ZÉ PAULO CARDEAL/DIVULGAÇÃO
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Cristina Padiglione
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Jô adianta o beijo do gordo

Talk-show volta mais curto e abre vaga a um possível novo programa

Entrevista com

Jô Soares

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

29 Março 2015 | 03h00

Jô Soares volta ao ar amanhã, em versão mais leve. O sexteto voltou a ser quarteto, como era no princípio, ainda pelo SBT, e o programa perdeu um de seus três blocos, fechando agora em 40 minutos de duração. A decisão de reduzir a atração veio da direção da Globo, que estuda a possibilidade de abrir espaço para um segundo programa de fim de noite na grade diária. O fundo do cenário voltou a ser dominado por um grande painel da cidade, sem mais elevador e palquinho superior.

“A gente já não vinha usando o elevador fazia tempo”, lembra Jô. “E tinha aquele palco ali de cima, que a gente acabou tirando. A ideia era usar mais aquilo, mas não dava e era uma forçação de barra. Acho que ficou mais clean e deu um destaque maior ao logo do programa. Foi um lucro.” Com mais de 14 mil entrevistas num histórico que começou em 1988, no SBT, e está há 15 anos na Globo, Jô Soares recebeu o Estado com exclusividade na sala de reuniões da produção do Programa do Jô, na sede paulista da Globo, no Brooklin, ao lado do diretor-geral da atração, Willem van Weerelt, e da produtora Anne Porlan.

A plateia perdeu algumas cadeiras, algo imperceptível aos olhos do telespectador, para se aproximar mais do palco. E as gravações agora ocorrem às terças e quartas-feiras. Diante desse Fla-Flu político que assola o País, “As Meninas do Jô” terão vaga cativa às quartas. O time feminino de jornalistas completa agora dez anos de frequência no programa. A mesa volta ao ar com Cristiana Lobo, Ana Maria Tahan, Lúcia Hipólito e Cristina Serra – Lillian Witte Fibe pediu dois meses de espera para retornar em junho, após resolver pendências pessoais.

Intrigas políticas, aliás, são o foco do novo livro que Jô está escrevendo, ainda mantido sob sigilo. A isso, o apresentador, escritor, humorista e diretor logo deve somar o expediente de dirigir mais uma peça teatral. Só falta escolher qual, entre três propostas.

Por mais de uma hora, Jô Soares, falou ao Estado sobre TV, política, censura, internet, humor e trabalho. Aos 77 anos, dispensa planos para se aposentar. Sobre a presença de seu nome em uma lista de correntistas brasileiros com conta secreta na filial do banco HSBC da Suíça, voltou a dizer que não tem ideia do que seja.

Por que o Sexteto do Jô virou Quarteto?

O Sexteto foi um acréscimo que foi surgindo com o tempo. Nessa volta, eu disse: “já que diminuiu o cenário, volta o quarteto original”. Eventualmente, eles (Tomati e Chiquinho, que saíram) podem voltar como convidados, mas o essencial é que não se mexesse no quarteto original. Quem começou o programa, no SBT, que já fazia parte da orquestra do Silvio (Santos), do maestro Zezinho, eram o Rubinho, o Miltinho e o Bira. Quando começou o programa, veio o Derico.

O programa foi reduzido?

Foi reduzido em um bloco, o que eu acho que agilizou mais. Como vai ao ar muito tarde, o último bloco acabava ficando meio prejudicado. Agora o programa tem 40 minutos. Excepcionalmente pode chegar a 45. A gente fazia a maioria em 60 minutos, não cortou muito. Na essência, no espírito do programa, não mudou nada.

Foi pedido seu ou da Globo?

É que existe a possibilidade de entrar mais um programa de fim de noite depois do Programa do Jô. É uma possibilidade, não tem confirmação nenhuma. É um programa que criou um horário nobre, desde o SBT. Era um horário que praticamente não existia e foi se transformando num horário nobre. Isso é uma das coisas que me envaidecem muito, ter aberto mais um espaço.

Muita gente fala em fazer talk-show, mas poucas iniciativas funcionam. Por quê?

Johnny Carson dizia que o talk-show diz respeito a quem está atrás da mesa e a quem está sentado ao lado. Não adianta grandes produções. Numa festa, um produtor de televisão disse a ele que estava preparando um talk-show diferente, em que o convidado ia chegar de helicóptero, e ele falou: “olha, pode ter tudo, o que interessa mesmo no talk-show é quem está atrás da mesa, quem está do lado e a interação dos dois”. Acho que nisso eu levei uma grande vantagem porque, quando comecei a fazer o talk-show, eu já tinha alguns anos de carreira e já conhecia gente de todas as áreas. Isso cria uma intimidade com o convidado. Também tem que ter alguns anos de profissão e experiência para poder fazer um talk-show e ser irreverente sem ser grosseiro. E uma das coisas que eu realmente criei foi fazer um programa em que eu chamo todo mundo de ‘você’. ‘Você’, no Brasil, estabelece uma diferença, não de respeito, mas de classe social. Você chama o ministro de ‘senhor’ e o motorista dele de ‘você’.

Você disse que quer trabalhar até morrer. Não tem planos de reduzir o ritmo ou se aposentar?

Não tenho mesmo. Inclusive o artista não tem. Veja a Inezita Barroso. Depende também: enquanto quiserem eu quero. E também eu tenho outras áreas. Tenho três convites de teatro para dirigir, ainda não escolhi o que sai primeiro. E estou escrevendo um livro novo, mas que não posso te adiantar o que é. Tem um contingente político muito forte. É ficção. O Harry Belafonte tem uma fixação enorme pelo meu primeiro romance (O Xangô de Baker Street) e me ligou semana passada pedindo para eu lhe enviar novamente o livro e o filme porque já passou bastante tempo, os direitos já venceram e ele quer ver se faz o filme. Ele está com 80 e poucos anos, mas em plena atividade.

Você continua naquele processo de emagrecimento?

Estou menos gordo. O cuidado principal é com a roupa. Se a roupa aperta, a gente já fica atento. Gordo é para sempre, é como alcoólatra. Se sai um dia da dieta ou do controle...

No ano passado você ficou três semanas internado, com problemas no pulmão. Sua rotina mudou após aquele episódio?

Sim, faço fisioterapia. Já nem é mais fisioterapia, é personal trainer: faço cinco vezes por semana. É ótimo. Eu montei, em casa, bicicleta, esteira, remo, que aliás eu adoro...

Igual ao Frank Underwook (personagem de Kevin Spacey em ‘House of Cards’)?

É, mas acho que ele deixou de fazer porque agora ele tá mais gordo nesta temporada (risos).

Para você, que começou na TV ao vivo e vê o vídeo sob demanda ganhar cada vez mais espaço, qual o futuro da TV aberta?

Acho que a televisão aberta cada vez mais vai ter o lado do instantâneo, é um caminho imenso para o jornalismo e para show. No fundo, a televisão é um eletrodoméstico. A função é pegar o espetáculo e levar para tua casa. E os programas de humor, que precisam muito de plateia, têm que ser realmente uma coisa quente.

O humor está finalmente se livrando da ditadura do politicamente correto?

O humor não está levando a sério o politicamente correto. Qual é o limite do humor? É ser engraçado para você. Tendo o objetivo de ser engraçado e alcançando um público que ache engraçado, tudo bem. Agora, se você se impõe um limite – “nesse assunto eu não toco” –, começa a ser uma coisa retrógrada.

O Canal Viva reprisou o Viva o Gordo. Algum daqueles personagens enfrentou rejeição?

Teve personagem que a Censura mandou tirar, acho que foi o único: o Gandola. O Gandola ficou dois anos no ar. Ele pedia emprego e dizia: “quem me mandou aqui foi o (gira os olhos) Gandola”, até arrumarem um bom cargo para ele. Quando (os censores) descobriram que Gandola era outro nome pra túnica militar, mandaram tirar do ar.

Você foi vítima da viralidade da internet, durante sua internação. Como lida com isso?

Cheguei a ter uma parada cardíaca depois de morto. O próprio Roberto Irineu me ligou e perguntou: “você está bem?”. Ele é meu amigo de décadas. Disse que ligaria para o (Carlos Henrique, diretor-geral da Globo) Schroder e pedir pra colocar minha alta no Jornal Nacional. O Schroder encerrou o Jornal Nacional dando essa notícia. Ele ligou para mim e eu disse: “o engraçado, Schroder, é que eu trabalho no maior veículo de comunicação da América do Sul e as pessoas, em vez de ligar para saber da fonte, vão saber do blog de não sei quem”. Aí me mataram várias vezes. Mas a viralidade pode ser usada de uma maneira tão positiva! Foi graças à rede que teve essa manifestação de milhares de pessoas nas ruas.

Agora houve a lista de contas secretas do HSBC da Suíça, onde constava o seu nome, e isso também se multiplicou na web...

Ihhh... É engraçado porque falei: tenho uma conta legal no HSBC de Nova York, não sei qual foi a misturada que fizeram aí, e com nomes que eu nunca vi. Estão associando o nome à conta legal que eu tenho em Nova York. Em Genebra, nunca tive. Não tem nenhum fundo de verdade. O (cineasta Hector) Babenco me ligou p... da vida: (imita o sotaque argentino de Babenco) “Eu nunca peguei coisa nenhuma, vamos entrar com processo!”. Respondi: “Processo contra quem? Isso é uma notícia vazia”. Não tem nem o que botar fogo nisso, mas adoram, né?

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