Mexa já os seus olhinhos!

Aula de dança indiana vira hit, apesar de a novela praticar quase dança do ventre, aponta coreógrafa

Keila Jimenez, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2009 | 02h06

Sacolejar de ombros? Barriguinha mexendo como se tivesse um Alien dentro? Esqueça todas as dancinhas que você viu até agora na trama das 9 da Globo. Tá. Não é de todo em vão o micão que Tony Ramos e sua turma andam pagando em Caminho das Índias. No entanto, há quem acredite que aquilo esteja longe de dança indiana.

 

Are Baba: as professoras Iara (de vermelho) e Fernanda (à esquerda) em aula de dança indiana, onde pernas, mãos, olhos e até nariz recebem treinamento solo

"Assim que toca a música na novela, ligo para as outras professoras para darmos risada juntas", conta Iara Ananda, professora de dança indiana clássica na Escola Natyalaya, filial de uma academia famosa na Índia. Ananda? Não, ela não é bastardinha de "Seu Tony" com uma firangue estrangeira. O sobrenome é só coincidência. Voltando ao remelexo dos atores: "Aquilo lá está dança do ventre demais", continua a professora. "Alguns passos existem, mas as coreografias estão sem significado. Na dança indiana, cada gesto quer dizer algo, conta uma história. Na novela, eles misturaram várias coreografias. Para quem não entende está lindo, já para quem entende..."

 

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BOLLYWOOD

Mesmo assim, Iara comemora a iniciativa, afinal, o movimento de sua escola aumentou em quase 30% com o início do folhetim. "No estilo clássico ganhamos novos alunos, mas o boom mesmo veio nas aulas de dança indiana moderna, nos estilos Bollywood e Bhangra", conta ela. "A novela desperta a curiosidade."

Bollywood, por sinal, é o estilo adotado na trama de Glória Perez. Aquele em que o ator diz: "O meu Miojo eu gosto bem sequinho" e sai dançando em cena, levando junto com ele, claro, todo o elenco ensaiadinho. O estilo nasceu da indústria cinematográfica indiana, Bollywood.

"Entendo também que atores de novela não têm tempo para ensaiar. Um dançarino indiano estuda uma vida inteira", explica Iara. "São aulas clássicas, aulas para aprender a fazer os sinais com as mãos, aulas só para mexer os olhinhos, a cabeça... Tem aula só para mexer o nariz!" Resumindo: adeus sleep learning!

DEUSES

O Estado acompanhou uma das aulas de Iara, a de dança clássica indiana. Sem sapatos, os alunos seguem a batida incessante de uma baqueta em um pedaço de madeira. Esse é o único som que ecoa na sala. Tem início então uma série, que hipnotiza, de movimentos intensos de pernas. Raj? Que Raj? Cadê aqueles indianos saltitantes da novela?

"Sempre que ensinamos passos, falamos sobre os deuses, as crenças, o que significam na Índia", explica Iara, que recebe um pedido de permissão dos alunos - uma espécie de reverência - sempre que começa e termina cada aula.

"Pedimos permissão aos deuses, ao solo, ao público para dançar", explica ela, enquanto corrige uma aluna, Nadia Barros, que arrastou os dois filhos para as aulas de dança, Sophia, de 7 anos, e Matheus, de 18.

"Queria fazer flamenco, fiz dança do ventre, mas me achei mesmo na dança indiana", conta Nadia. "Os meus filhos vieram experimentar e também adoraram."

Meia hora antes do final da aula - que dura 1h30 - professor e alunos sentam-se no chão para ensaiar os movimentos das mãos. É uma espécie de linguagem de sinais, com nomes tão estranhos que fazem a letra da abertura de Caminhos das Índias parecer Atirei o Pau no Gato.

Para encerrar, Iara liga o som e os alunos se posicionam para uma coreografia. Olhinhos frenéticos, pescocinho de cobra, e um ritmo sacolejante toma conta da sala. É, mas tá faltando algo. Cadê o "Seu Tony"?

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