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Imagens da novela 'Roque Santeiro', exibida pela TV Globo, com Regina Duarte e Lima Duarte.  Divulgação

Lima Duarte e Claudia Raia falam sobre 'Roque Santeiro', novela que chega na Globoplay

Dupla relembra da ousadia do folhetim, que chegou a ser proibido em 1975

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 15h00

Trinta e cinco anos depois de ter ido ao ar seu último capítulo, em 1986, a novela Roque Santeiro está disponível agora, na íntegra, na plataforma Globoplay. Foi um dos folhetins que mais fizeram sucesso na Globo, assim como foi a que mais enfrentou barreiras da censura do governo militar. 

Afinal, a trama criada por Dias Gomes trazia uma sátira atemporal à exploração política e comercial da fé popular, na cidade fictícia de Asa Branca. Lá, os moradores vivem em função dos supostos milagres de Roque Santeiro (José Wilker), um coroinha e artesão de santos de barro que teria morrido como mártir ao defender a cidade do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). 

O falso santo, porém, reaparece em carne e osso alguns anos depois, ameaçando o poder e a riqueza das autoridades locais. Entre os que se sentem ameaçados com a volta de Roque estão o conservador padre Hipólito (Paulo Gracindo), o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), o comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e o temido fazendeiro Sinhozinho Malta (Lima Duarte), amante da pretensa viúva do santo, a fogosa Porcina (Regina Duarte). 

O personagem Roque Santeiro surgiu pela primeira vez em uma peça de teatro, O Berço do Herói, que estrearia em 1965 se não fosse proibida pela censura do governo militar, incomodado com a crítica explicitamente humanista à forma como se constroem mitos heroicos baseados em fatos reais - o texto trata da idolatria que uma pequena cidade dedica ao cabo Jorge, aclamado por ter morrido com bravura na 2.ª Guerra quando, na verdade, ele fugiu do front depois de atacado por uma crise nervosa. 

Dez anos depois, em 1975, já consagrado como autor de telenovelas, Dias Gomes disfarçadamente adaptou a própria peça e a transformou em Roque Santeiro, cujo primeiro capítulo nem sequer foi exibido: naquele 27 de agosto, a Globo recebeu ofício do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), censurando a novela - o governo percebeu que a peça era a origem do folhetim. Trinta e seis capítulos já tinham sido gravados com Lima Duarte no papel de Sinhozinho Malta, amante de Porcina (Betty Faria), viúva do milagreiro Roque (Francisco Cuoco), que volta à cidade de Asa Branca 17 anos depois de ser canonizado como um herói morto. 

Não adiantou nem um feroz editorial escrito por Roberto Marinho, então presidente das Organizações Globo, que foi lido no Jornal Nacional. Finalmente, em 1985, já na fase de abertura política, a novela foi exibida, agora com Regina Duarte como Porcina e José Wilker no papel de 

Roque Santeiro. Um sucesso retumbante, cravando em média 75% da audiência da TV. Mesmo assim, Gomes e Aguinaldo Silva, que o auxiliava na escrita dos capítulos, continuaram sofrendo ação da censura, especialmente as menções à teologia da libertação, movimento católico influenciado pelo marxismo. 

"Roque Santeiro foi um sucesso e foi um divisor de águas também", relembra Lima Duarte. "Roque Santeiro sempre estava na pauta de todas as conversas, era uma novela que todos nós adorávamos e ficou 10 anos proibida. Só eu que era remanescente do elenco original, Sinhozinho. Mas foi muito feliz porque teve o maravilhoso Zé Wilker fazendo o Roque Santeiro e a Porcina, com a Regina Duarte maravilhosa."

Segundo o veterano ator, a novela envolveu o telespectador no subtexto. "Falamos de você, do nosso País. Estamos contando histórias que um dia, um momento, aconteceram com você. Por isso as pessoas se reconhecem. Quando pega fundo no coração dele, o espectador se identifica. Um dia, me disseram que gostam quando eu entro na novela porque sempre dão risada. Você só ri do que você concorda, você não ri do que discorda. A trama era interessantíssima, falava de um país que se tornava grande, livre, importante. Tinha padres, freiras, heróis, prostitutas, bandidos, ladrões e era um microcosmos do Brasil."

Além de artistas já consagrados, a novela abriu espaço também para iniciantes que, com o tempo, também se tornaram consagrados. É o caso de Claudia Raia, que viveu Ninon, uma das dançarinas da boate local, a Sexus. Inicialmente, ela não teria falas, mas o carisma da atriz se impôs e Claudia ganhou mais destaque na trama.

"Foi a minha primeira novela, era uma personagem pequena, mas tudo que eu podia mostrar do meu trabalho eu mostrava", relembra Claudia. "Tem uma história maravilhosa: havia uma cena que eu dividia com a Regina Duarte. Era uma fala só, mas eu ensaiei aquela fala como se eu fosse a protagonista da novela. Chegamos no set para gravar e a Regina, que tinha muitas falas, passou pela minha deixa, emendou tudo e aí me cortou sem querer. Eu parei e pedi para voltar porque eu tinha ensaiado três semanas para falar aquela fala porque era uma fala só (risos). Mas ela foi muito querida, a gente refez a cena, falei e deu tudo certo. Imagina se eu podia perder aquela oportunidade? Jamais!"

Assista a abertura da novela 'Roque Santeiro':

Claudia lembra com carinho da atuação de José Wilker, que morreu em 2014. "Ele dominava o personagem de uma maneira muito segura", comenta a atriz, que vê ousadia no texto da novela. "O meu núcleo, por exemplo, era quase uma afronta. O texto do Dias Gomes trazia também elementos fantásticos, como a história do lobisomem, que faziam com que aquela história, que era uma grande crítica sociopolítica, fosse muitas vezes interpretada de maneira alegórica, lúdica. Se a gente parar para pensar, ainda é um enredo muito atual."

Para atriz, o humor era o melhor caminho para enfrentar temas delicados. "O bonito do humor é que ele é essa linguagem que nos permite abordar sobre tudo, que nos permite fazer críticas e propor reflexões. Isso continua assim até hoje. Muito humoristas continuam usando o humor para fazer essas críticas todas. Para mim, o humor é uma grande ferramenta de subversão e vai continuar sendo assim sempre. É um grande ato político."

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'Entrevista Aberta' fala da censura feita à novela 'Roque Santeiro'

A jornalista Laura Mattos, autora do livro 'Herói Mutilado', sobre as interferências dos militares nos textos do autor Dias Gomes, foi recebida pelo 'Estadão' na Casa Bona

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 08h00

A jornalista e escritora Laura Mattos, da Folha de S.Paulo, foi recebida pelo jornalista Julio Maria, do Estadão, para o segundo encontro da série 'Entrevista Aberta'. Laura falou de seu livro Herói Mutilado: Roque Santeiro e os Bastidores da Censura à TV na Ditadura, que narra as interferências dos governos ditatorias sobre os textos de Dias Gomes. Roque Santeiro, a novela exibida pela Globo em 1985, teve, antes disso, dois momentos de censura. O primeiro se deu, na verdade, quando o texto ainda era para o teatro de uma peça chamada O Berço do Herói, de 1965, impedido de ser montado pelos militares. Dez anos depois, o texto é adaptado para a TV e, depois de ter mais de 30 capítulos gravados de Roque Santeiro, a Globo foi informada de que o novela não iria ao ar pela censura. E finalmente, em 1985, ainda que tendo muitos diálogos e cenas extraídos a pedido dos militares, vai ao ar a história de Viúva Porcina e Sinhozino Malta.

Laura lembra de que a própria emissora Globo, cansada das interferências do regime, contratou um ex-censor, José Leite Ottati, para ajudar a maquiar os episódios de forma que eles não tivessem problemas com Brasília. Fez uma relação com os tempos atuais, falou da maléfica auto-censura ("os professores pensam cada vírgula que vão dizer hoje em dia") e lembrou do que lhe disse o autor de novelas Marcílio Moraes. "Mandala (exibida entre 1987 e 1988), que tratava de um caso incestuoso, jamais iria ao ar nos dias de hoje". Ao final da entrevista, a cantora Patrícia Bastos e o violonista Norberto Vinhas interpretaram músicas da sensacional trilha de Roque Santeiro

 

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História e músicas de 'Roque Santeiro' serão tema da noite 'Entrevista Aberta'

Laura Mattos fala das censuras sofridas pelo autor Dias Gomes nos bastidores do maior fenômeno entre as telenovelas brasileiras, retratadas em seu recente livro 'Herói Mutilado', e Patrícia Bastos canta com o violonista Norberto Vinhas a consagrada trilha sonora

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 06h00

Perto de completar 35 anos de sua conturbada e histórica exibição – o primeiro capítulo foi ao ar em 24 de junho de 1985 – a novela Roque Santeiro será tema da segunda edição da noite Entrevista Aberta, apresentada pelo jornalista do Estadão Julio Maria. Na primeira parte, a também jornalista Laura Mattos responde a perguntas sobre seu livro Herói Mutilado – Roque Santeiro e Os Bastidores da Censura à TV na Ditadura, lançado recentemente pela editora Companhia das Letras. Na sequência, a cantora Patricia Bastos e o violonista Norberto Vinhas trazem todo o repertório consagrado pela trilha sonora da novela, com canções como Mistérios da Meia-Noite, de Zé Ramalho; Roque Santeiro e Dona, de Sá e Guarabyra De Volta pro Aconhego, de Dominguinhos e Nando Cordel; e Coração Aprendiz, cantada por Fafá de BelémO evento será na próxima segunda-feira (9), às 20h30, na casa de shows Bona, em Pinheiros.

O Brasil não imaginava, e muitos ainda não sabem, o quanto foi difícil para que os capítulos escritos por Dias Gomes, com colaboração de Aguinaldo Silva, fossem ao ar em horário nobre da Globo. Uma verdadeira saga paralela vivida pelo autor e pelos diretores da emissora fizeram de Roque um símbolo de resistência contra a ditadura instalada desde 1964.

Tudo começou 20 anos antes, com a peça O Berço do Herói, escrita por Gomes, então dramaturgo e integrante do Partido Comunista. Apesar de estar inserida em um contexto político recente, o regime militar completava apenas um ano, a peça não pode ser encenada por decisão da censura. Dez anos depois, em 1975, o autor uniu-se a Aguinaldo Silva, já na Globo, para tentar enganar os censores reescrevendo o texto e adaptando-o para a TV. Uma ligação interceptada pelos militares, no entanto, instigou a vingança. Dias Gomes falava com um interlocutor sobre a decisão de burlar o regime sem saber que estava sendo espionado. Os militares deixaram que a produção seguisse até o dia da estreia, quando a emissora recebeu um ofício do Departamento de Ordem Política e Social decretando a nova censura horas antes da exibição do primeiro capítulo.

Mais dez anos foram preciso até que a Globo tentasse mais uma vez revisitar a saga de Roque Santeiro. Dias sentiu o clima da abertura em 1985 e a Globo chamou alguns atores da primeira versão de volta (apenas Lima Duarte aceitou) para refilmar os 36 capítulos que haviam sido registrados dez anos antes e filmar novos, mas as tesouras dos censores não deixaram de atuar.

Laura Mattos faz um grande trabalho mergulho na trajetória das três censuras analisando cartas, cerca de duas mil páginas de documentos secretos e um diário de Dias Gomes, morto em 1999, mantido inédito até ser revelado pela autora.

ROQUE SANTEIRO.

ENTREVISTA ABERTA COM LAURA MATTOS E SHOW DA CANTORA PATRÍCIA BASTOS.

APRESENTAÇÃO DE JULIO MARIA. SEGUNDA (DIA 9), ÀS 20H30. BONA. RUA ÁLVARO ANES, 43. R$ 40

 

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‘Falar da velhice não é fácil’, diz Lima Duarte

Às vésperas de completar 90 anos, ator vai estrear dois novos filmes ainda neste ano

Entrevista com

Lima Duarte

Amilton Pinheiro, Especial para O Estado de S. Paulo

02 de setembro de 2019 | 19h00

Como um bom mineiro, o ator Lima Duarte é um contador de causos, além de ter uma carreira robusta em quantidade e qualidade de trabalhos. São mais de cem novelas, entre radionovelas e telenovelas, nas TVs Tupi e Globo, peças no início da carreira no teleteatro ao vivo da TV Vanguarda.

No Teatro de Arena, ficou entre 1961 a 1971, fez outras peças, 42 filmes. Também atuou como dublador de personagens de desenhos animados, apresentador do Som Brasil e diretor de novelas. Colecionou inúmeras histórias ao longo das quase nove décadas de vida.

Suas primeiras lembranças são de Desemboque, Minas Gerais, ao lado da mãe, América, do pai, Antônio Venâncio, e do avô materno, na primeira metade dos anos 1930 e de Ribeirão Preto, São Paulo, onde foi viver quando tinha entre sete a oito anos. Na cidade paulista, começou a fazer peças teatrais amadoras ao lado da mãe, espírita, em um centro em que ela trabalhava como médium. 

Nesta entrevista exclusiva ao Estado, fala dessas lembranças, do mundo que foi se descortinando na cidade de São Paulo a partir de 1946, dos dois filmes que trabalhou e que vão estrear; o curta A Volta Para Casa, sobre a velhice, tema não retratado com decência, segundo Lima, pela teledramaturgia brasileira, e o novo longa de Andrucha Waddington, O Juízo, que ele não viu, contudo elogiou muito o roteiro de Fernanda Torres. 

Qual foi a lembrança que você guardou da sua chegada no Mercado Municipal de São Paulo em 1946?

(risos) As melhores possíveis. Eu sou feito dessas lembranças, dessas ideias, dessas emoções guardadas. Cheguei no caminhão de manga. Imagina o impacto dessa grande metrópole, para um rapaz de 16 para 17 anos, vindo do interior de São Paulo. Foi um grande impacto para um jovem que veio do nada para a modernidade, para uma São Paulo, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, onde florescia oportunidades, afetos e esperanças. Não conhecia um bonde, mas quando vi, fiquei maravilhado, tudo me maravilhava, era um mundo que começava a ser desbravado por um jovem roceiro, um capiau. Aí, falei para o cara que me trouxe no caminhão, que era amigo do meu pai, se ele queria ajuda para descarregar às mangas, que não vinham como hoje, em caixas, ficavam espalhadas na carroceria do caminhão. Ele aceitou minha ajuda. E o resto faz parte da minha história...

Fale um pouco desses dois filmes inéditos nos quais que você trabalhou.

A Volta Para Casa, de Diego Freitas, um jovem diretor talentoso para pouca idade, e O Juízo, de Andrucha Waddington com quem fiz Eu Tu Eles, adorei trabalhar nesses dois filmes, olha que sou exigente com os personagens que fiz no cinema. Falar de velhice não é fácil, veja aí, às novelas, que dificilmente conseguem retratar com decência esse estágio da vida tão sensível e difícil. Como vou fazer 90 anos, queria contar uma história de um velho como eu, que convive com o preconceito contra a velhice. Na vi ainda o filme de Andrucha, mas adorei o roteiro da Fernanda Torres, muito inteligente, com muitas camadas. Meu personagem em O Juízo é uma maravilha, mas não posso falar dele, para não dar um spoiler. Tem ainda Rapaterra – A Maldição dos Rios de Prata, que vou fazer em 2020, com a diretora Ariane Porto, que abordará os crimes contra o meio ambiente, inclusive os nossos rios, muito atual nesse Brasil que queima e desmata sua Floresta Amazônica diante de um governo inerte.

Como foi trabalhar na Rede Globo na época da ditadura, que ela apoiou, mas, por outro lado, a emissora empregava muitos comunistas, e mostrava novelas e programas que faziam críticas na medida do possível ao que acontecia no País...

Grande parte dos autores, atores e profissionais de televisão comunistas trabalhou na emissora do dr. Roberto Marinho, que chegou a falar para um desses presidentes-generais: “Você cuida dos seus ministros, que eu cuido dos meus comunistas” (risos). Tentávamos fazer críticas contundentes a ditadura, mas eles não deixaram ir ao ar, censuravam. Na Globo, naquela época infame, ainda podíamos sonhar, mesmo diante de tanta brutalidade e cerceamento da liberdade.

Fórum Cultura 2 em 1 - Debate

Lima Duarte é um dos participantes do fórum Cultura 2 em 1, que ocorre na Faap nesta terça-feira, 3, das 9h às 12h, com apoio do Estado. Danilo Santos de Miranda e Eduardo Saron participam.

 

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