Victor Llorente/The New York Times
Victor Llorente/The New York Times

Jimmy Fallon começa nova fase do programa 'The Tonight Show'

Desde meados de março, Fallon apresenta uma versão caseira do programa em quase 10 mil metros quadrados

Dave Itzkoff / NYT, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 05h00

Na noite de 1.º de junho, Jimmy Fallon se sentou atrás de uma mesa bem rústica num canto da Sagaponack, em Nova York, a casa de campo que vem substituindo o estúdio do The Tonight Show. Dava para sentir que a atmosfera estava muito tensa para um programa de fim de noite que costuma ser leve e alegre; Fallon estava de suéter e não parava de apertar as mãos enquanto olhava para as lentes da câmera de um iPhone nas mãos de sua mulher, Nancy Juvonen. Embora nada pareça muito normal nos últimos tempos, ele disse aos telespectadores: “Não vou fazer um programa normal hoje à noite”.

Numa voz meio trêmula, Fallon disse que estava arrependido de ter usado blackface numa antiga esquete do Saturday Night Live que voltou a circular online nas últimas semanas. Ele não se referiu especificamente à morte de George Floyd – a qual viria pouco depois no programa, em conversas com Derrick Johnson, presidente e executivo-chefe da Naacp, Don Lemon, âncora da CNN, e Jane Elliott, educadora antirracista. Mas Fallon falou abertamente sobre os dias de agitação civil que ainda estavam em curso e a “violência absurda que irrompe e rompe no país inteiro e, agora, no mundo”.

Ele também disse que estava refletindo consigo mesmo, tentando entender o que deveria melhorar e como poderia usar sua voz para ajudar a interromper o ciclo de raiva, sofrimento e medo.

Como Fallon observou em seus comentários, só desejar que as coisas melhorassem não era suficiente. “Não podemos dizer ‘Seja a mudança’ e ficar só tuitando ‘Seja a mudança, seja a mudança’”, disse ele. “Qual é a mudança? Como eu mudo? Como faço isso? O que tenho que fazer?”.

Mas, primeiro, disse Fallon, ele tinha de lidar com os erros e as inibições que o mantinham quieto. “Claramente, não sou especialista”, disse ele. “Claramente, sou apenas um apresentador de talk-show de fim de noite. E já fiz muita besteira.”

Se a era do coronavírus forçou os programas noturnos a adotar uma abordagem mais básica e redescobrir seus valores essenciais, então Fallon, com partes iguais de intenção, acidente e necessidade, vem dirigindo The Tonight Show para um rumo mais íntimo e pessoal.

Desde meados de março, quando a produção do Tonight Show fechou as portas na sede da NBC no Rockefeller Plaza, Fallon apresenta uma versão caseira do programa em seus quase 10 mil metros quadrados nos Hamptons. Se seus espectadores estavam passando por tempos tumultuados e imprevisíveis, a resposta de Fallon era oferecer a eles um conforto cômico e suave, ao lado da mulher e das duas filhas do casal.

Fallon, que está com 45 anos de idade, esperava que esse programa mais despojado, na companhia da família, permitisse que as pessoas o vissem como um cara atencioso e simpático, e não como uma caricatura exagerada. Como ele explicou numa entrevista: “É um lado que você não conhecia – ‘Oh, eu achava que ele era só um cara meio bobo e brincalhão que não ligava para nada’. Mas eu me ligo em muitas coisas, de verdade”.

Mas essa ambição foi severamente comprometida por eventos recentes. Numa nação já atormentada pela pandemia, Fallon queria falar sobre os protestos contra o racismo e a violência policial; ele queria fazer um Tonight Show que amplificasse os pedidos de mudança que surgiam das manifestações. Mas, mesmo antes de ele se desculpar por seu papel na esquete do blackface, não estava claro se ele seria a pessoa ideal para a tarefa.

Fallon, como ele próprio admite, é um artista que vive de diversão e frivolidade. Ele também é vulnerável a um zeitgeist que pode se virar rapidamente contra seu programa meio em cima do muro – ele ainda é criticado por desarrumar o cabelo do então candidato

Donald Trump, em 2016 – e favorecer outros apresentadores que se sentem mais confortáveis em defender posições mais firmes.

Tópicos como os assassinatos de afro-americanos por policiais são apavorantes e talvez não sejam muito propícios a um apresentador que, ao mesmo tempo, tenta explicar uma antiga ofensa que perpetuou uma prática racista de longa data que continua a reverberar no entretenimento, na educação e na política. Uma vez mais, os recentes esforços do Tonight Show e outros programas de fim de noite para abordar esses assuntos chamaram a atenção para a predominância de homens brancos no meio.

Embora Fallon não quisesse fazer um programa que fosse um pouquinho mais polarizador, ele também não queria ficar de fora deste momento.

“Você não pode assistir às notícias e simplesmente voltar a fazer o que estava fazendo”, ele me disse. “Eu queria ler os sentimentos das pessoas e dizer: ‘sim, estou enfrentando as coisas. Estou assistindo ao que você está assistindo e também quero ajudar”.

O pedido de desculpas público de Fallon foi elogiado como um passo na direção certa, mas é apenas um primeiro passo. Numa época turbulenta, em que várias instituições estão se engalfinhando com o racismo estrutural e a maneira como suas próprias falhas e inações contribuíram para este quadro, artistas e telespectadores estão querendo ver se The Tonight Show e os programas de fim de noite de maneira geral estão prontos para cumprir suas promessas ou estão simplesmente surfando na onda da causa.

Comediante, atriz e apresentadora de TV, Aisha Tyler disse: “este país é profundamente racista há quatrocentos anos e não será corrigido só porque alguém vai lá e pede desculpas por uma piada de vinte anos atrás”. 

“As coisas só vão mudar”, continuou ela, “por causa das escolhas que as pessoas continuam fazendo ao longo do tempo”.

Uma evolução forçada. Com mais de dois meses dessa versão caseira do Tonight Show, a abordagem teve pouco impacto no público. Em meados de maio, o programa alcançava, em média, pouco mais de 2 milhões de telespectadores por noite, em comparação com os 3,6 milhões de The Late Show da CBS.

Então, no final do fim de semana do Memorial Day, o vídeo da esquete do Saturday Night Live com Fallon de blackface começou a ganhar força no Twitter. Originalmente transmitida em março de 2000, a esquete imaginava várias celebridades fazendo teste para apresentar um programa junto com Regis Philbin, e Fallon usou maquiagem marrom para fazer o papel de Chris Rock, antigo participante do SNL. (Um assessor de Rock disse que ele não queria comentar).

A esquete também serve de lembrete de como o blackface, uma prática criada para ridicularizar e humilhar pessoas pretas, segue forte na comédia contemporânea. 

Na manhã de 26 de maio, Fallon descobriu que o vídeo tinha ressurgido e viu sua caixa de entrada de e-mail cheia de mensagens de apoio, que lhe diziam para ignorar os julgamentos das mídias sociais. Que julgamentos?, ele se perguntou. Aí ele abriu o Twitter e o Instagram e os encontrou repletos de hashtags como #jimmyfallonisoverparty (algo como “acabou a festa do Jimmy Fallon”) e exigindo que ele fosse cancelado.

Fallon também tinha alguns defensores proeminentes: Jamie Foxx escreveu um comentário no Instagram dizendo que aquilo que Fallon tinha feito no vídeo “não era blackface”. E acrescentou: “A gente sabe que momento está difícil. Mas isso aqui já é demais”.

Mas Fallon sentiu que tinha de responder às críticas com sua própria voz. “Não posso deixar que uma corporação me dê uma declaração formal para ler”, ele me disse. “Não posso pedir que um relações públicas me escreva uma declaração formal.”

The Tonight Show estava passando os melhores momentos daquela semana e, então, naquela noite, Fallon postou um tuite no qual escreveu que seu blackface tinha sido “uma péssima decisão”, acrescentando: “Não tem desculpa para isso”. E concluiu: “Sinto muito por ter tomado essa decisão inquestionavelmente ofensiva e agradeço a todos por me responsabilizarem”.

Essa poderia ter sido toda a extensão de suas declarações, mas, até o final daquela semana, enquanto a onda de manifestações se espalhava por todo o país, Fallon concluiu que precisava falar mais em seu programa. Olhando para o seu erro no passado e para a indignação generalizada contra o racismo estrutural, ele me disse: “Não posso não ligar as duas coisas”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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