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Longe da TV, Selton Mello fala que aprendeu muito do ofício enquanto esteve atrás das câmeras

'Sedutor de nova série é salto para a maturidade', crê ator e diretor

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2015 | 06h00

Selton Mello está prestes a completar 43 anos, mas acha que só a essa altura, vestido como o sedutor Augusto de Valmont, terá sua maturidade de fato explicitada em um personagem. O papel que Chordelos de Laclos criou lá em 1782 e John Malkovich encarnou no cinema, para o romance Les Liaisons Dangereuses, será, para Selton, a prova cabal de que está pronto para parecer mais velho do que aqueles meninos que viveu em Meu Nome Não É Johnny, A Mulher Invisível, A Cura e Os Maias. Não que ele não possa voltar a fazer um ou outro tipo de frescor jovial, mas o tipo da vez, protagonista - ao lado de Patrícia Pillar - da minissérie Ligações Perigosas, endossa que o ator e diretor está pronto para ampliar a faixa etária de seu leque de criaturas. Estreia dia 4, na Globo, após A Regra do Jogo.

Diz Augusto de Valmont (Selton Mello, na nova minissérie da Globo, Ligações Perigosas) que seduzir uma mulher virgem não tem graça. Prefere obstáculos maiores, como a devota católica Mariana de Santanna (Marjorie Estiano). É um jogo de sedução que beira um ritual de caça e promete produzir no espectador a tensão necessária para que ele sintonize o programa no dia seguinte. Com texto final de Manuela Dias e direção-geral de Vinicius Coimbra, a nova adaptação do clássico francês, já revisitado em filmes e peças, se passa agora na década de 1920, numa cidade portuária brasileira do Sudeste, sem compromisso com tempo e espaço, e será contada em dez episódios diários, de segunda a sexta.

Longe da tela da TV há cinco anos, desde A Mulher Invisível - vencedora do Emmy internacional de série -, Selton não esteve, no entanto, longe do veículo. Depois de três filmes - e agora a caminho do quarto, O Filme da Minha Vida - era hora de dirigir para a TV, expediente que honrou com a série Sessão de Terapia, para o GNT. O Estado acompanhou uma gravação com Selton e Patrícia no Palacete Modesto Leal, no Rio, onde foi montada a garçonnière de Augusto, e depois conversou com o ator e diretor em São Paulo. 

O que o motivou a voltar para a frente das câmeras na TV?

Augusto de Valmont, e faço questão do sobrenome, é um personagem clássico. Foi escrito em 1782, é superatual: as questões humanas sempre farão sentido. E eu estava há um tempo sem atuar. Foram três anos de mergulho no Sessão de Terapia, que foi ótimo, foi uma delícia viver aquele período, e aí dá vontade de atuar. Porque passar três anos atrás das câmeras, trabalhando com grandes atores, vendo ali na minha frente grandes solos, me deu vontade de fazer alguma coisa. Ligações foi tipo perfeito, na hora certa. Minha geração ficou encantada com o filme, eu me lembro, do fim dos anos 1980. O livro é dificílimo de adaptar, todo em cartas, epistolar, e a Manuela fez um trabalho excelente. É uma autora em franca ascensão, ela é realmente muito boa, é danada, trabalha muito. É interativa, vibrante.

Já tinha lido o livro?

Nunca. Tinha visto o filme, lá atrás, nunca revi. E agora, não quis rever para não ter nenhuma referência. Não vi aquele Valmont do Colin Firth, que parece que é legal também, tem outras versões, e só vi aquela. Então, é o meu Valmont, e o que a Marjorie faz não tem nada a ver com o que a Michele Pfeiffer fez, assim como a Patrícia. A gente foi então ali na onda do Vinicius e da Denise (Saraceni, diretora de núcleo), descobrindo o nosso tom, a nossa maneira de contar essa história, que é bem diferente do filme.

Você, tendo trabalhado como diretor, resiste à tentação de ser um ator que dá pitaco no set?

Acontece comigo o contrário. Sempre fui um ator muito autor. Sempre fui o ator que diz: ‘podemos mexer nisso’? ‘Essa fala pode ser assim?’ Quando comecei a dirigir, vem essa coisa: ‘ah, agora você dirige, então fica dando palpite’. Só que eu sempre dei. Sempre fui um ator questionador. Hoje, o que acontece é que eu sei exatamente como aquilo é feito. Sei todas as dificuldades, sei como é a montagem, que coisas vão ser cortadas, pelo bem do ritmo. Então, perdi a inocência, de uma certa maneira.

Isso é bom ou ruim?

É bom. Agora eu sei como o pão é feito. Agora, como ator, inclusive quando dirige, você cuida de tanta coisa, e tudo é importante: o figurino é importante, a montagem, os atores, tudo. O ator, às vezes, acha que é a estrela da companhia e, na verdade, a trilha também é, o fotógrafo também é, o figurino também é.

O peso do ator não é maior?

Pela mítica, pelo público gostar de acompanhar um ator xis ou y, sim, mas é diferente. Esse trabalho tinha alguns atrativos, de um personagem que eu acho tão rico quanto um Macbeth, um Hamlet, como estrutura dramática. Para mim, uma coisa também muito estimulante, que pode parecer banal para quem está de fora, é que tenho 42 anos, não sou mais nenhum menino. E até então, eu fazia personagens meio garotões, mais novos. Achei que o Valmont é uma inauguração de uma maturidade, é um homem maduro e isso para mim foi estimulante. No filme que estou cuidando, O Filme da Minha Vida, faço um personagem que também é mais maduro. É uma nova era.

E você volta justamente num produto que vem se tornando um dos principais investimentos da Globo: a série que abre o ano.

São duas semanas de 10 capítulos bem tramados. A gente teve dois grandes acontecimentos recentes, em formato parecido: Amores Roubados, fantástico, e depois Felizes Para Sempre?, também incrível, que foram iguaizinhas, em janeiro, e foram muito bem recebidas. A gente tem a expectativa de que Ligações seja a nova obra que também encante. Só que a gente tem uma vantagem sobre os outros: a novidade de que vai colar na novela (das 9). Depois da gente é que vai estrear o BBB. Isso é uma coisa boa. 

Você recusa muita coisa?

É deselegante dizer ‘recusa’, né? Mas... sim, sou muito requisitado para muitas coisas, dirijo também, então, tem vários quereres na minha vida, tenho que fazer escolhas. Fiquei três anos mergulhado no Sessão de Terapia, um monte de coisa surgiu. Mas eu estava ali, querendo fazer aquilo. Para mim, foi uma faculdade, o meu mestrado, porque era dentro de uma sala, com dois atores sentados, atores distintos, de escolas diferentes. Como extrair daqueles atores grandes solos? O outro lado: como ser atraente para que o público assistisse a um negócio que são duas pessoas sentadas? Isso me deu um exercício de decupagem, de contar história, dentro daquela sala, de ser atraente. Aprendi muito com aqueles atores. Quando dirijo, de uma certa forma, sigo estudando como ator, porque estou vendo colegas fazendo coisas que jamais pensaria. Me estimula, como ator, dirigir. Uma coisa alimenta a outra.

Vocês tiveram preparador de elenco em ‘Ligações’?

O Chico Acioli, um amigo de muitos anos. Ele trabalhou no (filme) Cheiro no Ralo comigo, conheço ele há muitos anos, e a Márcia Rubin, uma coisa mais de corpo, de época, da dança. O Chico também nos ajuda nas leituras, são personagens bem cerebrais, e é uma série sexy também, porém tudo implícito, tudo meio velado. É muito fascinante.

A série é nos anos 1920, mas sem fidelidade à época. Como se preparar nesse contexto?

Isso é uma coisa bem legal, de final dos anos 20, mas com liberdade. Ele tem uma moto, as externas foram na Argentina, em lugares lindos, é um Brasil xis, uma cidade portuária e com uma forma de contar a história muito interessante. Esse foi um trabalho que me motivou tanto quanto O Auto da Compadecida e Os Maias. Eu coloco Ligações, no meu ranking particular, entre esses grandes trabalhos. 

Tem alguma ideia de dirigir na Globo, TV aberta?

Sim, esse é um interesse mútuo que já existe. O Heitor Dhalia foi codiretor de O Caçador, estão trazendo Cao Hamburger para a próxima temporada de Malhação. Então, existe um interesse da Globo de trazer talentos de fora, que acho que tem a ver com os novos tempos. Os novos tempos estão ligeiros e interessantíssimos. Narcos é extraordinário. Você poder chegar em casa e ver tudo de uma vez só é maravilhoso. Assisti tudo, Wagner está extraordinário. Sou consumidor de seriados. Amo Mad Men, amo Família Soprano, amo A Sete Palmos, vi isso tudo, House of Cards, inacreditável. Pela parceria de Valmont e Isabel, pelo jogo de poder, pelo jogo de sedução, existe algum parentesco entre eles e aquele casal, Frank e Claire, de House of Cards. 

Mas já há projeto para dirigir na Globo?

Tenho vários namoros, estou bem próximo de lá, posso fazer outra série como ator, que posso vir a ser também um dos diretores. Estou preparando algo que vou oferecer para fazer lá. Volto a atuar no ano que vem em alguma coisa na TV, de novo. Depende de datas, precisamos ver se vai ser possível.

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