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‘Magnífica 70’ encerra trilogia com fôlego em meio à repressão militar

Série brasileira da HBO volta no próximo domingo, 14, com personagens aprendendo a se virar sozinhos em contexto de censura ditatorial

João Ker, Especial para O Estado

14 Outubro 2018 | 06h00

Reza a lenda que a fênix entra em chamas quando sente que está fraca e, então, renasce mais forte das cinzas. Nesse sentido, a segunda temporada de ‘Magnífica 70’ terminou quase que propondo a mesma renovação aos seus quatro personagens principais: após a produtora Magnífica ser consumida por um incêndio, os protagonistas da série, assim como a criatura mitológica, ressurgem completamente restaurados para uma terceira e última temporada, que chega às telas da HBO Brasil no próximo domingo, 14, às 21h.

“Quando produzimos as duas temporadas, sentimos que havia esse modelo do teatro clássico, com primeiro e segundo atos bem na nossa frente. Assim, o terceiro ato é quando todos os problemas são resolvidos, o que acabou acontecendo também com a série. Pareceu que fazer essa última temporada assim daria um peso, uma coerência e a possibilidade de fechar a trilogia no auge, sem deixar que o vigor se esvaísse ou se perdesse na tentativa de perpetuar ad infinitum”, explica Cláudio Torres, diretor geral, roteirista e co-criador de ‘Magnífica 70’, acrescentando ainda que a missão de encerrar a trama “deu um gás” em toda a equipe.

E que gás. Se o público da série já está acostumado com as viradas imprevisíveis de seus personagens, o roteiro criado por Cláudio e Renato Fagundes, com colaborações de Melanie Dimantas e Aline Portugal, já deixa claro no primeiro episódio dessa reta final que nada é impossível no horizonte de ‘Magnífica 70’. “Tem uma liberdade de expressão em todas as personagens, que se separam nesse primeiro momento para se unirem lá na frente”, explica Maria Luísa Mendonça.

Na pele de Isabel, mulher divorciada e sócia da produtora Magnífica, que abandona o novo marido e a vida como dona de casa para se tornar uma guerrilheira feminista, a atriz enxerga um grande paralelo entre o enredo quase surreal da trama e as questões vividas no Brasil de hoje: “Ela está indo atrás do que acredita, falando da força das mulheres contra a Ditadura Militar, o que é muito bonito e, para mim, bastante atual”, pontua a atriz.

É o poder feminino, por sinal, que acaba tomando frente na história, principalmente depois que o enredo dessa terceira temporada leva os personagens a explorarem outras possibilidades para além daquelas vividas na Boca do Lixo, onde o cinema marginal e a pornochanchada ditavam o ritmo. Afinal, falar da produção realizada em plena Ditadura Militar é, inevitavelmente, contar a história de artistas e mulheres que estavam nadando contra a maré da época.

Simone Spoladore, a força por trás de Dora, musa e estrela principal da produtora Magnífica, enxerga na evolução de sua personagem ao longo da trama uma grande história de redenção pessoal, mesmo sob as camadas de humor e reviravoltas inusitadas: “Ela era uma ladra e golpista, que entra ali apenas para roubar todo o dinheiro e, de repente, se descobre atriz. Acho que ali mesmo ela percebe que tem uma alma, e uma alma de artista”.

É esse resgate identitário, unido à sede de vingança após o trauma sofrido no final da segunda temporada, que guia os passos dados por Dora na reta final de ‘Magnífica 70’. “Ela está procurando por aquilo que perdeu”, observa Simone, frisando ainda a verve criativa da personagem em meio ao caos de sua situação: “Eu não tinha sentido isso durante as filmagens, mas, assistindo aos episódios, tive a sensação de que talvez ela esteja com vontade de voltar a atuar e de retomar essa paixão pelo cinema. Talvez ela esteja procurando sua alma de volta”.

Assim como ela, Maria Luisa também sente que o final de Isabel acaba completando um arco inesperado, porém transformador tanto para a personagem como para a atriz que a interpreta: “Ela foi de uma dona de casa a uma mulher muito inteligente, que estuda, toma consciência e acaba virando uma guerrilheira porque não aceita nem o machismo e nem o regime militar da época. Desde o início, eu tinha a sensação de que ela era uma personagem bem à frente do seu tempo”.

Para Cláudio, a chance de encerrar a história em seu tempo certo acabou servindo para ilustrar como, naquela época e hoje, a paixão pela arte acaba tendo a capacidade de mexer com o ser humano: “Essa reta final conta como pessoas que não eram artistas tiveram suas vidas transformadas quando passaram a ter contato com a arte, assim como as consequências boas e trágicas disso. Ao mesmo tempo, é também sobre o perigo de censurar, reprimir e não deixar o indivíduo se expressar”, observa o diretor.

Ele frisa também que, ainda hoje, o papel de registro histórico do cinema não deve ser subestimado, principalmente quando sua credibilidade e importância são postas em xeque: “A realidade atropelou a ficção. Não havia como prever o que está acontecendo no país, como estamos discutindo censura à imprensa, à arte e a museus. Tudo tomou uma proporção que lembra como é importante o papel da arte no mundo - não deixar as pessoas esqueceram a nossa história. O que era uma reflexão sobre a Ditadura Militar e o cinema marginal dos anos 1970, hoje em dia é discussão sobre a coisa mais importante que tem na vida, a crítica à censura, do ponto de vista do indivíduo e da nação”.

 

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