Mais sombrio e profundo, Jim Carrey volta à TV na série 'Kidding'

Na série ‘Kidding’, ele interpreta apresentador de um programa infantil cuja vida pessoal está em queda livre

Dave Itzkoff, The New York Times

30 Setembro 2018 | 06h00

CULVER CITY, CALIFÓRNIA - Jim Carrey foi mais difícil de localizar do que parecia. Sim, o cara esguio com o corte de cabelo comprido e meio bobo, que usa um par de marionetes de mão em forma de sanduíches antropomórficos em óculos de sol parecia muito o ator que conhecemos. Ele estava filmando uma cena aqui na Sony Pictures Studios para sua nova série da Showtime, Kidding (Brincando), já em cartaz – seu primeiro papel regular na televisão desde seu auge em In Living Color (Ao Vivo e em cores), e seu primeiro trabalho de ator de qualquer tipo em um par de anos – que o traz como Jeff Pickles, um apresentador de televisão infantil, cuja vida pessoal está em queda livre.

Nessa sequência, numa manhã de julho, Carrey estava tentando arrancar uma risada de seu jovem colega Cole Allen, que interpreta os dois filhos gêmeos de Pickles. Carrey lidou com um dos bonecos enquanto falava com uma voz caricata. Em seguida, ele mudou para um silvo de serpente, lembrando seu caráter maníaco em O Máscara: “Ssss-s-s-salgados!”.

Como suas performances mais conhecidas – as comédias de sucesso como Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros, bem como esforços sérios como O Show de Truman – esta tem todos os elementos clássicos de Carrey: jocosa e inventiva, com uma sutil sugestão de desespero por ser amado.

Mas por baixo da animação há uma palpável melancolia, insinuando a veia de tristeza que percorre Kidding. Da mesma forma como seu personagem depende de marionetes para dizer coisas que ele não pode, Carrey usa o show como um veículo para manifestar sentimentos urgentes que ele não consegue transmitir. A série é uma das coisas mais sombrias que Carrey fez, e ele está lutando com algumas emoções intensas agora.

Jeff Pickles é um artista amado, descobrindo que sua filosofia de bondade e tolerância pode não ser suficiente para sustentá-lo em um mundo que é muitas vezes trágico e hostil. Não é preciso ir longe para imaginar o quanto disso também pode ser aplicado ao homem que o retrata.

No intervalo do almoço, Carrey me convidou para seu trailer. O ambiente estava escuro, exceto pela luz que vinha do tablet gráfico que ele usa para criar alguns dos cartuns políticos que posta em sua conta no Twitter: desenhos irregulares de, digamos, uma bandeira russa fincada no presidente Donald Trump. A obra de arte é uma das únicas coisas que Carrey criou para consumo público recentemente e descreveu o empreendimento como uma obrigação patriótica. “Nos últimos anos, tornou-se essencial.”

As últimas realizações de Carrey são bastante surpreendentes. Começando com sua participação em 1994, Ace Ventura: Um Detetive Diferente, estrelou uma série de comédias de bilheteria (com pico comercial de Todo Poderoso, um sucesso de US$ 242 milhões em 2003) e filmes familiares (uma lista encabeçada por O Grinch, que arrecadou US$ 260 milhões em 2000).

Ele também fez uma passagem confiável para uma série de filmes sérios como O Mundo de Andy, de 1999. Assim como o tema do filme, Carrey parecia estar na fronteira entre o inspirado e o irritado.

Carrey alcançou uma espécie de zênite criativo com o Everyman na criativa comédia romântica Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de 2004, dirigida por Michel Gondry, com quem ele se reúne em Kidding.

Mas ultimamente a produção criativa de Carrey reduziu-se a um gotejamento. Desde 2011, ele apareceu em seis filmes, ganhando a maior atenção para a sequência Debi & Loide 2 sem brilho em 2014. Desde então, fez apenas alguns filmes de baixo orçamento que você provavelmente nem estava ciente. A desaceleração foi escolha do próprio ator. “O que me motiva agora, quando não preciso ficar rico para encarar a mim mesmo, ou ficar famoso para provar algo?”

O cineasta Judd Apatow, um amigo de longa data que produziu a comédia de 1996 de Carrey e ajudou a escrever seu filme de 2005, As Loucuras de Dick & Jane, disse que a trajetória profissional de Carrey ilustra como “tudo muda quando os sonhos se tornam realidade”.

Carrey, comparando-se com seu personagem no final de O Show de Truman, enquanto ele luta entre um confortável cativeiro e uma perigosa liberdade, afirma: “Em vez de ser o cara que passa pela porta, eu estava sentado na frente dela e não a atravessava”. “Eu lutei com isso por um tempo. Então, finalmente, percebi: Ah, eu já passei pela porta.”

(TRADUÇÃO CLAUDIA BOZZO) 

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