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Lima Duarte: 'No País, a TV foi formada por radialistas'

Os maiores sucessos das telenovelas brasileiras vieram de temáticas rurais, comenta o ator em depoimento ao 'Estado'

Lima Duarte, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2016 | 06h00

“A transição do rádio para a televisão não foi assim abrupta, ´agora vamos passar do rádio para a televisão`. Aconteceu de forma lenta, gradual, como gostava de dizer Ernesto Geisel. Nós éramos todos do rádio; radialistas e rádio-atores. Quando a televisão chegou no Brasil, em 1950, precisamente, em 18 de setembro daquele ano, com a TV Tupi Difusora de São Paulo, PRF-3 TV, canal 3, tínhamos uma equipe de radialistas muito bem preparada, excelentes profissionais. 

Todo esse pessoal foi trabalhar naquele aparelho que parecia mágico. Esse nível de excelência foi levado para a televisão, que se formava. A televisão no Brasil já nasceu ambiciosa e credito a qualidade dela até hoje, em especial a Globo, ao que foi feito lá atrás por aquelas pessoas.

Alguns programas produzidos por nossa televisão são considerados de alto nível em qualquer parte do mundo em função do que foi feito naqueles primeiros anos da televisão por profissionais como Túlio de Lemos, Oduvaldo Vianna, Walter George Dürst, Cassiano Gabus Mendes e Péricles Leal, um dos mais injustiçados, hoje pouco conhecido. 

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Foi Péricles Leal que trouxe a dramaturgia tipicamente brasileira para a televisão com suas novelas de temática rural, sertaneja. Os maiores sucessos das telenovelas brasileiras vieram de temáticas rurais. Uma novela dele que fez maior sucesso foi Sangue da Terra, que foi ao ar em 1952, na TV Tupi. Era muito amigo de Leal e trabalhei como ator em algumas de suas novelas. Outro profissional que merece destaque foi Walter George Dürst que muito antes de Walter Avancini, adaptou para a televisão o livro monumental de Guimarães Rosa, Grande  Sertão: Veredas [Walter Avancini adaptou Grande Sertão: Veredas para a Globo em 1985]. No ínicio da televisão produzíamos os textos da dramaturgia mundial, como William Shakespeare, que já faziamos no rádio. 

Durante uma década produzimos para TV Tupi os grandes clássicos da dramaturgia mundial. Fiz o primeiro Hamlet, de Shakespeare para TV de Vanguarda, da Tupi. Foi uma época de ouro para a televisão com os teleteatros com todas as peças de Shakespeare, como Macbeth e Otelo. O que era fascinante é que os telespectadores assistiam e gostavam de todos aqueles teleteatros baseados nos grandes clássicos, inclusive pessoas mais humildes. Mas não só os clássicos da literatura mundial, adaptamos muitas coisas da nossa literatura. 

O ator e diretor Dionísio de Azevedo fez para a TV Vanguarda, em 1952, uma adaptação do conto Corpo Fechado, de Guimarães Rosa. O sucesso foi tão grande que logo depois adaptamos mais outro conto de Guimarães Rosa, desta vez foi A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Fiz Augusto Matraga, que se chamava na verdade Nhô Augusto Esteves das Pindaíbao. Dionísio de Azevedo fez o Joãozinho Bem-Bem. O que é revelador é saber que a televisão brasileira logo no seu começo adaptou os maiores clássicos da literatura mundial e brasileira com grande sucesso de audiência. 

Lembro que as pessoas discutiam nas ruas as histórias que eles assistiam. E não eram só gente de classe média, intelectuais ou os profissionais da televisão, eram as pessoas também simples, as empregadas domésticas, os padeiros, os porteiros, as prostitutas, os camelôs, etc. O povo também assimilava o que estavámos produzindo naqueles 'verdes anos' da televisão brasileira”.

 

(Em depoimento a Amilton Pinheiro)

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