Maquiagem demais só atrapalha

Uma pergunta me corrói, ao passear pelas novelas em exibição. E ela não é "quem matou Henrique (Daniel de Oliveira)", o vilão que caiu duro em plena procissão, na bonitinha Desejo Proibido. Nem por que diabos Bernardinho não sossega o facho, em Duas Caras. Ou em que pensava o talentoso Cássio Scapin quando precisou gravar uma cena em que seu personagem fugia de um dinossauro, em Caminhos do Coração. Minha dúvida mais atroz, mesmo, é outra: quanto tempo demora para ser feita a maquiagem da atriz Renata Dominguez, a ardilosa Valquíria de Amor e Intrigas?Como a trama da novata Gisele Joras não vai entrar para a história por suas inovações temáticas, resta tempo para prestar atenção em outros aspectos - como a fluência dos diálogos, apesar da falta do que dizer. Mas, o que impressiona mesmo é a máscara facial da vilã. Só tinha visto algo parecido na primeira fase de Duas Caras, quando o maquiador da Globo precisou rejuvenescer a sessentona Beth Faria na marra. Mas ali se justificava. Renata Domingues é mais jovem e - a não ser que tenha a pele áspera como as areias do Saara - não precisa de tanto pancake.É algo tão incômodo quanto a cabeleira de fogo do pobre Marcos Winter, o deputado Narciso, da novela de Aguinaldo Silva. Ou os lábios botocados de Alinne Moraes, a vilã da mesma novela. Ah, dizem que ela jura que são naturais, mas isso deve ser brincadeira de alguém. Fico me perguntando até que ponto esses detalhes ajudam o ator a compor o personagem. Ou ajudam o público a identificar mais facilmente o sujeito em cena. Dramaticamente, esses detalhes só atrapalham a gente, que está aqui, displicentemente jogado na frente da TV.O falecido diretor e cenógrafo italiano Gianni Ratto, que viveu boa parte de sua vida no Brasil envolvido com ótimas produções teatrais, dizia que espectador só presta atenção no cenário quando a peça é ruim. Em TV, deveria prevalecer alguma regra parecida. Nada que roube a atenção da trama poderia ser aprovado. Cabelo vermelho em deputado? Fora. Máscara facial de pancake? Fora. Pensando bem, vai ver que é justamente por isso. O público se distrai com a cabeleira do Zezé e nem se dá conta que a história vivida pelo personagem é tão velha quanto andar pra frente. e-mail: mvianinha@hotmail.com

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.