ele ancorou o telejornal em 1996, de São Paulo -, faz parte de uma série de mudanças que a Globo promove no seu jornalismo a partir de amanhã. Renata Vasconcelos continua na apresentação do programa. Renato Machado passa à função de correspondente sênior em Londres.

 

Com elegância, Chico evita comparações, mas a gente pode dizer que a dose de informalidade do telejornal deve aumentar naturalmente, já que faz parte do estilo testado e aprovado em mais de 30 anos desde a estreia no vídeo, na própria Globo. "No começo da carreira, a televisão me parecia algo distante, achava muito importante fazer as entrevistas anotando e tal, como vocês (da imprensa escrita). Tanto é que entrei para a TV pela cozinha (chefia de reportagem). Não pensava nunca em botar a cara no vídeo", lembra ele, que conversou com o Estado nos estúdios da Globo no Jardim Botânico, onde falou sobre o novo Bom Dia Brasil e da mudança de São Paulo para o Rio, numa conversa pontuada por poesia mineira e um dos seus assuntos favoritos - o samba.

 

 

 

O Bom Dia Brasil passará por grandes transformações agora, com a sua chegada?

 

Não, não vejo grande mudança, até porque não tem o que inventar - jornal vive de notícia. Tem a mudança do apresentador e do cenário, e a chegada do Rodrigo Pimentel, que vem falar de segurança pública, um assunto que ganha cada vez mais importância. Mas vai continuar o mesmo Bom Dia Brasil.

 

Mas você acha que um jornal muda muito conforme o âncora? É que me parece que o Renato Machado é mais formal do que você.

 

O conteúdo não muda. Mas evidentemente, você agrega as características de cada apresentador, que é o jeito diferente de contar as mesmas história. O curioso é que eu comecei na televisão tendo o Renato como referência. Deve ter sido em 1985, ele estava na Manchete, apresentando um jornal chamado Noite e Dia e pela primeira vez eu vi um sujeito que não tinha voz de locutor - e eu não tenho voz de locutor - apresentando notícias de uma maneira mais conversada. Ele foi ator, então trazia para o jornalismo essa identificação com a plateia. E eu pensava "aquele cara é legal, isso eu gostaria de fazer". Agora, eu entro para substituí-lo com o meu jeito de ser. O Renato tem mais a ver com a liturgia da apresentação, tem uma elegância toda especial e, embora tenha me chamado a atenção pela informalidade, é mais formal do que eu, sim.

 

E vai acordar cedo numa boa?

 

Já tive isso... Acordava mais cedo ainda quando fazia o Bom Dia São Paulo. Acordava às 3h30 e saía do Morumbi, onde eu morava, para a Globo, que ainda era na Praça Marechal Deodoro. Às vezes com um bocado de sono, mas sem nenhum problema. Agora, eu vou acordar lá pelas 5h. É só se adaptar, como se fosse fuso horário.

 

Mas e as rodas de samba?

 

O que é que tem? Não tem tanta roda de samba assim... Eu adoro samba, e tenho feito a transmissão dos desfiles de carnaval nos últimos anos. Nessa época, visito todas as escolas, vou ver como está o samba enredo... Mas as rodas vão até no máximo onze da noite... Olha, estou no Rio desde o dia 5, e não fui a nenhuma roda de samba ainda. Semana passada fui encontrar uns amigos na feijoada do Cordão do Bola Preta, e levantei umas pautas para o Sarau (musical que ele apresenta na GloboNews). Mas não tem essa roda de samba toda na minha vida, é mito (risos). É que eu adoro samba, acho uma manifestação popular maravilhosa, há muito tempo me apaixonei perdidamente. E as pessoas associam o samba à boemia, à grande alegria, mas "a tristeza é senhora desde que o samba é assim". O samba fala do cotidiano que, para a maior parte dessas pessoas, é marcado por emoções fortes de uma vida sofrida. Não é só o dedinho pra cima, esquindô, esquindô.

 

E há algo de especial no jornalismo matutino, além do que se faz no jornalismo do resto do dia?

 

Ah, claro que tem! Você é o primeiro a dar bom dia a milhões de lares brasileiros. Muita gente acorda, liga a televisão e vê sua cara dizendo "bom dia!". Tem de ser especial. Às vezes é difícil trazer problemas da política, da violência da noite nas cidades grandes, acidentes, enchentes e, logo cedo, você é o primeiro a falar daquilo. E ainda, no meio de tudo isso, trazer um pouco de esperança. Quanto a isso, sinto uma enorme responsabilidade. A letra é do Hermínio Bello de Carvalho: "Que a vida não é só isso que se vê/ é um pouco mais." Eu me encanto muito com a poesia. E a cada dia que passa, pra mim a notícia que fica, que vale, no fundo, é aquela capaz de traduzir alguma poesia e sentimento do cotidiano. A notícia mais elevante é aquela que informa as pessoas de algo que elas usarão para viver melhor o seu dia. É como se a gente dissesse "vai trabalhar, que vale a pena".

 

Você é um mineiro que me parece totalmente integrado a São Paulo. Como está encarando a mudança para o Rio?

 

Sou um homem do meu tempo e da minha cidade. E a minha cidade tem várias caras. Me considero originalmente mineiro, "Minas pulsa em mim onde eu esteja". Drummond, que morou no Rio, dizia "espírito de Minas me visita, e sobre a confusão desta cidade onde voz e buzinas se confundem, lança o teu raio ordenador". Me envolvi com São Paulo de várias maneiras, virei cidadão paulistano, título que me foi concedido com unanimidade pela Câmara Municipal - que eu tanto criticava, por achar que ela deveria se preocupar com coisas mais importantes do que títulos de cidadão honorário, mas que eu tive de aceitar porque percebi que era uma homenagem sincera do povo paulistano. Mas o Rio de Janeiro é a nossa grande namorada, o caminho natural de muitos mineiros. Quando era pequeno, eu tinha um tio na Tijuca, e sonhava com a possibilidade de vir ao Rio, que tem um cheiro de mar que só quem não é daqui percebe. Há 54 anos, eu com 4 anos de idade, minha tia Adelaide pegava a gente pela mão e vinha, de ônibus, da zona norte para nadar na Praia de Botafogo. E mesmo que o Bom Dia seja um jornal do Brasil, nunca vou me esquecer de que estou pisando no território da cidade maravilhosa.

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