Robson Fernandes/Estadão
Robson Fernandes/Estadão

Mark Gatiss, de ‘Doctor Who’ e ‘Sherlock’, fala do bom momento das séries britânicas

Ator, produtor e roteirista afirma que as melhores produções são as que instigam e desafiam a inteligência do leitor

Clarice Cardoso, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2014 | 21h12

Mark Gatiss talvez seja um dos nomes mais importantes dos seriados britânicos do momento. Seu nome aparece nos créditos de duas grandes produções: Doctor Who, no ar há imponentes 50 anos, e Sherlock, a aclamada adaptação da obra de Sir Arthur Conan Doyle que ele cocriou. Ambas exibidas pela BBC HD.

Mais do que respeitado roteirista e produtor, Gatiss ainda atua na última série como Mycroft, o irmão do detetive protagonista. A lista de participações não para por aí: ele estará na próxima temporada de Game of Thrones, que estreia em abril. No País desde a semana passada, participou de seminários e sessões de autógrafos que arrastaram hordas de adolescentes, e para as quais a fila começou a se formar às 5 h da manhã no último sábado num shopping da cidade.

Em São Paulo, Gatiss recebeu o Estado para falar de Doctor Who e de Sherlock e do momento atual das séries britânicas.

Você esperava ter uma recepção tão calorosa no Brasil?

Fiquei simplesmente abismado. Foi uma loucura. Suponho que fosse óbvio que as pessoas quisessem guardar seus lugares, mas não parava de pensar no que elas estavam fazendo lá. Além de ficarem histéricas, que foi o que aconteceu na hora em que eu cheguei. Foi incrível. Talvez tenha sido o mais próximo que eu já estive de ser um cantor da banda One Direction, o que foi bem divertido... (risos)

O tamanho das filas pode ser interpretado como um sinal de que a qualidade das séries britânicas está sendo reconhecida pelo mundo e pelos brasileiros?

É muito gentil da sua parte dizer isso, mas acho que um fator que conta é que pouca gente da TV mundial vem até aqui, então há uma demanda reprimida. O sucesso de Doctor Who no Brasil deixou todos surpresos. Soube do dia em que o especial de 50 anos foi exibido nos cinemas, e que foi um sucesso absoluto. Para mim, isso é fantástico. O mesmo ocorre com Sherlock. Obviamente, as duas séries são uma fonte vasta e infinita de tensão e entretenimento.

É notável que os fãs de Sherlock e de Doctor Who não são espectadores ocasionais. Eles se envolvem emocional e intelectualmente, criam discussões na internet, desenvolvem teorias...

Sim, são muito interativos. É algo complicado, porque é muito fácil ir para o lado oposto. A maioria das pessoas vê uma série de TV uma única vez se você tiver sorte. Eles pegam o episódio pela metade, começam a conversar, a fazer outras coisas... Eu não entendo essas pessoas. Mas, aí, há os fãs que veem obsessivamente, e as comunidades de fãs se desenvolvem. O interessante é que essa é uma versão moderna de algo que sempre aconteceu. Com Sherlock, por exemplo. Quando ele foi lançado pela primeira vez, e tornou-se um sucesso, as pessoas ficaram ultrajadas quando (Sir Arthur) Conan Doyle o Matou. Depois comemoraram quando ele voltou. E houve os que ficaram obcecados com as histórias, com as diferenças entre elas, e começaram a escrever suas próprias versões e coisas assim. É incrivelmente similar com o que aconteceu com Arthur Conan Doyle.

Essa recepção de alguma forma interfere no proceso de criação da série? No início da terceira temporada de Sherlock, por exemplo, vocês criaram em um episódio um núcleo de fãs para criar teorias estapafúrdias e divertidas...

Não interfere. Apenas num sentido: quando Sherlock pulou do telhado, obviamente sabíamos como ele voltaria, mas não fazíamos ideia de que isso se tornaria esse debate internacional. Então, quando chegou a hora de escrever esse episódio, sabíamos que não poderíamos simplesmente dar uma explicação, porque isso seria uma decepção. Nos meses anteriores, eu pensava que havia apenas tantos meios de alguém pular de um telhado e sobreviver. Fiquei pensando que as pessoas esperavam algum tipo de milagre (risos), e então fiz isso porque sabia que, no final, a verdade seria um pouco decepcionante. Tinha de ser. No fim, o mistério é a coisa mais importante.

Como Hitchcock dizia...

Sim! Exatamente! Então tive a ideia de começar com finais falsos e absurdos, que meio que tirariam as pessoas do caminho certo. Até a hora de chegarmos ao que era possivelmente a verdade, ela não importava mais, porque não era mais a questão. Isso foi uma forma de reconhecer a proporção tomada pela coisa. Mas não é o mesmo que ficar navegando pela internet lendo as teorias das pessoas, porque eu enlouqueceria se fizesse isso.

É curioso você dizer isso, porque há os fanáticos por Dr. Who que dizem que a série às vezes se aproveita de suas teses... 

Não! É uma reação compreensível. Steven Moffat me disse, quando começamos a história de River Song, que alguém, obviamente, havia adivinhado tudo. Porque, de novo, só poderia ser um número limitado de coisas. Mas não é a mesma coisa. E não há nada de errado com isso, é a parte divertida de especular, não é? Mas seria loucura fazer algo assim. Tomaria muito tempo, e nós mal temos tempo de ler os nossos próprios roteiros...

Doctor Who está no ar há 50 anos. É talvez o caso mais longevo de uma produção no ar até hoje. Como é começar a trabalhar em algo com um legado tão forte?

Fiz o especial Legend in Space and Time, para comemorar os 50 anos, mas isso foi diferente, foi realmente um projeto de paixão, em que eu trabalhei por mais ou menos 13 anos. Amo a história e os modos como ela tem sido contada e o fato de que, cinco décadas depois, ela está maior do que nunca. Quando me procuraram para trabalhar em Doctor Who, mais ou menos dez anos atrás, acho, foi como um sonho que se realizava. E ainda é.

Sobre o sucesso de Doctor Who no Brasil, e vendo os jovens que o procuraram: é curioso que uma série cinquentona atraia tantos adolescentes, não? 

Sou um grande fã de História, e não é preciso ser velho para gostar de História, ela é interessante por si só. Tenho certeza de que muita gente nunca viu o programa antigo, e espero que vejam, porque é ótimo. E eu me lembro muito bem, de quando eu comecei a me envolver com Doctor Who. Parte da graça de ser um membro mais velho da família é ter o direito de falar que sabe mais sobre aquele assunto. Eu me lembro de meu irmão e de meu pai falando dos episódios que eles viam, e eu ficava maluco, querendo saber como era aquilo, como tinha sido feito. Depois, fui encontrar fotos antigos, o que era mágico. Aqueles episódios não estavam disponíveis. Então digo que é o público que mantém Doctor Who jovem, porque ele continua mudando também. Se você tinha oito anos quando Matt era o Doctor, e hoje tem 11 ou 12, a imagem dele está fixada na sua cabeça até o fim. Ele é o seu doutor. E agora, com Peter, você ficará assustado, mas isso será fantástico. E hoje há alguém de oito anos que verá Peter e que, nos anos seguintes, terá ele como seu doutor. É a renovação da audiência que mantém a série sempre fresca. E também o fato de ser uma ideia brilhante. Se formos ver, é o formato mais flexível que se possa imaginar, porque podemos ir para qualquer lugar no espaço e no tempo. Literalmente.

Não só Sherlock e Doctor Who ganham fãs no Brasil, mas outras séries britânicas também, caso de Downton Abbey, House of Cards (refilmada nos EUA), e mesmo Black Mirror. O que há nos roteiros britânicos que os diferencia?

Acho que há coisas incríveis sendo feitas em todo o mundo. Os dramas norte-americanos são surpreendentes. Na Inglaterra, estamos sendo inundados com os dramas criminais escandinavos, na verdade.

Como The Killing?

Sim! Que é sensacional! E é algo totalmente diferente, que é ao que as pessoas estão respondendo. Acho que vivemos um momento em que o mundo está descobrindo o que os outros estão produzindo. Mais que tudo, o mais importante é não subestimar a audiência, realmente respeitar sua inteligência e desafiá-la. Não é por acaso que tanta gente responda a séries como Breaking Bad e The West Wing, porque elas exigem algo do espectador. Muito pouca gente vai resistir a isso porque não consegue acompanhar. Elas querem acompanhar. Eu me pego saltando do sofá vendo The West Wing, porque há cinco tramas acontecendo ao mesmo tempo. É emocionante! Por que a TV ia escolher não fazer isso? Por que ir pelo caminho contrário, nivelar por baixo e fazer tudo muito básico?

Como será o futuro de Sherlock? Teremos Benedict Cumberbatch e Martin Freeman? E quanto de Conan Doyle entrará nos roteiros futuros?

Uau! São quatro perguntas em uma! (risos) Bem, obviamente não há programa sem Bennedict e Martin, seria absurdo, eles são a série. Ambos estão muito envolvidos em continuar, o que estamos tentando é conciliar as agendas, o mesmo de sempre. Provavelmente termos duas temporadas mais uma vez, o mesmo de sempre. Gostaríamos de fazer o mais rápido possível, mas até escrevermos e produzirmos os episódios, que são na verdade três filmes, e conseguir alinhar a disponibilidade de todo mundo... É muito difícil. Steven e eu já falamos sobre a quarta temporada e até sobre a que viria depois dela. Elas teriam o mesmo de Conan Doyle de sempre. Me perguntam se vou ficar sem histórias de Sherlock para contar, mas obviamente, há pedaços delas em todas as partes, e há muito sobrando. Do mesmo modo, ficaríamos perfeitamente felizes em fazer histórias totalmente novas.

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