Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

Macho no divã

Na voz de Ângelo Antonio, novela 'Vida da Gente' ousa abordar o homem que perdeu rumo frente à nova mulher

Patrícia Villalba,

27 de novembro de 2011 | 00h00

RIO - Da Madame Bovary de Flaubert à Griselda de Aguinaldo Silva, nos acostumamos a ver as inquietações femininas usadas como combustível para a ficção que, além de entreter, acaba sendo uma espécie de divã coletivo. E da doce A Moreninha que Marília Pêra protagonizou em 1965 à divertida Cláudia que Giovanna Antonelli faz na atual Aquele Beijo, assistimos a uma dúzia de revoluções no universo feminino. Mas ainda que também protagonistas, e sempre a postos para salvar as damas dos mais diversos infortúnios, o fato é que os homens passaram o tempo todo no canto, falando pouco e muito menos abrindo o coração.

 

Longe de querer traçar teorias, mas observadora do que acontece com o homem que tem de conviver com as conquistas femininas, a autora Licia Manzo vem, em A Vida da Gente, novela das 6 da Globo, mergulhando sem medo no universo masculino, mais do que se costuma ver. "Percebo que ao mesmo tempo em que as mulheres se aproximaram de um lugar de potência, e se tornaram provedoras, competitivas, pró-ativas, sintomaticamente alguns homens ousaram experimentar se afastar um pouco desse lugar, tornando-se de algum modo mais ‘frágeis’", observa a autora em conversa com o Estado.

 

Na sua estreia como autora titular de novela, Licia tratou de usar o tipo "sensível e meio perdido" para criar os personagens de Ângelo Antonio (Marcos) e de Leonardo Medeiros (Lourenço). "Há algum tempo, minha terapeuta me fez uma observação interessante: nos últimos anos foi produzida toda uma literatura sobre as questões do feminino, ao passo que o mesmo não aconteceu com os homens. Acho que há pouca reflexão sobre o papel do homem no mundo de hoje", analisa. "E acho que poder esboçar alguns desenhos sobre o que vem se configurando para ambos os sexos pode ser interessante para todos nós em sociedade."

 

Forno e fogão. Marcos é um dono de casa. Casado com a pragmática, exigente e muito chata Vitória (Gisele Fróes), ele é aquele tipo "só coração". Sensível, está sempre atento às filhas e, por isso, arranca suspiros das mães nos playgrounds, como se fosse o homem dos sonhos. Mas experimente levá-lo para casa... A autora não recomenda. "Penso que, historicamente, estamos atravessando um momento de transição, com homens e mulheres experimentando novos papéis. De todo modo, acho que a mulher que tenta se espelhar num modelo de homem workaholic e arrivista estará ocupando um espaço disfuncional, assim como o homem que tentar se tornar excessivamente frágil ou alheio às responsabilidades de uma vida adulta", analisa.

 

 

Quem conversa um tempo com Licia e depois assiste à novela não demora a perceber que a autora fala por meio de seus personagens, especialmente de Celina (Leona Cavalli). Foi ela que, dia desses, chamou Dora (Malu Galli) - dona de casa que se encantou por Marcos quando o conheceu nas aulas de natação das filhas dos dois - à razão. Mulher que abdicou da carreira para cuidar da prole, Dora sofre por ser casada com um sujeito que trabalha demais e dispensa pouca atenção à família. Para uma carente como ela, Marcos parece o homem ideal. "Cuidado com esses tipos sensíveis demais!", cravou Celina, lembrando que de pacato a acomodado, é um pulo.

 

"O texto da Celina é ótimo, porque são colocações perspicazes sobre os homens feitas por uma mulher que não apenas sente, mas que pensa sobre o assunto", opina Leona. "Ela acredita na família, mas não de uma maneira romântica, bobinha, mas como um projeto de vida. É uma mulher muito madura, mais madura do que o próprio marido dela e do que muitos homens que a gente encontra por aí."

 

Pediatra, Celina foi casada até outro dia com Lourenço (Leonardo Medeiros), um professor universitário que tem aspirações literárias. Os dois fizeram um pacto, e ela concordou esperar que ele lançasse um tal livro - que ele nunca senta para escrever - para que eles tivessem a segurança necessária para ter um filho. Mas, num golpe do destino, Lourenço foi convidado pelo irmão mau caráter, Jonas (Paulo Betti) para engravidar a cunhada, numa inseminação artificial que lhe renderia R$ 1 milhão. E ele topou.

 

"A grande questão foi que ela se sentiu traída no sonho que compartilhou com ele nos anos todos de casamento", explica a atriz, defendendo a personagem com unhas e dentes. "E o caráter dela não admite o que ele quis fazer: ter um filho com a cunhada e depois não ter nenhum convívio com essa criança. Para ela, não é vender o sêmen, é vender um filho. Só um homem fraco mesmo para achar isso normal."

 

Leona diverte-se com a polêmica, e lembra que uma amiga definiu Lourenço como "o homem cabaninha". "É aquele que muda de casa e de mulher mas, no fundo, ainda pensa que mora com a mãe", diz. Ela conta que na gravação da sequência em que Lourenço conta para Celina que vendeu o sêmen para o irmão, os cinegrafistas ficaram ao lado de Lourenço. "Eles diziam ‘pôxa, aceita, é um milhão!’. Só as mulheres ficaram do lado da Celina, e entenderam a decisão dela de se separar", relembra.

 

Guerra fria. Não deve ser o caso de uma nova "guerra dos sexos", como a que Silvio de Abreu abordou na novela de 1983, na qual homens e mulheres disputavam postos de trabalho e tudo o mais. Mas esse descompasso entre os sexos que aparece espelhado na novela das 6 tem rendido boas cenas e discussões. Foi tocante, por exemplo, a cena do dia 9, quando Marcos tenta pedir a separação mas Vitória simplesmente não ouve. "Você quer deixar de ser ‘do lar’? Acho ótimo, procure um trabalho!", diz ela, esfregando na cara do marido que ele, apesar de formado em Direito, nunca conseguiu passar no exame da OAB - Ordem dos Advogados do Brasil.

 

Esta reportagem seguiria num flagrante feminismo, se Ângelo Antonio não tivesse sido ouvido. Fraco? Não, ele não vê seu personagem assim. "Marcos é lúcido, coerente, e consegue manter a calma diante daquela mulher. Eu gostaria de ter o autocontrole dele, é algo que me inspira", observa o ator, para quem o personagem tem o mérito de representar um novo modelo de sociedade e família, "mais igualitário e compartilhado entre os sexos". "Se ele tem mais capacidade do que ela para cuidar das crianças, qual é o problema, por que não?", questiona. "O problema é que a Vitória rompeu o pacto que tinha com ele, passou a humilhá-lo porque ele fica em casa. Ela é machista, não é apenas uma mulher que se deu bem na profissão. Mas eu espero, sinceramente, que com todas essas conquistas dos últimos anos, as mulheres consigam preservar seu lado feminino."

 

Na nova fase do personagem, agora separado da mulher que o sustentava, Ângelo diz esperar que Marcos mostre como pode ser difícil a recolocação profissional para quem deu um tempo na carreira por causa dos filhos. É o tipo de coisa que, a gente sabe, acontece com muitas mulheres - lembre-se de Malu Mulher (1981). A boa sacada da novela foi pôr um homem à frente desse "começar de novo". Ângelo acrescenta que, mesmo sob o risco de ser visto como um banana, o Marcos foi acolhido pela audiência feminina - somos seres maternais incorrigíveis. "Antes dele se separar, as mulheres na rua me diziam ‘ela é muito chata, separa logo!’", conta, com indisfarçável satisfação.

 

Na vitrine

 

O "dom de iludir"

Com lábia excelente, o Jorge (Fábio Assunção) de Tapas & Beijos é o tipo que transforma a cantada mais barata na mais sublime poesia. Quem consegue resistir?

 

O "bom, bonito e divertido"

O Guaracy (Paulo Rocha) de Fina Estampa é bom caráter, protetor e charmosamente atrapalhado. No mercado do amor, vale mais que bilhete de loteria premiado

 

O "príncipe"

Com aquele sotaque adorável, o Jesuíno de Cordel Encantado é homem de conto de fadas: coração de ouro, valente e ainda tem o semblante do Cauã Reymond

 

O "machão"

Pelo que a gente vê em Fina Estampa, o detestável Baltazar (Alexandre Nero) tem lá o seu sex appeal. Mas não se iluda: ele merece mesmo é a Lei Maria da Penha

 

O "ex-assombração"

Sabe aquele ex-marido ou namorado que não desencarna? Pois Aguinaldo Silva tratou de personificar a figura no Pereirinha (José Mayer) de Fina Estampa

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