ELLEN SOARES/DIVULGAÇÃO
ELLEN SOARES/DIVULGAÇÃO

Lima Duarte é estrela de telefilme infantil

Ator vive um sábio louco em ‘Didi e o Segredo dos Anjos’, que estreia neste domingo

João Fernando / RIO, O Estado de S. Paulo

21 Dezembro 2014 | 03h00

“Tudo comigo é uma grande história. Se não for, eu faço ficar”, avisa Lima Duarte, antes de explicar por que foi parar no elenco de Didi e o Segredo dos Anjos, telefilme de Renato Aragão, que estreia hoje, às 15h30, na Globo. Na trama roteirizada por Marcelo Saback e dirigida por João Daniel Tikhomiroff, que mistura elementos de fábulas com números musicais, o ator encarna o Sábio, um homem que ajudará o protagonista a cumprir uma missão.

Na obra, Didi tem um sonho com a deusa – e show woman – Soláris, interpretada pela cantora Anitta, que recorre a ele ao saber que vilões pretendem fechar um portal de comunicação entre os anjos e a Terra. Para evitar o problema, o trapalhão precisa convencer o amigo Miguel (Jayme Matarazzo) de que um medalhão herdado pelo avó do jovem tem poderes mágicos que podem reverter a situação. No caminho para entender o que precisa fazer, a dupla recorre ao Sábio, único que pode ajudá-los a usar os poderes.

“O que pretendi fazer ali foi um velho caboclo metido a sábio. Faço muita questão de permanecer fiel à gente que me tornou ator: o caboclo brasileiro”, analisa. Entretanto, ele diz que o personagem, uma espécie de cientista, tem referências sofisticadas. “Esse homem ficou doente pelas ideias, pela beleza dos filmes, dos livros. Queria um personagem que só falasse Fernando Pessoa, Shakespeare”, conta o ator, numa referência aos diálogos do Sábio, repletos de frases extraídas de clássicos da literatura. A caracterização também chama a atenção por causa dos apliques de cabelo. “Eu queria parecer o Sean Connery”, brinca.

Lima faz graça sobre o formato de Didi e o Segredo dos Anjos, exibido em uma hora. “Eu não tenho coragem de dizer que é um filme. Telefilme é um híbrido estranhíssimo entre a TV e o cinema. Eu não sabia que era filme. Acho que eles (direção) são muito levianos”, alfineta. Ele faz questão de comparar. “Filme é completamente diferente de televisão. Um ator para cinema tem outra sensibilidade. Um espectador de novela é diferente do que vê cinema. Na novela, o espetáculo vai até você. Você assiste na intimidade, deitado na cama. No cinema, você vai ao espetáculo, compra ingresso, fica na sala de espera. Quando começa o filme já está a nocaute. Na TV, o personagem chega a você de qualquer maneira e já está bom”, afirma.

O artista veterano, de 84 anos, acredita que trabalhar com Renato Aragão agora tem a ver com o momento em que eles se conheceram, nos anos 1960. Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), então diretor da TV Tupi, pediu que Lima fosse ao Nordeste buscar novos talentos. “Fiquei 15 dias no Ceará vendo TV. Lá, me falaram para encontrar o Renato Aragão, um cara que trabalhava em banco, mas era engraçado. Fui a Fortaleza, vi e dei uma passagem para ele vir a São Paulo assinar um contrato. Mas ele ficou trabalhando na Tupi do Rio. Eu não fiquei mais responsável por ele. Por isso, vim participar dessa aventura”, aposta.

Apesar da idade, garante que ainda há lugar para os atores mais velhos. “Não é problema. Tem pouco velho que está de pé ainda. Eu estou”, defende o mineiro, há 43 anos na Globo. Lima, porém, não se preocupa com o risco de não ser mais recrutado. “Ator não acaba nunca, morre em cena, pois o mundo para nós é um grande teatro. Até a Xuxa eles mandaram embora, né? Não serve mais. Imagina nós? Nós acabamos. Mas haverá sempre lugar para nós enquanto eu permanecer fiel ao caboclo que virou ator.”

O mineiro, que chegou a São Paulo em um caminhão, faz questão de ressaltar suas origens. “Na elite de atores brasileiros, sou o único de formação rural. Um caboclo que ficou ator. Eu estudo, me preparo demais. Meu grande personagem é este aqui, Sargento Getúlio”, diz, mostrando uma foto com um recado de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), autor da obra que inspirou o longa homônimo. “Assim que ele viu o filme, fez essa dedicatória: ‘O verdadeiro Sargento’. Cheguei ao máximo ao ter o autor fazendo isso.” 

Para resgatar o longa, rodado em 1983, o artista está lutando por uma remasterização. “Tento fazer com que a Ancine se interesse para exibir o filme.” Ao longo da entrevista, ele mostra outros registros antigos da carreira, como cópias de fotos e cartazes, além de uma reportagem sobre a montagem de Arena Conta Zumbi na Broadway, publicada no New York Times em 1969.

Ele se diz satisfeito com a relação com o público hoje. “Por causa de uma vida profissional muito longa, desenvolvi um pacto com o telespectador. Antes, eu me parecia com o pai. Agora, pareço mais com o avô. Faço o que quiser. E nunca será uma besteira, é uma coisa elaborada com profundidade”, sentencia. 

Atualmente, ele prefere ficar recluso em seu sítio em Indaiatuba, interior de São Paulo, e afirma não ter medo de ficar isolado. “Não bebo, não cheiro cocaína, não fumo maconha nem como carne vermelha. Gosto de conviver comigo mesmo, com as minhas memórias. De quebra, meus cães e meus cavalos”, conta. Lima Duarte jura que não se considera um antissocial. “É um prazer ficar sozinho, estou querendo que isso aqui acabe logo.”

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA TV GLOBO

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