Jornalistas russos comentam série Chernobyl

Jornalistas russos comentam série Chernobyl

Aclamada minissérie da HBO chega ao fim nesta sexta-feira, 7

Anna Malpas, AFP

07 de junho de 2019 | 16h37

A aclamada minissérie americana Chernobyl, sobre a catástrofe nuclear, traz lembranças dolorosas na Rússia, com um realismo tão elogiado quanto criticado por exagerar o papel nefasto das autoridades soviéticas. A HBO transmitiu esta semana o último dos cinco episódios da minissérie, uma imagem implacável do pior acidente nuclear na história civil.

Em 26 de abril de 1986, a explosão do reator número quatro na fábrica de Chernobyl, na Ucrânia soviética, dispersou uma nuvem radioativa na Europa. A URSS tentou por várias semanas esconder o incidente, antes de resolver evacuar a área, inabitável mesmo 30 anos depois. "Os graus de realismo de Chernobyl são mais altos do que na maioria dos filmes russos neste período", reconhece o jornal pró-governo Izvestia. "Acho que é um trabalho de alta qualidade na televisão", disse Susanna Alperina, jornalista cultural do jornal pró-Kremlin Rossiïskaïa Gazeta.

Na Rússia, a série não é transmitida pela televisão, mas é acessível através da plataforma de streaming Amediateka, que ganhou os direitos de muitas séries populares, como Game of Thrones. O trabalho é elogiado porque consegue reproduzir a atmosfera da URSS e às vezes lembra os espectadores russos de sua infância. As filmagens foram feitas entre a Ucrânia e uma antiga usina nuclear soviética na Lituânia, equipada com os mesmos reatores RBMK em Chernobyl.

Feita pelo sueco Johan Renck, Chernobyl tem como personagem principal o vice-diretor do maior centro de pesquisas da URSS. A série concentra-se no heroísmo dos personagens comuns, mas os principais líderes soviéticos, começando por Mikhail Gorbachev, são mostrados como inúteis e mentirosos. A série expressa "respeito e simpatia pelo povo, pelo nosso povo soviético", disse no Facebook a jornalista Ksenia Larina, da rádio independente Echo, em Moscou. "Mas ele expressa muito desdém pelas autoridades que menosprezaram seus cidadãos."

Agora que as relações entre a Rússia e os países ocidentais são as piores desde o fim da Guerra Fria, alguns vêem na série uma crítica injustificada ao regime soviético e um ataque ao poder atual. O popular diário Argumenty i Fakty criticou uma "mentira brilhantemente filmada" que divide o povo soviético entre "executores sanguinários e vítimas inocentes".

Uma das mensagens ocultas da série seria, por exemplo, mostrar que a indústria nuclear russa não é confiável, alertou o jornal Komsomolskaïa Pravda. Para o jornal, que gosta de teorias da conspiração, a produção de alto orçamento da HBO mostra os "russos desabrigados e descuidados" com o objetivo de interromper as vendas de fábricas russas no exterior. 

Trinta pessoas morreram imediatamente após a explosão do reator número quatro da usina de Chernobyl, mas o saldo total, que ainda gera controvérsia, é de vários milhares de mortos, especialmente entre os encarregados das operações de descontaminação da zona.

A jornalista Susanna Alperina não acredita que há propaganda na série. Pelo contrário, a série "mostra como a propaganda é fabricada, o que é diferente", diz. Alperina acrescenta que "uma visão externa é às vezes mais justa" e destaca o fato de que produções russas similares não foram vistas.

Na Rússia, Chernobyl também levanta a questão de saber por que um trabalho dessa qualidade nunca foi feito no país. Uma das razões seria o orçamento de séries russas, que não é comparável ao das produções ocidentais. "Talvez as pessoas tenham medo de fazer esse tipo de projeto por medo de que os espectadores não gostem delas, mas é o que elas esperam", diz Susanna Alperina.

Em 2014, a rede russa TNT produziu uma série adolescente de terror que teve Chernobyl como palco. E o ator e diretor russo Danila Kozlovsky anunciou em março um filme sobre o assunto.

 

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