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Mercado de séries encontra limitações no Brasil

Mesmo em alta, setor de séries ainda enfrenta baixo orçamento no País

João Fernando, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2014 | 02h05

Se não fosse pelo fato de você estar no sofá de casa, em vez de uma sala escura com gente comendo pipoca ao lado, daria para jurar que dezenas de séries exibidas recentemente pelos canais pagos e abertos se assemelham a produções cinematográficas. De olho no público que prefere assistir a boas histórias sem encarar fila, com a chance de pegar a reprise ou ver sob demanda pela internet, profissionais da sétima arte têm migrado cada vez mais para o mercado televisivo.

“A possibilidade de interpretar personagens interessantes e complexos nos grandes estúdios está se esvaindo. Principalmente para os roteiristas, a TV paga é um mundo rico em que eles têm a oportunidade de fazer coisas que não poderiam em um filme. Todos nós estamos tentando ir aonde está o melhor trabalho. E fazer um dinheirinho não dói”, explica o ator Don Cheadle. Figura fácil em filmes de Hollywood, como a franquia Homem de Ferro, ele não larga o osso da TV e segue este ano na terceira temporada de House of Lies, exibida no Brasil pela HBO.

“A TV americana, com predominância dos canais pagos, tornou-se o ambiente da revolução criativa, em que roteiristas, diretores e atores exercem seus papéis com liberdade e antigas fórmulas foram rompidas”, faz coro Patricia Weiss, presidente do braço latino da Branded Content Marketing Association, organização internacional que analisa o mercado de entretenimento.

Segundo a publicitária, o crescimento do mercado de ficção na TV é um reflexo do fato de o cinema ser um meio limitado. “Isso está dando lugar a textos com estruturas dramáticas complexas e construção de personagens mais importantes do que a própria trama. Bem diferente do cinema norte-americano atual, liderado por blockbusters infantilizados e histórias mais rasas.”

O sonho de se tornar uma estrela do cinema tem ficado em segundo plano para quem está bem posicionado na indústria do entretenimento. A carioca Morena Baccarin, uma das atrizes da série Homeland, com passagem pelas principais produções de TV de lá, reconhece o novo foco.

“É engraçado. Sempre quis a carreira no cinema. Trabalhei na TV para consegui isso. E todo mundo do cinema veio para a televisão”, avalia Morena. “Realmente, acho os roteiros maravilhosos. Hoje, diretores e atores estão cada vez mais interessados no setor. O mercado está mudando muito. Acho que a TV está passando o cinema em termos de oportunidades para atores.” Com o compromisso de dedicar cerca de nove meses à série, cuja terceira temporada será exibida no Brasil este ano, Morena Baccarin, atriz de Homeland, diz que dar expediente no cinema dá a vantagem de descansar mais. "No filme, você sabe que são só dois ou três meses e acabou", compara.

As incertezas do cinema preocupam Liev Schreiber, protagonista de Ray Donovan, ainda sem data definida para exibição da segunda temporada na HBO do Brasil. "Como indústria, o cinema tem suas limitações. Você tem de fazer um formato de duas horas, com muito marketing, ter as salas de cinema disponíveis. A TV, especialmente a paga, ofereceu uma opção. Dá para fazer outras coisas com menos dinheiro e manter todo mundo empregado."

O ator afirma preferir ter um salário fixo e uma rotina, como acontece na série. "Uma das vantagens para mim e meus filhos é ter a certeza de que terei trabalho no ano que vem. Antes, eu gostava dessa vida cigana de ficar mudando, mas agora que meus filhos estão crescendo, é bom ficar parado e construir a vida em um lugar", disse o intérprete durante uma teleconferência com a imprensa internacional, da qual o Estado participou.

A passos lentos, a migração também está acontecendo no Brasil. José Luiz Villamarin, diretor de Amores Roubados, que estreia amanhã na Globo, conta que trabalha com profissionais da sétima arte. "Temos um equipe híbrida. Com as séries, tem muita gente do cinema querendo trabalhar em TV. Tenho uma equipe de maquinário, de fotografia e maquiagem."

Felipe Braga, diretor e produtor da série Latitudes, transmitida no ano passado pelo canal TNT e pelo YouTube, avalia que a rapidez nas mudanças da TV do País está atropelando o mercado. Desde que entrou em vigor a lei 12.485, que obriga canais pagos a exibir uma cota de produções nacionais independentes, houve uma corrida das emissoras para colocar os programas no ar.

"Eles (canais) estão contratando produtores, que contratam roteiristas e ficam como intermediários", explica Braga, que dá o caminho para que os projetos tenham longevidade. "A tendência é as produtoras saírem. Os canais têm de trabalhar com os roteiristas primeiro, para depois definir qual produtora vai executar." Para ele, deve haver mais participação dos artistas. "Nos EUA, atores são produtores, como Kevin Spacey em House of Cards."

Patricia Weiss relembra que um dos empecilhos para as séries no Brasil é o investimento. "O baixo orçamento dos canais pagos para produção não consegue atrair grandes talentos de todas as áreas. A exclusividade de contrato da TV aberta prejudica também o desenvolvimento como um todo do mercado, pois restringe a atuação de roteiristas, diretores, atores. E a demanda tende a crescer cada vez mais. Porque a audiência quer mais histórias. Mais ficção e menos noticiário."

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