Nathan Bajar/The New York Times
Nathan Bajar/The New York Times

José Padilha vai para o embate com Dilma Rousseff

Diretor da série 'O Mecanismo' responde às críticas da ex-presidente: 'O PT de Lula se associou ao PMDB de Temer'; Dilma acusa Netflix de fazer campanha política: 'Se está fazendo no Brasil, pode vir a fazer em qualquer outro país'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 Março 2018 | 21h22

Mais gasolina atirada à fogueira na sexta-feira, 23, quando chegou à Netflix a série O Mecanismo, do diretor José Padilha. Até segunda, 26, os comentários de repúdio e apoio ao teor do roteiro que trata das investigações da Operação Lava Jato seguiam alimentando posts raivosos nas redes sociais. Padilha estaria distorcendo fatos, como acusou a ex-presidente Dilma Rousseff em um texto em seu Facebook? Ou escancarando a podridão em metástase de um sistema que não segue ideologias?

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Ao Estado, o diretor respondeu: “A Lava Jato mostrou que PT e PMDB desviaram, juntos, bilhões de dólares dos cofres públicos. Lotearam o País, assim como o PSDB havia feito. Operaram o ‘mecanismo’. Parasitaram os brasileiros. Não há como negar.”

Dilma, em seu artigo, havia apontado o que chamou de distorções: “O cineasta José Padilha incorre na distorção da realidade e na propagação de mentiras de toda sorte para atacar a mim e ao presidente Lula...”. Em coletiva de imprensa realizada na tarde desta segunda, 26, ela acusou a Netflix de realizar “proselitismo eleitoral” com a série sobre corrupção. “Vou denunciar às autoridades de outros países que a Netflix está fazendo campanha política descaradamente. A empresa não foi criada para isso”, afirmou a correspondentes de jornais internacionais no Rio. “A Netflix não pode fazer campanha política. Se está fazendo no Brasil, pode vir a fazer em qualquer outro país.”

Ela já havia falado de incômodos com a série, como, segundo disse, o uso indevido de uma frase em personagens trocados: “O cineasta tem o desplante de usar as célebres palavras do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre ‘estancar a sangria’, na época do impeachment fraudulento, num esforço para evitar que as investigações chegassem até os golpistas. Jucá confessava ali o desejo de ‘um grande acordo nacional’. O estarrecedor é que o cineasta atribui tais declarações ao personagem que encarna o presidente Lula”.

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Ao Estado, Padilha diz que Dilma e a esquerda criam cortina de fumaça sobre o assunto da frase “estancar a sangria”. “Os bandidos entram na sua casa, estupram a sua esposa, matam seus filhos e roubam tudo o que você tem. Na saída, surrupiam seu isqueiro... A esquerda viu a série e quer debater a cor do isqueiro. O PT de Lula se associou ao PMDB de Temer. Juntos, operaram o mecanismo. Desviaram bilhões de dólares dos cofres públicos. Petrobrás, Belo Monte, Eletrobrás, BNDES. Parasitaram o cidadão. E a esquerda finge que não viu? Sinto muito. A esquerda enlouqueceu e ficou tão hipócrita quanto a direita. Hoje, estão todos de mãos dadas: os formadores de opinião da esquerda, Aécio Neves e Temer, torcendo para que o STF revogue a prisão em segunda instância. Depois, o maluco é o Ruffo”, disse, citando o personagem Marco Ruffo, o delegado da série obcecado pelas investigações da Lava Jato, vivido por Selton Mello.

Que leitura ele faz das reações?

“Petrobrás, BNDES, Belo Monte… E ainda vêm aí os fundos de pensão. A polarização política é uma tentativa desesperada dos intelectuais de esquerda em tentar não ver que o elefante está aí. A verdade é clara: a esquerda brasileira foi e é tão corrupta quanto a direita. O mecanismo não tem ideologia.”

E como recebe as críticas de Dilma?

“Como evidência de que, nos grandes temas, acertamos em cheio.”

Não foi um erro colocar a frase dita por Jucá na fala do personagem que seria o Lula? Você já disse que ela não foi patenteada por Jucá, mas nesse caso não dá munição a quem quer desqualificar a série?

Não. Jucá e Lula não patentearam as expressões idiomáticas que por ventura utilizaram em falcatruas. A língua portuguesa ainda não foi surrupiada. Ainda.

Já esperava pela pedreira, pelas reações?

Não acho uma pedreira. Acho revelador. A série mostra como PT e PMDB montaram um enorme esquema de corrupção de lavagem de dinheiro. Um esquema que lesou os brasileiros. Como a participação clara de Lula e de Temer, que durante boa parte do tempo foram sócios com a participação de um enorme esquema com empreiteiras. E a esquerda quer polemizar o uso do termo “estancar a sangria”! Não é preciso ser nenhum Sigmund Freud para concluir o que a esquerda revelou sobre si mesma ao se ater a este debate. / COLABOROU ROBERTA JANSEN

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