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‘Legion’ acaba seu desafio surreal com dúvida existencial

Baseada em quadrinhos da Marvel, história criada por Noah Hawley indaga se David é mesmo o herói e discute saúde mental; última temporada estreia na Fox 2

Mariane Morisawa , Especial para O Estado de S. Paulo

25 de outubro de 2019 | 08h17

LOS ANGELES - Em suas duas temporadas anteriores, Legion, baseado nos quadrinhos da Marvel, desafiou o espectador com seu quebra-cabeça surrealista sobre David (Dan Stevens), que começa a série num hospital para pessoas com doenças mentais. Desde criança, ele foi diagnosticado como esquizofrênico. Ao longo dos episódios foi revelado que, na verdade, ele tem poderes, como os outros mutantes do universo X-Men – mas também tem problemas mentais. 

A terceira e derradeira temporada, que estreia na Fox Premium 2 hoje, às 22h30, indaga se David é realmente o herói desta história. “O que é Tony Stark se não um completo narcisista?”, pergunta Noah Hawley, o criador e showrunner, em entrevista ao Estado, numa visita ao set, em Los Angeles. “Muitos desses heróis são completos narcisistas, e é apenas por sorte que dá certo para o mundo. No caso de David, ele realmente acha ser uma boa pessoa que merece ser amada. Como acredita em suas boas intenções, ele também acredita que nada do que faz é errado.” 

Para Dan Stevens, a série explora o narcisismo do super-herói. “Temos a ideia de que alguém com todos esses poderes deveria sair salvando criancinhas, mas David só pensa em si mesmo, em se consertar e resolver seus problemas.”

A segunda temporada terminou com um choque, quando David abusou sexualmente de sua amada Syd (Rachel Keller), que ele conheceu no hospital psiquiátrico em que ambos estavam internados no início da história. Retratar abuso sexual em filmes e na televisão é sempre delicado, e Hawley diz ter tido muitas conversas com a atriz Rachel Keller sobre o tema. “Não é acidente falarmos disso neste momento, pós-Me Too”, diz Hawley. “Fazer uma versão adulta de uma história em quadrinhos envolve lidar com assuntos complicados, mas não queria fazer uma versão bem contra o mal. Na cabeça de David, é um ato romântico. Mas qualquer pessoa racional vê que não é. E o que Rachel e eu falamos muito é que tínhamos de lidar com isso de verdade, com todas as complicações.” A atriz acha fundamental deixar claro que as reações ao trauma podem variar muito. “Claro que não podemos mostrar toda a amplitude, mas Syd passa por fases: raiva, dúvida, medo, ressentimento. Ela também admite que dedicou tempo demais a um homem egoísta, estúpido e doente e tentou consertar seus defeitos, como tantas mulheres fazem. Só que é hora de deixar isso para trás.”

O problema é que David, agora líder de uma comunidade onde encontra a adulação que tanto persegue, quer consertar seus erros, voltando ao passado, com a ajuda de uma nova personagem, Switch (Lauren Tsai). Ele acredita que pode resolver sua infância problemática confrontando seus pais, Charles Xavier (Harry Lloyd) e Gabrielle (Stephanie Corneliussen), ou mesmo evitar que o estupro aconteça. “Mas há um elemento sofisticado aí, como Syd diz a David: se ele voltar e alterar todas as coisas ruins que fez, isso muda quem é como pessoa? E essa me pareceu uma maneira interessante de lidar com o assunto”, diz Dan Stevens. Como se vê, David continua sendo David: em vez de corrigir os grandes males do mundo, como o Holocausto, ele continua só pensando em si mesmo.

Ter o personagem principal, o suposto herói, fazendo algo tão terrível como abuso sexual é uma maneira de testar o público. “Não somos os primeiros a fazer isso. Breaking Bad teve um arco de sete temporadas sobre o ponto em que se percebe que Walter White na verdade é o vilão da história”, afirma Hawley. “David não é um vilão que quer destruir o mundo. Ele faz tudo pelo desejo de ser amado. Mas algumas das coisas que faz são difíceis de torcer a favor. Então acho legal perguntar constantemente para o espectador: E aí, você continua ao lado dele?” 

Sua esperança é que, apesar de tudo, as pessoas continuem torcendo por David de alguma forma, mas também que ele enfrente as consequências por seus atos. “Eu sempre quis falar de saúde mental de uma forma real e adulta. Nós esperamos que os personagens aprendam e sejam redimidos, mas há uma questão: se alguém tem uma doença mental que o impede de ter uma perspectiva real sobre si mesmo, ele é capaz de aprender e de se redimir?”, pergunta.

Para o criador de Legion, seu tema sempre foi a empatia. “Quero desafiar a audiência a se importar com pessoas que não são como elas. E perceber ao longo da história que algumas pessoas podem ser salvas, e outras, não. E aprender a enxergar a diferença.” 

Por causa disso, as reviravoltas e maluquices da história são o de menos. “Eu obviamente não acho a série confusa”, diz Noah Hawley, rindo. “Porque o que importa está claro. Eu quero que o espectador tenha uma experiência, quero envolvê-lo com imagens e momentos que façam com que se deixe levar. Se ele resiste à experiência e pensa demais nos detalhes, está perdendo o principal.

Porque ele pode rever depois, ou pensar depois sobre os detalhes da trama. Mas claro que nem todo o mundo está disposto a passar por essa experiência às 10 da noite de uma sexta. E tudo bem, faz parte.”

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