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Michael J. Fox fala da decisão de tratar do Mal de Parkinson em comédia

De volta às telas, ator diz que diagnóstico fez dele um intérprete melhor

Mariane Morisawa/ Los Angeles, Especial para O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2014 | 03h00

Na última segunda-feira, Michael J. Fox estava no maior bom humor durante a conversa com a imprensa internacional – e, na noite anterior, ele havia perdido o Globo de Ouro de melhor ator de seriado cômico para Andy Samberg, de Brooklyn Nine-Nine.

Pouca coisa parece abalar o ator de 52 anos, conhecido pela série Caras e Caretas, na televisão, e pela trilogia De Volta para o Futuro no cinema e que está no ar com O Show de Michael J. Fox (exibida no Brasil às segundas, às 20h, no canal Comedy Central).

A série é baseada nas próprias experiências do ator com o Mal de Parkinson. Michael J. Fox foi diagnosticado em 1991 e ficou afastado de projetos maiores por mais de dez anos, quando os sintomas pioraram. Criou uma fundação que já ajudou em diversas pesquisas e disse que adoraria conhecer o ator e diretor brasileiro Paulo José, que também luta contra o Parkinson. Como no seriado, ele encara a doença de frente e com leveza.

Sobre a gênese do show, ele conta que não teve dificuldades para convencer os estúdios. “Foi ridiculamente fácil de vender. Muitos canais queriam fazer. Acho que existem dois tipos de pessoas: aquelas que veem a graça numa determinada situação e aquelas que veem a tragédia numa determinada situação. Meu cérebro, com todas as suas falhas e deficiências, me direciona para o positivo. Eu tendo a enxergar a graça mesmo nas ocasiões mais desesperadoras. Meus produtores e roteiristas leram meus livros, captaram minha maneira de pensar e, juntos, colocamos isso na série.”

Michael J. Fox ainda se surpreende com o sucesso dos filmes De Volta para o Futuro. Mas o ator, que sofre do Mal de Parkinson e atualmente está em cartaz com série em que interpreta um âncora de televisão, rechaça qualquer possibilidade de voltar a viver Marty McFly. “Eu cairia do skate e acabaria quebrando a bacia”, brinca ele na entrevista concedida ao Estado.

Fazer um seriado que gira em torno da doença é uma forma de catarse?

Sim. Não sabia se conseguiria fazer. Muitas vezes ouvi: “Por que você faria algo assim?”. E é porque quero fazer, simplesmente. O seriado podia me destruir, podia ser algo realmente ruim para mim pessoalmente, se não funcionasse. Conseguir fazer e querer mais é fantástico, sinal de que sou mais forte do que imaginava.

Mas por quanto tempo mais você faria O Show de Michael J. Fox?

Por quanto tempo tivesse vontade. Adoraria poder continuar por seis ou sete anos.

Um seriado para uma rede de televisão é um desafio enorme para qualquer pessoa. Como lida com as dificuldades?

Ia acontecer uma coisa ou outra: ou eu ia ser esmagado, sem forças sob o peso do desafio, ou eu ia ficar mais forte à medida que avançávamos. E foi o que aconteceu, fiquei mais forte à medida que avançamos. Tenho um elenco e uma equipe extraordinários. Porque, além de serem excelentes no que fazem, entendem minha situação e minhas necessidades. Sabem que de vez em quando eu posso precisar de um intervalo. E eles levam tudo isso numa boa, com muita facilidade.

Como foi o processo de criar num seriado cômico que lidasse com o mal de Parkinson? Foi fácil vender essa ideia?

Foi ridiculamente fácil de vender. Muitos canais queriam fazer. Acho que existem dois tipos de pessoas: aquelas que veem a graça numa determinada situação e aquelas que veem a tragédia numa determinada situação Meu cérebro, com todas as suas falhas e deficiências, me direciona para o positivo. Eu tendo a enxergar a graça mesmo nas ocasiões mais desesperadoras. Meus produtores e roteiristas leram meus livros, captaram minha maneira de pensar e, juntos, colocamos isso na série.

Acha que as pessoas ficam surpresas porque você leva tudo no bom humor?

Algumas, sim. Acredito que muita gente fica com medo do que pensam ser minha situação. Vejo preocupação em seus olhos e percebo que seus medos são em relação a eles próprios (risos). O que tento explicar, sem ser evangelista ou sem impor uma espécie de filosofia aos outros, é que, se você tem dificuldades na vida, tente encará-las de frente. E aí elas vão ter a proporção que devem. Se você não é honesto sobre o que está acontecendo, a coisa fica mais nebulosa, toma conta da sua vida e acaba te derrotando. Melhor ser assim: eu tenho isso, as dificuldades são essas. Assim tenho espaço na minha vida para fazer o que quero.

Tinha medo de que alguém pudesse achar que você está explorando uma doença?

Sim, pensei nisso. Fiz o possível para deixar bem claro que o seriado é baseado na minha situação, na minha visão de mundo e nas minhas experiências pessoais. O Mal de Parkinson é parte da minha vida. Não acho exploração abordá-lo, porque é uma parte da experiência humana, no caso, da minha experiência.

A doença tornou você um ator melhor?

Sim, de certa maneira. Eu não conseguia ficar parado até que eu simplesmente não podia mais ficar parado (risos). Hoje em dia eu paro alguns segundos antes de fazer ou dizer algo, antes de tomar uma decisão como ator. Por exemplo, se tem um copo numa cena, na hora em que eu for fazer a cobertura, com outro ângulo de câmera, daqui a meia hora, provavelmente não vou mais conseguir segurar o copo. Então para que eu preciso do copo? Era só uma espécie de muleta. Fica tudo mais simples.

Você disse que a doença o salvou tanto do alcoolismo quanto do divórcio.

Sim, é verdade. Primeiro, não queria encarar. Então, fugi para a bebida. Estava me afastando da minha família. Mas não durou, porque a doença é muito presente. Precisei parar e lidar com a dificuldade. Parar de beber não foi nada perto de enfrentar essa doença.

Como está indo o trabalho da sua fundação para pesquisa do Mal de Parkinson?

Vai bem. Você aprende como a ciência é difícil, e como o processo pode ser frustrante. Antes de encontrar a cura, temos de fazer muitas coisas, como convencer as companhias farmacêuticas a procurá-la. Então damos prêmios para aquelas que trabalham com a doença, que não atinge tantas pessoas a ponto de ser interessante economicamente. Também estamos tentando encontrar uma forma de descobrir a doença em estágio mais inicial, por meio de um marcador bioquímico, e assim bloquear seu avanço.

Acredita que vai ver a cura?

Se não tivermos uma cura, acho que vamos ter pelo menos tratamentos bem mais eficazes nos próximos 10 ou 15 anos. E a vida vai se tornar bem mais fácil para os afetados pelo Mal de Parkinson. Eu tenho muita sorte porque, apesar dos meus tremores, respondi bem a uma das drogas mais usadas, a levodopa. O problema é que ela não é eficaz para todos os pacientes.

Como vê a televisão hoje?

Em um momento muito empolgante. Eu me lembro, quando era pequeno, de me sentar em frente à TV preto e branco e havia apenas um canal, passando um programa sobre castores no horário nobre (risos). Tudo está mudando, acho incrível. Amo o caos. Adoro o caos criativo. E meu corpo está em constante estado de caos e de revolta (risos).

No seriado, sua família dágraças a Deus quando seu personagem volta a trabalhar. A sua família reagiu de maneira semelhante?

Minha mulher costuma dizer que casou comigo na saúde ou na doença, mas não para almoçar em casa (risos). Mas a verdade é que eles queriam que eu fizesse o que amo e que estivesse feliz no meu trabalho. Fiquei dez anos fazendo apenas participações pequenas em seriados, mas foi bom porque pude passar bastante tempo com meus filhos. Agora os três maiores cresceram e se mudaram de casa, então foi a hora de me encorajarem a me arriscar.

Quais são suas memórias de De Volta para o Futuro? Gostaria de fazer uma novaversão do filme?

Não tinha ideia de que o filme iria se tornar uma espécie de O Mágico de Oz, uma diversão que pais passam para os filhos. Não posso mais interpretar Marty, estou velho. Fora que eu cairia do skate e acabaria quebrando a bacia (risos). Mas me sinto muito sortudo de ter feito parte de tantos projetos incríveis.

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