Fabio Motta/Estadão
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Cristina Padiglione
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João Emanuel Carneiro volta à TV com 'A Regra do Jogo'

Ele terá a missão de substituir novela que não vingou

Entrevista com

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 06h00

RIO - Desde que Carminha (Adriana Esteves) se foi, levando com ela o lixão e o Divino que mobilizaram a audiência de todo o País, o telespectador aguarda pelo retorno do criador daquelas criaturas de Avenida Brasil. Aí está João Emanuel Carneiro, 45 anos, que volta à faixa das 21h com A Regra do Jogo, a partir de 31 de agosto, repetindo a boa parceria com Amora Mautner, agora na direção-geral. O mote da vez é norteado pela discussão sobre o limite entre o certo e o errado, o que é ou não aceitável e passível de punição, no Rio de Janeiro, “onde o conceito de psicopatia é bem fluído”, avisa.

Autor que mais tem surpreendido o público de novelas, da virada promovida em A Favorita (2008) à mocinha vingativa de Avenida Brasil (2012), João anuncia que, no novo enredo, um personagem “torto” vai se apaixonar pela imagem de santo que fazem dele. Seria o vereador aparentemente tão bem intencionado, vivido por Alexandre Nero, o protagonista? O dramaturgo faz cara de paisagem. Em sua primeira entrevista sobre a nova novela, João conversou com o Estado nas dependências do Hotel Copacabana Palace, zona sul carioca, um dos focos da trama.

A Regra do Jogo fica entre o asfalto e a favela. Haverá, de novo, a valorização do subúrbio em detrimento da zona sul carioca?

Essa novela é favela e asfalto. Subúrbio é outra coisa. Favela e asfalto têm outro tom, é outra história. É a partir da favela que deu certo, inspirado no Vidigal, que eu criei esse Morro da Macaca, como foi o Divino, mas é diferente: é sobre a interseção do Rio de Janeiro. Por exemplo: tem um casal de classe média que não consegue mais pagar IPTU nem taxas condominiais nem reforma da portaria nem IPVA. Eles são da zona sul e vão morar na favela. Aqui acontece muito. Muita gente de classe média vai morar na favela - atores, músicos, mas também médicos. É muito mais barato.

Quem é o casal?

É um designer gráfico casado com uma arquiteta, o Bruno Mazzeo e a Monique Alfradique. E vão morar na favela para viver uma vida louca, beber, cair na farra, com tempo para se divertir, coisa que não tinham no apartamentinho que alugavam. Esse casal é até um pouco o paradigma da história. A novela é um pouco sobre isso, esse momento que a gente está vivendo: a favela se aproximou muito da zona sul.

Mas isso é muito Rio, né?

É. O subúrbio era diferente, o subúrbio estava lá e nós aqui, não tem essa mistura que tem no Vidigal. Vou muito ali no alto do Vidigal, no Arvrão, um lugar inspirador para a novela, com uma boate maravilhosa. No Vidigal, você sobe tranquilo. É uma favela-modelo, o barraco custa R$ 400 mil, com alvenaria mínima, banheiro e salinha, acho caríssimo. Mas a Madonna comprou barraco lá. Todo mundo da zona sul vai lá, virou point da noite, sofisticado. Essa aproximação é até um pouco promíscua. A novela é muito sobre promiscuidade também.

Qual a concepção do título A Regra do Jogo?

A Regra do Jogo é o limite de cada um arbitrar o que seria intolerável, o que seria imoral, o que seria mau-caratismo e como é isso no Rio de Janeiro, onde o conceito de psicopatia é bem fluído, digamos assim: quem vai ser condenado, quem vai para o inferno e para o paraíso? Tem um lado um pouco Você Decide. O espectador vai arbitrar se a pessoa merece uma chance ou vai para o inferno.

Vai deixar a questão aberta para o espectador julgar?

Para mim mesmo, como espectador. Na verdade, faço a novela muito para mim. Eu sou o primeiro espectador. Nunca penso que estou fazendo a novela para agradar alguém. A novela é para me agradar. É claro que tem que ter bom senso. Não posso fazer uma história de freiras lésbicas assassinas para a família brasileira, alguma autocensura tem que ter.

Você defende que é preciso contrariar a audiência. Até que ponto isso é possível?

Ah, sim, tem um limite. É um jogo, uma corda que tem que puxar e esticar, mas acho que é preciso contrariar as pessoas o tempo todo, numa certa medida. A Favorita foi isso. Quando revelei que Flora era a assassina, recebi ameaças de morte. Uma mulher declarou que ficou dois dias deitada na cama olhando o teto, ficou péssima. Na Favorita, era muito claro que havia uma boa e uma má. Aqui é justamente 50 Tons de Cinza. É justamente: como condenar? Quem ainda é passível de salvação e quem não é? Quem vai direto para o inferno? A novela tem a ver também com esse momento político.

Sim, o protagonista (Alexandre Nero) é vereador. Ele é herói?

Ele vai ser julgado nas balanças, todas. A história da novela é um pouco a história dele e ele poder pender para um lado ou para o outro, na balança. Pode ir para o bem ou para o mal. Vocês verão. Quem viver verá. 

Há uma expectativa alta para esta novela, ainda mais depois de Babilônia, que enfrentou problemas. Como lida com isso?

Na televisão, você não pode jamais se repetir. Se acha que encontrou uma fórmula, não encontrou. Cada novela é um desafio. O desafio dessa história é falar sobre o livre-arbítrio. 

Mas a urgência por resultados é cada vez maior. Seria possível hoje conduzir uma novela como A Favorita, que pede paciência até virar o jogo?

A Favorita é uma novela muito difícil, muito ousada, mas não estou cedendo nessa novela, estou fazendo a história que eu queria fazer. Não houve nenhuma ingerência da TV Globo sobre nada e acho que esse é o grande perigo: o canto da sereia é achar que resolve fazer alguma coisa para agradar alguém que não seja você.

Como acontece agora na novela das 9?

Isso é uma coisa muito delicada. Quem é esse alguém que não é você? Acho que você tende a errar. Acho que a TV Globo acertou historicamente porque foi ousada, ainda mais no passado. Ela estava à frente do seu tempo, com Roque Santeiro, Vale Tudo, com novelas incríveis que desafiaram as pessoas. Se a gente inverter esse passo, tentar fazer alguma coisa imaginando quem é esse espectador, não vai dar certo.

Se você tiver que passar por uma situação como a de Babilônia, submetida a reformas por pesquisa e Classificação Indicativa, estaria disposto a ceder?

Eu não saberia fazer isso. Todas as histórias já foram contadas no mundo, a maneira de contá-las é que é nova. Uma boa história, o público sempre vai querer, vai gostar e vai aceitar. Acho que nenhum escritor pode ter medo do conflito, de temas fortes, de tintas fortes, que é isso que faz a dramaturgia. Tirar essas coisas de uma história que eventualmente não deu certo é acabar de matar a história. Tanto é que tem uma novela das onze, do Walcyr Carrasco, que tem prostituição, temas fortes e é um sucesso. Quando você escreve uma coisa, tem que acreditar, mesmo que seja mentira, que aquilo é a melhor coisa do mundo. Senão, não funciona. Sempre acho as minhas histórias maravilhosas. 

Você mora na zona sul?

Moro. Gente, olha o Brasil, o Brasil não é zona sul carioca, isso aqui não é nada, nós somos gringos. Essa elite que era formadora de opinião... A elite das novelas deixou de ser sexy, as pessoas não querem mais ver vida de grã-fino, ver coluna social. No século 21, as pessoas estão interessadas na vida delas. Ninguém quer mais saber da mademezinha, do coquetel. Essa nova classe C não é aspiracional, tem um lado muito mais pragmático. A antiga classe média é que tinha essa fantasia, essa vida dos ricos, esse glamour, a atual não tem nenhum.

No morro, tem Susana Vieira e Tony Ramos, o que já é uma escalação fora do comum. O que podemos esperar do asfalto?

No asfalto, os classes média são o Marcos Caruso e a família inteira, que é também uma observação muito minha do Rio. O Rio tem muita gente que você não sabe o que faz e como sobrevive. Tem muito ator, artista plástico (risos), não se sabe como comem, dormem e essa família é exatamente isso. O Caruso é o Feliciano Stuart, um cara que tinha dinheiro há 30 anos, ainda tem uma cobertura cheia de dívidas, caindo aos pedaços, onde moram ele, os filhos, todos parasitas, a empregada, que está há dez anos sem receber, mulher e ex-mulher do filho, a filha lésbica que é tatuadora mas não tatua nada, todo mundo é vagabundo (risos).

O elenco tem quantos atores?

Não tem nem 40. Sempre falo isso: tem que fazer a novela com o número de pessoas que eu consigo me relacionar numa semana. Jamais conseguiria me relacionar com 150 pessoas numa semana.

Tem alguma referência em literatura, cinema?

Tem muito de romance russo nessa coisa de você testar o limite, o caráter das pessoas, o que é tolerável, o que não é, o quanto elas podem ser sujas, tanto nessa novela como em Avenida Brasil... Muito romance russo, Nastássia Filippovna em O Idiota (de Dostoievski). Tem essa ideia, você vai ver mais adiante, de um homem torto que se apaixona pela ideia de ser um santo, tem muito a ver com os (Irmãos) Karamazov (Dostoievski).

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