Mais do mesmo não vale

Bem na fita, Profissão Repórter subverte regras e alcança olhar original com equipe jovem

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 23h52

Onde já se viu programa jornalístico render boa audiência depois das 23 horas, sem âncora que bote dedo em riste, sem cenas de apelo erótico ou violento, sem denuncismo, feito por um bando de novatos mal saídos da faculdade e ainda disposto a subverter alguns dos preceitos mais consolidados da profissão? Afinal, Caco, por que ninguém pensou nisso antes?

"Não sei, não pensou?", responde, sem falsa modéstia, o titular do Profissão Repórter ao Estado. Não que Caco Barcellos tenha se inspirado em formatos alheios. Admite que também não conhecia nada parecido, mas, na contramão de 95% do elenco televisivo, o jornalista evita rufar tambores sobre o título que tem abocanhado os melhores patamares de audiência do horário na grade fixa da Globo.

O propósito é buscar um olhar original até no mais explorado dos temas. Tudo que tenha pinta de ser "mais do mesmo", bingo, vai para o lixo. Evidência maior de que a premissa é posta em prática é a edição de 30 de junho, recorde de audiência do programa, com 24 pontos no Ibope em São Paulo e 50% de audiência entre o total de televisores ligados. O assunto? Crack. O repórter Thiago Jock passou então uma semana numa clínica para dependentes da droga, e Caco desembarcou de um carro de reportagem que vinha sendo apedrejado, em plena Cracolândia.

"As pessoas às vezes falam: nossa, que sorte você teve (em encontrar certo personagem ou flagrar uma situação), mas não sabem quanto tempo e quantas tentativas a gente fez antes daquilo", fala Caco.

PITACO NA PAUTA ALHEIA

Para entender onde começa uma edição do Profissão Repórter, como as ideias são descartadas ou não, esta jornalista testemunhou (e, sem noção de espaço, até deu palpites) uma reunião de pauta do programa, com parte da equipe - alguns, incluindo Caco, estavam, como se diz, "na rua".

A reunião mal começa e o diretor do programa, Marcel Souto Maior, voz mansa, porém muito presente, já dita uma de suas máximas: "Mas tem emoção?". Por mais que o repórter se entusiasme ao relatar seu feito, cabe saber se a imagem registra mesmo tudo aquilo.

Caçula na equipe, Caroline Kleinubing, de 22 anos, dá detalhes sobre a cirurgia de transplante de rim que acompanhou para um dos próximos programas. Emoção é premissa básica em TV, mas tem peso extra num programa que persegue boas histórias e que, como enfatiza Caco, prefere mostrar a vida de seus personagens, em vez de apenas falar sobre isso.

Mas fazer televisão é lidar com empecilhos que o telespectador nem sonha. Em outro relato de gravação já realizada, agora sobre um caso de adoção, surge uma questão legal: judicialmente, é viável mostrar o rosto desse personagem na TV? Sem imagem do rosto, o registro é válido e, de novo, teria emoção?

O leque de assuntos se estende. O Profissão Repórter tem poucas vagas na agenda até o fim do ano e uma frente de produção gigante - parte do que está sendo produzido agora só vai ao ar daqui a meses. Um critério na escolha de temas é revezar leveza e conteúdos mais dramáticos. Fala-se de sorte em uma semana e dos sacrifícios por um filho na outra. Na edição passada, o foco foi delivery, da banal pizza, que ali ganhou uma carona de Caco na garupa do motoboy, ao personal friend: personagem inusitado descoberto por Caroline no Rio, Toni é contratado para circular com mulheres, seja em pistas de dança ou no shopping.

Caroline, a repórter no encalço de Toni, venceu o primeiro concurso aberto para uma vaga no Profissão Repórter. De janeiro para cá, ao colar grau, a promissora jornalista perdeu uma vaga de estágio na RBS e mal teve tempo de pensar o que faria da vida. Ao vencer o concurso, ganhou registro profissional em um dia e carteira assinada pela Globo no outro, trocando Santa Maria por São Paulo.

Pausa para rir: o repórter Felipe Suhre, outro gaúcho na trupe, narra sua incursão na operação de embarque, do Rio a Frankfurt, dos 58 cavalos que movimentaram a Hípica do Rio no evento Athina Onassis International Horse Show. Cada bichinho, ali estimado em 1 milhão, merecia cafuné em tempo integral. Foram 7 horas de expediente, 23 contêineres e custo de 1,2 milhão só para esse trecho da viagem. "Estava quase me sentindo o Amaury Jr.", conta Felipe.

Também é de Felipe o relato sobre a entrevista com um profissional de concursos. O sujeito acumula geladeiras, fogões e carros, tudo fruto de largo investimento na compra de produtos que contenham tais cupons.

Grandes histórias e personagens como este (ou a inesquecível derrotada no concurso Garota da Laje) desfilam no site www.profissaoreporter.com.br, que abriga também um blog e o endereço do Profissão no Twitter: twitter.com/profreporter. Siga-os.

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