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Luisa Arraes faz a mocinha disposta a mudar de ideia

Para atriz, Laís, a heroína evangélica de ‘Babilônia’, merece atenção pela coragem em rever seus conceitos

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 06h00

Nesses tempos em que a intolerância dá sinais explícitos no cotidiano de um país conhecido pela boa convivência entre todos os credos e raças, saber ouvir é uma arte - quase um talento. Sorte de Luisa Arraes, quase 22 anos feitos, intérprete da mocinha evangélica da novela das 9 da Globo. Sua Laís está entre as poucas personagens poupadas da desastrosa reforma operada em Babilônia, que sofreu uma série de alterações, em vão, justamente para se adequar à tolerância média da audiência. A mocinha evangélica da história e seu par - Rafael, filho do casal lésbico e vivido por Chay Suede - ainda fazem esse folhetim valer a pena. 

Laís é a estreia de Luisa em novelas. A considerar seu histórico, até que demorou. Filha da atriz Virginia Cavendish com Guel Arraes, diretor que esteve à frente das melhores manifestações de vanguarda da TV nas últimas quatro décadas, fez aparições dignas de figurante quando criança. Depois, sim, fez teatro, cinema, um seriado (Louco por Elas), mas, novela, só agora. “A grande piada, quando eu era pequena, era: ‘não vai ser atriz, não vai ser atriz!’ Nunca houve essa pressão em cima de mim”, conta ela ao Estado.

“Meus pais nunca me deixaram trabalhar quando criança. Eles trabalham com isso e sabem como é. Só se fosse brincadeira e a condição é que fosse então em família”, lembra. “Eu não falava pra ninguém, mas queria muito. Eu pedia pra fazer parte das peças dos meus pais quando eu era pequena. Meu pai disse que eu lutei um ano por uma fala.” Fez a daminha de honra e uma pontinha na montagem de Lisbela e o Prisioneiro, ao lado da mãe. Quando perguntou a Guel se deu para ouvir o que ela dizia, o pai lhe respondeu: “Não deu muito não filha, mas tudo bem”. “Ele nunca mentiu pra mim”, diz. 

Diferentemente de sua personagem, criada em uma família evangélica da Baixada Fluminense que repudia a união homoafetiva, Luisa não segue religião alguma. Tem, no máximo, boas referências da fé que mobiliza multidões, com raízes fortes no religioso Recife e em Crato, no Ceará, terra do cultuado padrinho Padre Cícero. “Mas a gente brinca, eu e o Chay, que ele é a Laís e eu sou o Rafael, porque eu poderia muito bem ser filha de dois pais ou de duas mães.” Já o ator, ela confirma, foi criado em uma família mais conservadora.

“A Laís tem uma coisa linda: ela aprendeu um negócio, a vida inteira, e está agora, na idade dela, reaprendendo tudo. Isso é de uma humildade muito linda, porque a quantidade de gente que acha que já sabe tudo, sabe? Tem uma frase dela pro Rafael que diz: ‘Eu não quero ser dessas pessoas que acham que sabem de tudo, eu não sei de nada’. É ela o tempo inteiro quebrando com tudo o que aprendeu e foi posto na cabeça dela, abrindo os olhos pra poder pensar como ela pela primeira vez. Acho esse movimento muito corajoso.” 

E se emociona ao lembrar de toda a sequência que levou à cena do primeiro embate entre Laís e Rafael, quando a garota descobriu que ele era filho de duas mães - Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg). “A gente acabou a cena, eu e o Chay, com dor na barriga, a gente ficou chorando horas. Fizemos uma cena com a Fernanda, a Fernanda veio falar com a gente, e a gente ficou chorando, agarrado um no outro, na perna, chorando chorando chorando, o dia inteiro. A gente ensaiou antes, e falava ‘essa cena vai chegar!’ Não era uma cena fácil. Ensaiamos muito. Quando acabou, ele falou assim pra mim: ‘pronto, agora eles estão mais íntimos do que se eles tivessem transado’. “Eu falei: ‘É isso, Chay!’ Eles tiveram coragem de falar, de brigar, de falar cada um o que estava pensando. Tinha a família dela inteira, que não abre mão desses conceitos, muita gente não abre mão do que pensa.” Luisa fala ligeiro, em ritmo quase arfante. Faz uma pausa para recobrar o fôlego e conclui: “O que me assusta é a falta de diálogo”. E cita ainda uma frase de Teresa, quando alguém sugere que é melhor não falar de determinado assunto e ela responde: “não falar disso é a receita para o desastre”. “Eles têm diálogo. Ela fala, ele entende. Ele fala, ela entende. Eles se escutam.”

Luisa celebra a feliz parceria com Chay Suede, com quem tenta ensaiar sempre que possível. Na correria por que a novela tem passado para sanar a sangria de audiência, cortando cenas já gravadas, revirando a personalidade da maioria dos personagens principais, o conto de Romeu e Julieta a eles reservado pelos autores Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes é quase uma ilha, de tão fiel ao que foi proposto na sinopse original. Melhor assim.

Assim que Babilônia acabar, Luisa volta suas atenções para uma nova montagem teatral de Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht, “tudo o que eu mais amo nessa vida”, define, com o mesmo entusiasmo de quem defende as descobertas de sua mocinha evangélica. 

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