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Le Carré se reafirma um mestre do romance de espionagem

No admirável ‘Uma Verdade Delicada’, o inimigo não é mais o comunismo, mas a guerra ao Terror

Vinicius Jatobá / Especial para o Estado , O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 19h30

É possível que ainda em vida David Cornwell seja reconhecido pela sua verdadeira estatura: o principal herdeiro de Joseph Conrad. Usando o extraordinário pseudônimo John Le Carré, Cornwell realizou com a experiência da espionagem e da contraespionagem britânica o mesmo que Conrad fez com a experiência do Imperialismo inglês, uma completa exploração de sua subjetividade necrosada e eticamente questionável, em que os limites da violência moral e física são tensionados por uma narrativa do poder que justifica os mais medonhos e terríveis crimes.

Os ambiciosos oficiais de Conrad são como os não menos ambiciosos agentes secretos de Cornwell: homens que se veem como intocáveis, até honráveis, emaranhados nas armadilhas da ideologia, arrastados para o coração medonho do tempo em que vivem. E é da arte e da visão corrosiva desses dois tremendos artistas – Conrad e Cornwell – fazer o leitor experimentar a distância entre a limpidez do discurso oficial e o que realmente acontece no campo, a rede de intrigas, traições e atropelamentos em que seus personagens são devastados.

O grande tema de Conrad é a falência racional da cultura diante da lógica irracional da natureza. Fruto de seu tempo, sua ficção era balizada pelas fronteiras entre civilização e barbárie. O coração poético de Conrad está em encontrar a barbárie no coração civilizatório daqueles que saíram pelo mundo justamente para civilizar, conforme o discurso oficial, as colônias do império.

Assim como O Coração das Trevas é o grande poema acerca da falida experiência Imperialista inglesa, a obra-prima O Espião que Saiu do Frio é o grande poema acerca da Guerra Fria. Ambientado na Alemanha ainda recém-dividida pelo Muro de Berlim, a narrativa acompanha o agente-secreto Leamas. Perdido em uma rede de contraespionagem repleta de agentes-duplos e relatórios falsificados, vê-se em um universo em que tanto o lado capitalista quanto o socialista cometem os mais absurdos crimes em busca de uma vitória fugidia: controlar o imaginário de uma nação dividida. Mais, o romance, de 1963, já anuncia o grande tema explorado em todo o restante da obra de Cornwell: homens e instituições tão acostumadas em construir suas vidas e estratégias por meio de mentiras que perdem totalmente o contato com a realidade ética e moral que serviram como seus pontos de partida.

O novo romance de Cornwell tematiza esse dilema já no próprio título: Uma Verdade Delicada. E o inimigo não é mais o comunismo, mas sim uma outra versão daquilo que se compreende como uma nova missão civilizatória: a “Guerra ao Terror”. A versão oficial reza que o investigado pela polícia secreta cometeu suicídio em Gibraltar. O fato de ser suspeito de terrorismo anestesia qualquer investigação mais profunda. Até que surge Toby Bell.

Acontece muito pouco no romance: as personagens conversam e Bell lê relatórios, notas esparsas, antigas missivas. Tergiversa, especula e, como na amada série de romances com Smiley, a narrativa “acontece” na imaginação de Bell: juntando pedaços, fragmentos, interpretando silêncios, ele vai recompondo o que aconteceu em Gibraltar e, assim, revelando uma trama de intrigas, chantagens e falsificações que envolve direta e indiretamente toda a cúpula do Ministério de Relações exteriores.

A imaginação nuançada de Cornwell é alérgica à noção de heroísmo há mais de meio século. O grande dilema é o que fazer com a verdade, que o próprio título desse admirável romance qualifica como “delicada”. Grande parte da trama acontece já com o crime solucionado. O dilema é até que ponto um crime e uma violência são justificáveis, aceitáveis. E até que ponto os limites da moralidade podem ser tensionados por noções de democracia e liberdade que um discurso oficial constrói como o bem maior a ser defendido.

As verdades são delicadas e as respostas, ainda mais incômodas nesse belo romance de um dos grandes mestres da literatura contemporânea.

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