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Maurício Farias fala sobre aceitação de humor ácido, antes dito ‘incorreto’

Diretor vê público de hoje mais aberto à autocrítica

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2014 | 21h06

A despeito de alguns evangélicos que se chatearam com o videoclipe Crentes, paródia de Friends exibida no episódio passado de Tá no Ar: A TV na TV, ganha força a torcida pela realização de uma 2ª temporada do programa de Marcius Melhem e Marcelo Adnet. Finalmente, a Globo consegue rir, ou pelo menos fingir que ri, de si mesma, e volta a parodiar comerciais, como nos velhos tempos de TV Pirata e Casseta & Planeta. Daí o fato de se atribuir ao Tá No Ar uma oxigenação há muito necessária no humor do canal.

Melhem e Adnet, no entanto, não estão sós. Na idealização do programa, têm a companhia de Maurício Farias, diretor que comandou algumas das comédias de maior sucesso da Globo nos últimos 14 anos, a começar pelo lançamento da segunda versão de A Grande Família, programa do qual se desligou só há quatro anos, para então fazer Tapas & Beijos, outro título contemplado com vaga fixa na programação da Globo e já com espaço garantido em 2015.

Tá no Ar, ou ao menos a safra atual, terminará na próxima quinta-feira, com a exibição do nono episódio. Com uma profusão de cenas curtas, de quem está zapeando pelos mais de 100 canais de um televisor, é um programa mais complexo de se produzir e editar. Por isso, não poderia ficar no ar permanentemente, como aconteceu com Lineu & cia. ou Fátima e Sueli. Mas a equipe quer voltar ao ar no rodízio de temporadas.

E alguém mais se queixou de não ter gostado da piada? "Não que tenha chegado até nós", diz Farias ao Estado, confiante na maturidade de um público mais aberto à autocrítica.

Farias sabe onde pisa. Das restrições impostas aos cassetas em seus últimos anos de programa, até aqui, ele dirigiu Junto & Misturado, que começou a desamarrar alguns tabus decretados pela longa era do riso politicamente correto. Entre uma temporada e outra do programa de Bruno Mazzeo na TV, o Porta dos Fundos avançou no teor da piada e virou fenômeno na web, endossando que há público de sobra interessado num humor mais ácido e crítico. Para Farias, uma série de fatores conspira a favor do quadro atual e isso vai além da TV.

"A gente pode ser até mais contundente com as brincadeiras, com as críticas, se tiver bom humor e souber fazer isso com certa elegância", argumenta Farias. "O humor está sempre nesse fio da navalha: se der um passinho pra lá ou pra cá, pode ir para o mau gosto, ser desagradável, incomodar ou chocar: quanto mais polêmica e delicada é a questão, mais riscos você assume. Então, o Tá no Ar faz parte de um movimento nosso, da cultura brasileira, muito maior que o programa, de que nós precisamos nos criticar mais abertamente, avançar mais na autocrítica e principalmente aprimorar o nosso País, resolver as questões às claras: a gente não pode ter não-me-toques. Se a gente está errando, é importante que a sociedade tenha mecanismos para reconhecer isso e o humor é um deles."

Para Farias, os americanos, nesse aspecto, têm uma tradição mais antiga de um humor mais ácido. "Nós estamos, talvez, transpondo isso, estamos avançando, no sentido de discutir o que é melhor pra nós como sociedade. Vamos viver numa sociedade cheia de não-me-toques ou vamos abrir pra todo mundo falar tudo?"

Nos sete episódios vistos até aqui, Tá no Ar debochou da elite paulistana, da classe médica, parodiou programa policialesco ao modo Datena e Marcelo Rezende, tratou hit infantil (A Galinha Preta Pintadinha) como ritual de macumba, criou o rap de Jesus Cristo e o já citado Crentes, com base em Friends. A boa aceitação do público, aposta o diretor, representa "uma semente de um movimento que está dentro e fora da televisão".

Nessa receita, ele inclui a vontade de fazer a comédia flertar cada vez mais com a dramaturgia, mas não só a teledramaturgia do riso, escola que ele diz admirar muito. "O Tá no Ar tem muito a ver com Junto & Misturado e é um modelo em que eu acredito e que há muito tempo eu persigo na televisão: fazer uma comédia num tom que se aproxime de outras dramaturgias que não um humorístico tradicional", diz. "Essa dramaturgia envolve comédia e drama. Sempre tive vontade de chegar ao humor por essa veia também, de outros tons. Essa mistura resultou da minha parceria com o Bruno em Junto & Misturado e, agora, na minha parceria com o Adnet e o Márcio, pude trazer minha maneira de ver esse universo e a maneira de chegar a esse humor."

Outra equação difícil é apresentar a tão requisitada inovação solicitada pelo público, sem perder o foco do que de fato lhe interessa. Em seu 14º ano no ar, A Grande Família, por exemplo, encontra meios de se reciclar a cada temporada, sem mexer no caráter daquelas figuras que tanto interessam ao público, com os mesmos cacoetes de sempre.

"O criador, o autor, está sempre procurando um novo território para ir, para poder criar e experimentar coisas novas. A continuação do sucesso, ou a perpetuação da maneira de fazer, é mortal: dessa forma, ele fica estagnado. Essa cultura de novos caminhos faz parte do DNA do criador."

O diretor, no entanto, não ignora que a televisão, como indústria, automaticamente tropeça justamente no caminho contrário, insistindo em fórmulas já avalizadas pela audiência, a fim de buscar o sucesso fácil. "A televisão tem muito disso, com seus compromissos com a audiência linear, de precisar ser vista por todo mundo, em todos os horários." Talvez o Tá no Ar, acredita, tenha alcançado algum frescor no sentido de romper com o "mais do mesmo".

O programa exibe ainda uma série de outras subversões, observa Farias. "Além de mexer com marcas, fazer a crítica à própria Rede Globo e aos críticos da Rede Globo, de mexer com a televisão de modo geral, o programa mexe também com os parâmetros sobre o que é um programa de televisão, ao propor um quadro que sai do ar antes de acabar, antes do bordão, do seu desfecho. Estamos contrariando uma regra dramatúrgica e desafiando o público nesse jogo", orgulha-se.

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