JF DIORIO / ESTADÃO
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Mercado de dublagem consolida potencial da voz como arte global

Do cinema aos games, profissão ganha força, mas regulamentação ainda é motivo de debate

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 06h00

Foi com a voz de Dalva de Oliveira que Branca de Neve chegou ao Brasil, em 1937. Considerado o primeiro filme dublado no País, o clássico da Disney abriu as portas, por aqui, para uma profissão que, hoje, mais de 80 anos depois, é reconhecida mundialmente pela excelência e pelas vozes capazes de despertar a memória afetiva do público. O Estado conversou com profissionais envolvidos nesse segmento, que está em constante mudança e crescimento – com a consolidação das plataformas de streaming –, mas ainda precisa discutir regulamentação e outros fatores que afetam a qualidade.

Em rápido retrospecto, os tempos de ouro da dublagem brasileira, entre 1960 e 1990, foram protagonizados pelos estúdios Álamo e pelo pioneiro Herbert Richers, este, amigo pessoal de Walt Disney e Silvio Santos, criando um verdadeiro paraíso para o setor. Na época, os profissionais de Richers eram contratados da casa e juntos criaram conhecidas versões brasileiras de atores como Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger e ainda a de Branca de Neve, refeita em 1950.

Durante três décadas, de 1960 a 1990, o total mensal era de 150 horas de filmes dublados, 70% das produções cinematográficas veiculadas no País, fora séries e desenhos animados. “Mas todo mundo sabia que ia quebrar”, conta o ator e dublador Herbert Richers Jr. “O mercado sofreu uma retração, em parte porque a TV aberta passou a produzir conteúdo e também ficou caro manter o profissional exclusivo.” A recuperação foi impulsionada, especialmente, com a chegada do streaming, no início dos anos 2010.

A dubladora e diretora Sandra Mara Azevedo recorda a proximidade de Richers e do apresentador do SBT. Juntos, estúdio e emissora viabilizaram a dublagem das novelas mexicanas e do seriado Chaves, que pega emprestada a voz de Sandra para a personagem Chiquinha. Sandra também faz a Cersei, de Game Of Thrones. Com a compra recente de Chaves pelo Multishow, a dubladora precisou regravar alguns episódios. “O tempo passou, mas a série ainda faz sucesso.”

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Para a atriz, dubladora e locutora da Grupo Globo, Mabel Cezar, uma revolução aconteceu com o avanço da tecnologia digital em todos os campos. “É preciso entender que, no Brasil, o mercado atual de dublagem é gigante e promissor, mas com condições bem diferentes da era de ouro.”

Quando a Netflix estreou House Of Cards, em 2013, a série foi dublada para apenas sete idiomas. Quatro anos depois, Ozark já tinha versão para 25 idiomas. Os dados divulgados pela plataforma no ano passado apontam o crescimento do segmento e sua importância para a audiência, principalmente no Brasil. 

Aqui, a agilidade para alcançar esse resultado dinamizou o mercado. As produtoras passaram a contratar os dubladores por obra e os profissionais, a se dividirem entre os estúdios para dar voz a muitos personagens. No dia a dia, as falas são organizadas em períodos de 20 segundos, os anéis, como se diz em São Paulo, e loop, no Rio. Em visita ao estúdio da TV Group, na Vila Olímpia, uma jovem dubladora emprestava a voz à personagem de uma série infantojuvenil. Dirigida por Sandra Mara Azevedo, a equipe assistia aos trechos no original para que, em seguida, a profissional dublasse. “Eu oriento sobre as intenções da personagem, sugiro variações, é um trabalho conjunto.” 

A tecnologia e os programas de edição também fizeram a área decolar. “Houve um ganho na produção e essa agilidade faz com que o profissional possa dublar em diferentes estúdios”, aponta a tradutora e dubladora Rayani Immediato, que integra a Sociedade Brasileira de Dublagem com Mabel Cezar. Outra possibilidade, celebrada por elas, é dublar remotamente. “Ajuda muito para coisas pontuais”, diz Cezar.

Mas há quem não veja a oportunidade com tanto entusiasmo. No acordo coletivo da categoria, o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado São Paulo (Sated) não permite, por exemplo, que a direção de dublagem seja via videoconferência ou a dublagem gravada em home office. “Não somos contra a tecnologia”, afirma o presidente Dorberto Carvalho. Ele explica que a condição serve para proteger o mercado brasileiro – com mais de 25 estúdios só em São Paulo – e que concorre com brasileiros que vivem em cidades norte-americanas, como Miami. “Há muita dublagem sendo feita em praças fora do País e com estúdios aqui, o que sucateia o trabalho.”

Para Herbert Richers Jr., a possibilidade desonra o potencial da nossa versão brasileira. “Há muito produto e muitos profissionais. É preciso pensar na maneira de remunerar.” Em São Paulo e no Rio, os pisos salariais são organizados por acordos coletivos. A possibilidade de se fazer dublagens em outras regiões – muitas vezes abaixo do preço praticado – interfere no resultado esperado pelo público. Também há casos de dubladores sem o registro profissional. “O resultado aparece nas redes sociais com o público reclamando de séries malfeitas”, afirma Sandra. 

Junto com o streaming, o mercado de games acompanha esse avanço. O estúdio TV Group já fez a localização – termo utilizado para o segmento – de games como Jurassic World Evolution, Disney Infinity e Dying Light. “Trata-se de outro ramo, com processo diferente. Ele é dividido em arquivos de áudio, e não em cenas, como na dublagem”, conta a gerente-geral do estúdio, Maria Ines Moane. Da linha de produtos, cinema e games são os que melhor remuneram. 

A impressão é a de que, além dos problemas, o mercado absorveu a própria qualidade de ser plural. Em termos de profissão, há espaço para todos com formação: atores, locutores, cantores, diretores e tradutores. O ator e dublador Leandro Luna faz parte de um coro de profissionais com carreira nos palcos de musicais e que responde ao requisito para personagens que cantam. Ele empresta a voz ao Hector da animação de sucesso Viva – A Vida É Uma Festa (2017), no original com a voz do ator Gael García Bernal. “É diferente de tudo o que se faz no palco. É você com sua voz.” 

E para quem bate no peito e se orgulha de não assistir a nada dublado, Herbert Jr. diz: “Filme é para ser visto, não lido”, referindo-se às produções legendadas. “Se quer ler alguma coisa, pegue um livro.”

Para quem está começando, a área tem seus segredos

Como se não bastasse frequentar estúdios diariamente, quase todos os entrevistados dão cursos e palestras para a formação de novos profissionais. “Minha vantagem de ter começado ainda nos estúdios Herbert Richers é que a gente aprendia fazendo, já que as dublagens eram em conjunto, com todo o elenco presente”, conta Mabel Cezar. Ao lado de Rayani Immediato, ela afirma que há muitos estúdios buscando novas vozes e que estar preparado é essencial. “Estude muito, treine, experimente, faça exercícios e cuide da voz”, diz Mabel. 

Segundo Rayani treinar a audição é importante. “No teste, pode ser a primeira e última chance de mostrar um bom trabalho.” Para Herbert Richer Jr., entender como se dá a comunicação verbal ajuda a compreender como dublar. “Toda fala tem uma musicalidade. Para dar um intenção, é preciso dar uma melodia. É ouvir um diálogo como ouvir uma música.”

Sobre os cuidados diários, Mabel alerta para a boa alimentação, descanso e atenção quanto ao consumo de álcool. “Refluxo atrapalha bastante e uma noite maldormida pode afetar a voz no dia seguinte."

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