Lento, George R. R. Martin faz 15 páginas publicáveis por vez

Criador da série 'Game of Thrones' é detalhista e extremamente rigoroso

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h13

"Ei, Martin, a princesa Arya vai ficar cega?" "Afinal, cara, quando é que sai o livro número 6?" "Vá para casa, Martin! Você está nos devendo!" Era 2 de fevereiro, dia do espetacular Super Bowl, o jogo decisivo do campeonato de futebol americano, no estádio MetLife, de New Jersey.

Minutos antes, o rosto do homem baixinho, de jeans e camiseta pretos, havia sido mostrado nos telões. "Está aqui George R. R. Martin, o pai da série... bem, vocês sabem do que eu estou falando!" Não foi preciso mais. Uma fila de leitores da gigantesca saga As Crônicas de Gelo e Fogo, e da versão em série para a televisão, Game of Thrones, se formou na frente do camarote. Centenas de pessoas interessadas no autor da obra traduzida para 20 idiomas.

Os cinco volumes já publicados somam 4.223 páginas na edição americana, pouco menos na brasileira. A coleção de audiolivros exige cerca de uma semana para a audição completa. Em regime de dedicação integral, dia e noite: são 197,63 horas de gravação. Em 15 países, a tiragem impressa chega a 15,5 milhões de exemplares - 4,5 milhões só nos EUA.

Constrangido, o autor da fascinante epopeia dos sete reinos de Westeros, limitou-se a sorrir e agitar a flâmula do time vencedor, o SeaHawks. Dias depois, diria em um programa de televisão que a pressão está bem próxima do insuportável. O entrevistador perguntou se havia risco de abandonar o trabalho. A resposta? Um largo sorriso. E o comentário do jornalista: "Não, por favor, não!"

Martin ainda pretende escrever dois livros finais, ambos previstos para 2015. Vá lá: é provável que a última parte acabe atrasando e só apareça por volta de 2017. Sem surpresas.

O sujeito é lento. Produz bastante, mas corta texto, reescreve, joga no lixo, remonta capítulos. No final, sobram apenas 15 páginas aproveitáveis. É pouco. Para evitar o efeito de um "fato desagradável", que é como o escritor se refere à própria morte, George fechou um acordo com a editora Bantam Books: produziu um detalhado resumo, com cerca de 14 mil linhas, para ser lacrado e depositado em uma casa forte bancária com instruções claras para a ocasião em que deve ser lido. "É o material suficiente para que a história chegue ao fim", diz. Todavia, não se sabe se essa providência foi efetivamente tomada. Amigos do novelista afirmam que ele "cria essas lendas da mesma forma como respira".

O fato é que Martin criou um fenômeno. O romance envolve mais de mil personagens. São tantos que os livros precisam de sumários apresentando cada um, suas casas nobres ou associações. No quinto volume, A Dança dos Dragões, o apêndice tem 50 páginas.

A trama é linear: famílias poderosas disputam os reinos, algo semelhantes a ducados, mirando a formação de um império. Batalhas sangrentas, sexo variado, conspiração, traição, e a dose certa de sobrenatural são o combustível do enredo, pegador a ponto de tirar o sono.

Nada de concessões: heróis e vilões morrem e, sim, são mutilados ou sofrem muito, sem que a eventual popularidade que tenham obtido influencie seu destino. Inflexão e mudanças suspendem a respiração, às vezes, enquanto a página é virada.

Que tal um futuro rei anão, ex-proscrito, suspeito de ter assassinado seu antecessor - não por acaso também seu sobrinho, filho da relação incestuosa da irmã com um outro irmão? Ou uma pretendente guerreira ao mesmo trono, que ataca com exércitos de soldados castrados e suicidas, apoiados por grandes dragões alados? Aos livros. E à série.

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