Joga pedra na Geni

Personagem gay tornou-se item básico de qualquer telenovela, ao lado da mocinha chorona, do mocinho bem intencionado, do vilão implacável e do núcleo de humor. De certa forma, foi um avanço não mais esconder o nome dos sentimentos que moviam personagens como Inácio (Dennis Carvalho), em Brilhante, novela que Gilberto Braga escreveu no começo dos anos 80. Há pouco tempo, o sapeca Bernardinho (Thiago Mendonça) de Duas Caras declarou seu amor para o brutamontes Carlão (Lugui Palhares) em pleno horário nobre e o mundo não se acabou.Mas nem tudo é tão paz e amor. Por mais queridinho do público que seja, o gay de novela ainda não conseguiu se livrar do castigo. Pode reparar. O já citado Bernardinho pastou um bocado por causa dos golpes dados por seu amor bandido. Em A Favorita, o embutido Orlandinho (Iran Malfitano) quase serviu de alvo para um golpe perpetrado pelo pilantra simpático Halley (Cauã Reymond). E na HQ da Record, Os Mutantes, o afetado Danilo (Cláudio Heirich) cai na lábia do malvadão Homem Cobra, o que rende trocadilho até dizer chega.Depois de passar pela barreira do caricato e de conquistar cenários que não fossem salão de beleza ou ateliê de costureiro, os gays ganharam tramas próprias, mas ainda precisam cair no conto do vigário aplicado pelo salafrário de plantão, talvez para aplacar a moral dominante. Sem querer procurar chifre em cabeça de cavalo (ou qualquer outro bicho), é como se a função do personagem homossexual, com coração de ouro e auto-estima ausente, fosse sempre se apaixonar pelo saradão que faz dele um caixa 24 horas ambulante. Em termos de estrutura dramática, o personagem gay ocupa a vaga do velho babão das comédias de Molière, que se apaixona por mocinhas saltitantes sem se dar conta do ridículo. Ou seja: abriram-se as portas do armário, mas as teias de aranha continuam lá. e-mail: mvianinha@hotmail.com

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