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Marieta Severo vira a página de Dona Nenê

Na novela que estreia nesta segunda-feira, 8, às 23h, ela será cafetina de luxo, primeiro papel na TV após ‘A Grande Família’

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

07 de junho de 2015 | 10h00

Marieta manda um beijo para os seus, inclusive pra Dona Nenê, que, como diz, “habitou” nela por 14 anos. A partir desta segunda-feira, 8, a atriz se apresenta em Verdades Secretas, nova novela das 11 da Globo, como Fanny, figura que jamais frequentaria os círculos do irrepreensível Lineu, o patriarca de A Grande Família. Em seu primeiro papel na TV após o seriado mais longevo da TV brasileira, Marieta Severo, 68 anos, será a antítese daquela dona de casa dedicada à família. Proprietária de uma agência de modelos que leva o seu nome e oferece suas meninas para todo tipo de negócio (principalmente para prostituição de luxo) Fanny é uma cafetina na essência.

De Walcyr Carrasco, a novela das 11 segue aquele modelo mais curto, com menos de 70 capítulos. Pela primeira vez desde que essa vaga foi aberta (com O Astro, em 2011), teremos uma história inédita, caráter escolhido para celebrar o cinquentenário da Globo. No enredo, Angel (Camila Queiroz), a nova aposta da agência Fanny, atrai um de seus maiores clientes (Rodrigo Lombardi), que inicia um romance com a ninfeta e depois, obcecado por ela, decide se casar com a mãe da garota (personagem de Drica Moraes).

Avessa ao conservadorismo, Marieta se mostra, no entanto, favorável às restrições impostas pela Classificação Indicativa. Até por isso, celebra o horário de Verdades Secretas, que permite uma abordagem mais evidente desse universo do chamado “book rosa”, catálogo das modelos que se dispõem a fazer programas como acompanhantes. Com direção de Mauro Mendonça Filho, a produção não economiza na libido das cenas.

Fanny será par de um de seus belos modelos, papel de Reynaldo Gianecchini. Ele não se dá muito bem nas passarelas e, a princípio, vive sob as asas da empresária. “Eles usam um ao outro”, conta Marieta. Eis aqui um resumo da nossa conversa.

É possível defender a Fanny?

Defender personagem tem vários sentidos. Eu vou defender a personagem com unhas e dentes. Quero penetrar, quero fazer. Defender, pra nós atores, quer dizer isso: quero mergulhar na Fanny. Agora, como pessoa, não defendo nada da Fanny, a Fanny é uma amoral, sem escrúpulos, é uma mulher cujos valores são o poder e o dinheiro. Acho que ela espelha muito bem uma parte da sociedade contemporânea, que se rege por esses valores. Ela é completamente representante dessa maneira de estar no mundo, que é querer ter muito poder, muito dinheiro e não ter escrúpulo pra conseguir qualquer uma dessas coisas.

E é possível fazer essa defesa, do ponto de vista do ator, sem defender de fato? Tem quem confunda uma coisa com outra.

Não, não, eu não confundo nada nada nada nem nunca confundi. Eu sei muito bem qual é o território da minha vida, dos meus valores, e o personagem, seja uma dona Nenê, seja uma Fanny, mas eu vou defender no sentido de fazer com que o público acredite que essa personagem existe. Eu não vou defender as razões dela, mas quero que todo mundo acredite na força das razões dela.

Ela já começa a história como essa dona de agência que vai trabalhar o tal book rosa ou isso vai aparecer ao longo dos capítulos?

Já nos primeiros capítulos isso aparece. Ela já propõe pra essa menina, a Arlete (Angel), que ela faça o book rosa. Ela realmente acredita que se prostituir é uma maneira lícita, ótima de ganhar dinheiro.

E ela mesma tem alguma experiência nisso?

Ela é uma mulher que fica dito que ela já passou por isso, mas, como ela mesma diz, agora ela compra, ela não se vende mais.

Você conhecia essa indústria de moda?

Não, a gente sabe um pouco das coisas, as coisas são faladas, comentadas, sempre tive uma admiração pela moda. Mas eu nunca tinha ido a um desfile de moda. Fui agora, de Fanny, pela primeira vez.

Qual foi a sensação de voltar a gravar no mesmo estúdio de ‘A Grande Família’, em outro papel?

A gente já estava planejando essa separação, esse término (de A Grande Família), há uns 3 anos, mais ou menos. Foi feito com muito carinho, muito cuidado, tanto que o último programa foi aquele programa lindo, emocionante, de homenagens a nós e aos nossos colegas. Agora, quando realmente acabou, veio uma crise de abstinência. É muito estranho, fiquei muito esquisita, senti muita falta de encontrar aquelas pessoas, porque na vida a gente quase não consegue se encontrar, cada um começa a ser arrastado pelos trabalhos, família, deu muita saudade dos personagens. Quando você faz por 14 anos um personagem, quase não consegue mais se despedir dele, ele já está entranhado em você, a dona Nenê que habita em mim fica com saudade do Lineu, dos filhos, não era pra fazer tanto tempo um personagem.

E é o personagem mais longo da sua vida, não?

O mais longo e o mais avassalador. Até na minha relação com o público: sinto que tem uma dona Nenê entre nós, que me traz um carinho, uma adesão do público, uma vontade comigo muito grande, já me olham aqui como essa mãezona.

Acha que isso será rompido com a chegada da Fanny?

Acho que continua. A gente tem uma teledramaturgia das melhores do mundo, muito avançada, muito elaborada, e o público está acostumado a ver isso há muitos anos. A Globo tá fazendo 50 anos, são gerações criadas dentro da telenovela. Quando eu fiz o Rato, do Sheik de Agadir, há quase 50 anos, uma vez eu estava andando em Copacabana e me jogaram pedra. Ninguém faz mais isso, todo mundo sabe distinguir a Glória Pires do personagem dela.

Em entrevista à GloboNews, Dennis Carvalho falou sobre a necessidade de o público perceber que novela é ficção.

Acho que as pessoas distinguem, sim, vão saber perfeitamente distinguir a Marieta que fazia a Dona Nenê da Marieta que faz a Fanny, espero até que exista a admiração de um ator fazer personagens tão diferentes, a gente quer que valorizem a capacidade que a gente tem de fazer coisas muito diferentes. Eu não quero ficar no mesmo lugar. Se me chamassem pra fazer o que poderia ser o melhor personagem do mundo, que ia ser uma dona de casa, que ia colocar uma mesa e segurar uma travessa, eu ia dizer ‘não, muito obrigada’. Podiam me pagar o que quisessem. Quero ir pra outro universo, pesquisar outros aspectos do ser humano, não quero estar mais ou menos no mesmo lugar. O mesmo lugar é o lugar do conforto e o lugar do conforto não é o mais estimulante pra um ator.

‘Verdades Secretas’ vai ao ar num horário que dispensa cuidados com crianças na sala. Como você vê os critérios da Classificação Indicativa?

Acho que cabe a eles estabelecer esses critérios, sim. Tem que proteger as crianças de determinados temas que não são adequados à idade delas. Quando uma criança com 5 anos te faz uma pergunta, seja qual for, e te faz a mesma pergunta aos 10, a sua resposta aos 5 será uma e aos 10 será outra. Aos 14 será outra. Tem certos temas e a maneira de abordar que não são adequados para crianças. É preciso haver adequação, uma indicação de faixa etária, e os pais não deixarem ver. Aos artistas cabe fazer, apontar, abrir caminhos e cada um tem o critério particular da sua vida. Desligue, mude de canal, vá fazer outra coisa.

O que espera da Fanny?

Acho que tenho um personagem muito rico, com muitas facetas, muita complexidade. A novela tem uma densidade de envolvimento emocional, psicológica, não tem esses recursos da novela clássica, mas vai envolvendo o telespectador numa densidade emocional, psicológica, principalmente desse trio, com mãe e filha.

Sobra alguma coisa sua na Fanny?

O meu corpinho tá lá.


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