Raquel Cunha/Globo
Raquel Cunha/Globo

Marco Ricca discute a ditadura militar ao viver um delegado em 'Os Dias Eram Assim'

Ator e especialistas falam sobre a desinformação que envolve o período

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2017 | 06h00

Antes de lançar a supersérie Os Dias Eram Assim, que estreou em 17 de abril, a Globo fez uma pesquisa interna com grupos específicos da população com o objetivo de saber quais eram as informações que tinham sobre um dos períodos mais sombrios da história recente do País, o regime militar instaurado em 1964. “A falta de informação que pudemos detectar nos grupos pesquisados é alarmante”, revelou por e-mail ao Estado o novelista Silvio de Abreu, diretor de gênero de dramaturgia diária da emissora (veja depoimento ao lado).

O ator Marco Ricca, que interpreta o personagem mais identificável com aquele período - o delegado Amaral, encarregado de prender e torturar opositores da ditadura -, também ficou surpreso com o resultado e espera que o drama ajude o público a conhecer melhor aquele momento. Reconhece, porém, os limites de uma obra dramatúrgica feita para a TV. “Acredito que Os Dias Eram Assim não possa aprofundar todos os temas que levanta, mas espero que consiga atingir o objetivo de explicar melhor o golpe de 64 para grande parte da população que ainda desconhece o que aconteceu.”

Inicialmente, o ator - que se formou em História e chegou a dar aulas em colégios da periferia de São Paulo - cogitou não aceitar o papel, pois não queria viver um personagem tão identificado com o mal. Mas, ao ler o livro A Casa da Vovó - Uma Biografia do DOI-Codi (1969-1991), de Marcelo Godoy, jornalista do Estado, convenceu-se de que poderia compor o delegado de uma forma menos maniqueísta.

 

“No livro, entende-se a gênese desses torturadores, que se colocavam sempre a serviço do Estado, participando de uma guerra contra o mal, que eram os militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura. Alguns deles se posicionam, reconhecendo que, em certos momentos, torturavam por prazer”, comenta.

Segundo especialistas consultados pelo Estado, são inúmeras e complexas as explicações para o desconhecimento da população sobre a ditadura militar. “No Brasil, houve um acordo entre as elites e algumas lideranças populares para não se investigar com cuidado e rigor as razões que explicam a instauração da ditadura e sua permanência por tanto tempo”, entende Daniel Aarão Reis, historiador, escritor e professor da Universidade Fluminense.

Para Marcelo Godoy, no Brasil (ao contrário de Argentina e Chile, que também sofreram com ditaduras militares) os excessos e os crimes cometidos pelos militares não ficaram conhecidos de forma mais ampla, logo após seu fim. “Com isso, herdamos até hoje esta omissão”, acredita.

Já Emília Silveira, diretora de dois importantes documentários sobre o tema (70 e Galeria F), relaciona o esquecimento involuntário com o sistema educacional que, para ela, tem inúmeras falhas. “E uma das mais significativas é não formar um cidadão livre para construir o futuro”, observa. 

Dentro da temática. Quando Os Dias Eram Assim terminar, Marco Ricca deixará de lado o delegado Amaral, mas participará de dois projetos ainda envolvidos em ditaduras brasileiras: a do Estado Novo (1937-1945) e, novamente, a de 1964. Ele aceitou o convite do diretor Jorge Furtado, que filmará Rasga Coração, peça de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. E dirigirá, no início de 2018, seu segundo longa, baseado nos dois romances de B. Kucinski, K: Relato de Uma Busca e Os Visitantes.

 

“Estou muito empolgado com estes dois projetos, porque eles tratam de momentos recentes da nossa história que precisam ser revisitados sempre, para evitarmos, quem sabe, discursos de ódio que hoje imperam no País”, espera.

DEPOIMENTO - SILVIO DE ABREU, DIRETOR DE DRAMATURGIA

'A história é contada como aconteceu'

Um povo que não conhece a sua história está fadado a repeti-la. A falta de informação sobre o golpe de 1964 que pudemos detectar nos grupos pesquisados é alarmante. 

As trágicas consequências para a liberdade do País e as lutas que foram necessárias para restabelecer a democracia no Brasil não podem ser esquecidas até por uma questão da nossa sobrevivência como um país livre. 

Hoje em dia, a radicalização de opiniões de grupos opostos tende a levantar uma polêmica imbecil, como se a super série Os Dias Eram Assim (exibida pela Globo no horário das 23h desde abril) fosse uma bandeira a favor deste ou daquele grupo partidário, o que não é verdade. 

Estado democrático. A História está sendo contada como aconteceu, os mocinhos de ontem são os bandidos de hoje, agora sem farda e, se os contestadores têm hoje o direito de protestar, devem essa liberdade aos que se sacrificaram por ela naquela época. Sem torturas e com direitos civis assegurados, graças ao estado de democracia que foi conseguido, podemos nos manifestar, discutir e tentar colocar um fim não a uma ideologia, como em 64, mas na corrupção que corrói o País.

 

É importante saber o que aconteceu, para usar o direito e o poder que todo cidadão tem de lutar por um país melhor e mais justo para todos.”

Ator evita se inspirar no delegado Sergio Fleury

Quando se pensa na figura de um torturador, uma das imagens mais recorrentes é a de Sérgio Fleury, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, o Dops, que combateu de forma implacável os opositores do regime militar. Fleury, até hoje, é considerado um dos maiores torturadores daquele período, com uma lista de crimes que é relatada pelos depoimentos dados à Comissão da Verdade.

Assim que aceitou fazer o papel do delegado Amaral na supersérie Os Dias Eram Assim, Marco Ricca conta que imediatamente lhe veio à mente a imagem de Fleury. “Mas não quis fazer nenhuma referência direta a ele”, explica. “Há outros exemplos de delegados que participaram do serviço institucionalizado de tortura, perpetrada pelo Estado. Não usei nada dele, nem gestual ou comportamental. Ele, inclusive, era um sujeito muito expressivo e com uma personalidade próxima da caricatura, o que distanciava muito do que eu queria representar: um agente mais contido que, se fosse encontrado em um lugar público, jamais indicaria ser alguém capaz de cometer sessões de torturas e assassinatos hediondos.”

Além da supersérie e depois do sucesso de público e crítica do seu personagem Mão de Luva, na novela Liberdade, Liberdade - agora transformada em uma microssérie de oito episódios -, Marco Ricca participou de mais cinco filmes que ainda não entraram em circuito comercial.

Em Canastra Suja, de Caio Sóh, que lhe deu o prêmio de melhor ator no Fest Aruanda do ano passado, ele contracena com sua ex-mulher, a atriz Adriana Esteves, no papel do marido e pai de três filhos de uma família disfuncional do subúrbio carioca. “Um homem simples que é atropelado pelas circunstâncias desfavoráveis”, comenta o ator.

Por ser diretor e produtor de filmes, Marco Ricca se diz preocupado com a crescente falta de visibilidade dos filmes nacionais. “Precisamos de mais espaços nos cinemas, que devem ser melhor negociados com os distribuidores”

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