Malu Mader relembra reação conservadora do público em 'O Dono do Mundo'

Novela volta a ser exibida a partir deste domingo

João Fernando, O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2014 | 16h00

Levada pela lábia do vilão Felipe Barreto, vivido por Antonio Fagundes, Márcia, personagem de Malu Mader em O Dono do Mundo, se deu mal na ficção e na vida real quando a trama foi a ar, em 1991. Virgem, ela traiu o marido na viagem de lua de mel com o patrão dele. Em vez de provocar pena ou solidariedade do público, a protagonista foi achincalhada pelo público. Anos mais tarde, o autor Gilberto Braga confessou ter sido avisado de que a missão da novela, que o Viva começa a exibir amanhã, à meia-noite, não seria fácil.

“Se ele foi alertado, eu não sei, mas os atores não foram. O que me lembro é de ter dito numa entrevista antes da estreia: ‘Essa novela vai ser uma porrada’. Engraçado, minha preocupação na época era de ter falado um palavrão na entrevista”, relembra Malu. Na história, o cirurgião plástico Felipe faz uma aposta cujo objetivo é tirar a virgindade da futura mulher de seu subordinado, Walter (Tadeu Aguiar). Para isso, dá de presente para o casal uma viagem ao Canadá e vai junto com a desculpa de que precisa ir a negócios. Para piorar, o traído, ao descobrir que sua amada está com outro, sofre um acidente fatal. Rejeitada por todos, Márcia jura vingança e consegue ajuda da cafetina Olga Portela, interpretada por Fernanda Montenegro.

A atriz conta que foi difícil seguir por um caminho completamente diferente do que ela e a equipe haviam planejado. “Quero sempre me preparar o máximo possível em um trabalho. Mas, ao mesmo tempo, foi bom porque, apesar de toda a dificuldade, ali começou um longo caminho de aprendizado profissional e humano em que percebi ser impossível me preparar para as surpresas tanto na vida quanto nas novelas.”

Apesar da trajetória turbulenta da trama, Malu Mader também tem boas recordações daquele tempo. “Adorei o começo das gravações no Canadá. Nunca tinha esquiado na vida e até hoje nunca voltei a uma estação de esqui. Os jogos com os amigos da novela aqui em casa também eram muito animados. E contracenar com aquele elenco era um sonho”, derrete-se.

Para Malu, o público continua a ter um comportamento retrógrado. “Ainda acho a sociedade extremamente conservadora e preconceituosa. Precisamos estar atentos para nossos preconceitos”, avalia. A atriz acredita que ela e seus colegas de profissão têm papel fundamental para abrir a mente de quem os assiste na televisão.

“Principalmente nós, artistas, quando dizemos que o beijo gay não é importante, por exemplo. E claro que é! O beijo gay é importante, sim. O sexo gay é importante também. Se isso não reflete o mundo como ele é, e o mundo é cada vez mais gay, nós não acreditamos na ficção que nos é oferecida”, reforça. Ela explica que as mudanças na sociedade precisam ser retratadas nas novelas para torná-las mais críveis. “Sei que há uma reação conservadora violenta e agressiva, mas a tendência é uma abertura natural porque todos querem se ver retratados. A arte precisa ajudar as pessoas a viver, a vencer seus preconceitos e a libertá-las delas mesmas.”

Malu fica na dúvida ao ser questionada se os telespectadores reagiriam de maneira diferente se O Dono do Mundo fosse ao ar pela primeira vez nos dias de hoje. “Não sei, não quero ser pessimista. Acho até que em certo sentido caminhamos um pouco. Por outro lado, retrocedemos. Houve um recrudescimento do fundamentalismo religioso. Surpreendem-me esses grupos de jovens querendo casar virgens. Tudo bem, cada um vive como quer, mas parece uma volta ao passado. Talvez para esses jovens a rejeição a Márcia será ainda maior”, palpita. A atriz tampouco acredita que o atual público das novelas veria a protagonista como vítima da situação. “Acho que não. Nós ainda vivemos em um mundo extremamente machista.”

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