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Mauro Mendonça Filho consolida-se como o condutor de temas adultos

Em 'Verdades Secretas', pai descobre que filha se prostituia

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 04h00

A cena, exibida na semana passada na novela Verdades Secretas, causou impacto pela dose de violência e sensualidade - ao descobrir que a filha Giovanna (Agatha Moreira) é garota de programa em uma situação inusitada - afinal, ele havia contratado seu serviço sem saber de quem se tratava -, o empresário Alex (Rodrigo Lombardi) trava uma violenta discussão com a menina que, em alguns momentos, insinuou incesto. Especialmente quando ele a jogou na cama e pulou em cima. “Foi sutil, mas a intenção era essa”, comentou o diretor Mauro Mendonça Filho, que filmou ininterruptamente com duas câmeras para manter o clímax da cena. O resultado foi precioso e convincente.

Desde sua estreia, em junho, Verdades Secretas vem escalando o ibope das 23 horas, horário reservado pela Globo para temas eminentemente adultos. E a novela de Walcyr Carrasco trata de um assunto espinhoso, a prostituição disfarçada nas agências de modelos (o famoso book rosa) e o poder inquebrantável do dinheiro. O que se vê, no entanto, não é um tratamento rotineiro destinado aos folhetins - Mauro criou uma forma de narrar pouco vista na TV brasileira.

“Maurinho é um diretor que entende e interpreta o texto, de uma forma própria. É um diretor autoral, mas que respeita e faz brilhar o roteiro e a história”, observa Walcyr. Eis o segredo da alquimia: apropriar-se de uma narrativa original e, sem desrespeitar, transformá-la em um novo e burilado objeto. Próximo dos 50 anos (completa em agosto), o filho dos atores Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho tornou-se o diretor que serve a realidade em um potente e cuidadoso coquetel servido gelado.

Basta observar as cenas projetadas na tela da TV, cuidadosamente esculpidas. A iluminação é clara, direta, muitas vezes clean; a trilha sonora foge do padrão “músicas temáticas para cada personagem” e abraça tanto o pop ruidoso como o piano confortador. Já a atuação é um caso à parte. “É um diretor completo porque é esteta, sensível. Transita no limite das emoções. É visceral. Trabalhar com ele significa segurança e isso para o ator é sensacional”, detalha Grazi Massafera que, no papel da modelo Larissa, promete oferecer fortes emoções nos próximos capítulos: destruída pela droga, ela acaba na cracolândia.

“Fiz pesquisas no local, conversei com os frequentadores e fiquei sensibilizado com a situação daquelas pessoas”, conta Mauro, que promete transformar a bela Grazi em um estado lastimável. Com o passar dos anos, o diretor desenvolveu um estilo particular, em que o realismo é apresentado em todos os seus detalhes ao espectador que, apesar de incomodado, não se sente ultrajado por recursos grosseiros e sensacionalistas.

E isso é conquistado a partir de uma parceria estabelecida com o ator que, sob sua direção, perde a estabilidade do conforto. Assim, ele conseguiu transformar a angélica figura de Bruno Gagliasso em um serial killer (Dupla Identidade), assim como o galã Rodrigo Lombardi é o empresário convencido de qualquer um tem seu preço.

“Meu ponto de partida é deixar o ator brilhar - ali é o espaço dele. Para isso acontecer, é preciso estabelecer uma confiança extremada com a equipe criativa”, fala Mauro, cuja dedicação já se tornou notória. “Eis um diretor extremamente sensível e obsessivo”, comenta Gagliasso, ciente de que Dupla Identidade modificou sua carreira.

Tal dom vem sendo cultivado há vários anos. Começou na TV em 1984, como editor de novelas como Partido Alto e Corpo a Corpo. Quatro anos depois, já trabalhava como assistente de direção. “Foram duas funções que me deram uma base sólida para trabalhar com a dramaturgia”, explica. Paralelamente, desenvolvia carreira também no teatro, estreando com a comédia Deus, de Woody Allen, em 1998, com Murilo Benício.

Com o tempo, foi adquirindo confiança e ampliando caminhos. “Maurinho foi o primeiro diretor de A Grande Família”, conta Marieta Severo. “Trabalhamos juntos há 15 anos. Agora, em nosso reencontro em Verdades Secretas, vejo que ele se transformou, conquistou o próprio estilo, apesar de ainda jovem. Sua marca está na narrativa, na escolha de câmera, na direção do ator. E ainda tem o ouvido muito apurado.”

Um estilo que não permite meio tom. “Sou radical: no humor, que considero a grande arte, gosto do mais sarcástico, destrutivo, como Jackass”, conta. “Respeito também a telenovela, que representa a identidade nacional.” É o gênero em que, a cada trabalho, ajuda a renovar, sempre atento à reação popular. “Assisto cada capítulo de Verdades Secretas com um medidor de audiência e de olho no twitter. Muitas vezes, ali está o verdadeiro termômetro.”

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