Jorge Bispo
Jorge Bispo

Jovem 'veterano', Gabriel Leone relembra seus principais papéis

Em entrevista ao 'Estadão', artista de 28 anos fala sobre seus trabalhos no teatro, TV e cinema

Entrevista com

Gabriel Leone

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2021 | 05h00

A carreira do ator Gabriel Leone já é tão extensa que se imagina se tratar de um veterano. As 28 anos, no entanto, completados em junho, ele comprova ser um artista ainda com muito potencial a ser explorado. O início foi nos palcos, ainda adolescente, vivendo as primeiras experiências em peças e musicais. Na TV, a trajetória começou com Malhação, em 2013, e a conquista do público veio com sua participação em Verdades Secretas, atualmente sendo reprisada na Globo, e com a série Dom, disponível na Amazon Prime Video.

Além da TV, Leone pode ser visto também no cinema, no qual integra o time de Cláudio Assis no filme Piedade, o lado de Fernanda Montenegro, Cauã Reymond, Matheus Nachtergaele e Irandhir Santos. O ator rodou ainda o longa Eduardo e Mônica, com Alice Braga e sob a direção de René Sampaio, ainda sem data de estreia. Sobre esses e outros trabalhos, o ele conversou com o Estadão.

Como você se recorda de seu trabalho em Verdades Secretas?

O primeiro trabalho que fiz na TV foi Malhação, que tem uma importância gigantesca para mim – não só por ter aberto as portas, mas por ser uma série adolescente. É a possibilidade de quem está começando ali na televisão experimentar e começar a entender o funcionamento daquilo. Depois, fiz Verdades Secretas. Foi um salto brusco, pois saí de uma novela jovem e fui para o horário das 23h, que é mais permissivo, digamos assim, em termos de conteúdo, ali dentro da Globo. É uma macrossérie com uma temática bem forte. O meu personagem, Gui, é muito ligado às questões centrais. 

Como foi atuar em Piedade?

Foi a realização de um sonho, pois eu estava terminando de fazer a novela Velho Chico, na qual eu contracenava com o Irandhir Santos, que fez a maioria dos filmes do Cláudio Assis, cujas temáticas eu admirava muito. Lembro que comentei com o Irandhir que eu achava que ia demorar para eu ter contato com esse tipo de cinema. E aí aconteceu um teste no Rio de Janeiro e acabei passando para fazer o filme. O que achei que ia demorar muito acabou acontecendo. Acima de tudo, é um filme muito importante, os trabalhos do Cláudio são sempre muito contundentes, trazem temas com engajamento sociopolítico. Nunca vi um trabalho dele que não trouxesse uma crítica ou uma provocação. E esse vem de forma premonitória, pois foi filmado em 2017 e parte de uma questão do Recife, quando começaram ataques de tubarões que, em um primeiro momento, quase viram os vilões da história. Foi quando entendemos que aquilo é resultado de um desequilíbrio ambiental do derramamento de óleo. Ou seja, o problema é muito maior. 

E por que você diz que ele seria premonitório?

Dois anos depois da filmagem, várias das praias do Nordeste onde trabalhamos receberam manchas de óleo. O cartaz do filme mostra uma grande mancha de óleo. É muito triste. Eu disse premonitório, mas, na verdade, é uma tragédia anunciada. Acima de tudo, o filme tem essa importância.

E como foi o trabalho na série Dom?

Ela é inspirada em uma história real e é narrada do ponto de vista do pai do Pedro Dom, Victor (Flavio Tolezani). Ele procurou o Breno (Silveira, o diretor) para desenvolver a série. Não se trata de um documentário, mas parte de um ponto de vista da história. E o que cativou o Breno e a todos nós foi a possibilidade de falar sobre dependência química e drogas principalmente no âmbito familiar – mas trazendo de alguma forma também o reflexo disso na cidade do Rio de Janeiro, e no Brasil como um todo. É uma história muito triste, uma tragédia, que todos sabem como vai acabar. Pelo olhar desse pai, contamos a relação dele com o filho, lidando com a dependência química até se tornar um criminoso. E surge esse contraste: um cara da polícia que combate as drogas tem um filho que se tornou usuário. Viver esse personagem foi muito marcante. Pedro, que morreu antes até de começarmos a filmar, foi baseado nos relatos do pai e das pessoas que tiveram contato com ele.

Fale mais sobre a preparação.

Meu maior farol foi o Breno, que conviveu por mais de 10 anos com o Victor, pai do Pedro, e que lhe ofereceu o projeto uns 10 anos antes de a gente rodar. Durante esse tempo todo, ele manteve contato com Victor, o filmou e o documentou contando as histórias. Nesse sentido, Breno tinha uma propriedade sob o ponto de vista do Victor. E, como filmamos em ordem cronológica, o que é raro, tive a possibilidade de construir o personagem dia após dia. As situações eram muito intensas. Houve quatro ou cinco bailes funk que filmamos com mais de 400 figurantes, com um nível de realidade que impactava absolutamente as cenas. Não era uma festa gravada no estúdio, com luzes e ar condicionado. Filmamos realmente na favela, as pessoas de lá, som alto, suor. O único ponto que eu procurei trabalhar era o fato de o personagem estar sempre sob efeito de drogas. E, como iria filmar por quatro meses, eu sabia que teria de encontrar um dispositivo para acionar essa energia diferente da minha, com a agitação interna necessária para as cenas. E que eu pudesse acessar em minutos e permitir que me abrisse para as tensas relações do personagem ao longo da série.

A música sempre fez parte da sua vida e de seu trabalho, não?

Sim, desde muito cedo. Brinco que meu nome é Gabriel por causa de uma música do Beto Guedes, de quem meus pais sempre foram muito fãs. Cresci escutando os discos dos meus pais e, ainda adolescente, aprendi sozinho a tocar violão e cheguei a tocar numa banda na época da escola. Depois, minha relação com música se aprofundou no momento em que resolvi experimentar audições para musicais. Então, estudei canto profissional. Primeiro, fiz musicais infantis e depois produções maiores, como Chacrinha. Hoje, tenho a música não só como paixão mas como instrumento de trabalho. Já tive canções minhas para determinados personagens e até interpretei Roberto Carlos, tanto no teatro como no cinema. Na quarentena, aproveitei para estudar mais.

E como foi interpretar Roberto Carlos?

Como o Roberto tem um cuidado enorme com a imagem dele, precisei ser aprovado por ele para fazer o musical Chacrinha e o filme Fama de Mal. No longa, pude me aprofundar mais e a proposta era de não fazer uma imitação. Então, meu trabalho foi o de estudar o máximo possível as características dele e incorporá-las na minha interpretação. Além disso, o filme falava sobre um período da vida do Erasmo e Roberto, na Jovem Guarda, do qual praticamente não se tem registro em vídeo. A gente teve a oportunidade de regravar as músicas também.

Você é ligado em Legião Urbana, então como foi fazer o filme Eduardo e Mônica?

Eu era muito pequeno quando o Renato Russo morreu, não consegui acompanhar a Legião, mas meus pais eram fanáticos pela banda, acompanhando desde os primeiros shows. Logicamente, acabei me tornado fã inveterado. Fui à exposição do MIS e vi as letras dele da música, rabiscos da canção. Ali tive a dimensão do Renato. Eduardo e Mônica talvez seja o maior sucesso da música brasileira. Vivo um personagem que saiu da mente e do coração do Renato. A parceria com a Alice Braga também foi especial. A estreia seria ano passado, mas, com a pandemia, acabou atrasando.

Como foram as gravações da novela Um Lugar ao Sol?

Comecei a filmar em janeiro e já terminei. Filmamos sob todos os protocolos de saúde, principalmente dentro dos estúdios. Será a primeira novela fechada da história, vai estrear com tudo filmado, ao contrário do habitual quando a novela, por ser uma obra aberta, vai sendo feita à medida que é exibida. É um projeto especial, o personagem é interessante e rodeado de mulheres fortes. Acho que 95% das minhas cenas são com mulheres: a minha avó é a Regina Braga, minha mãe é a Denise Fraga e meu par é a Andrea Beltrão. E minhas cenas giram muito em torno das três, o que foi uma honra.

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