Daniel Arnold/The New York Times
Daniel Arnold/The New York Times

Jerry Seinfeld está fazendo as pazes com nada: 'estou no pós-show business'

Comediante fala sobre suas reflexões de quarentena, sua necessidade de rotina e sobre o que ele espera da comédia e da cidade de Nova York quando tudo isso acabar

Dave Itzkoff, The New York Times

06 de maio de 2020 | 11h04

Nestes dias, muitos se perguntam o que Jerry Seinfeld, o personagem de sitcom, estaria fazendo nesta era de quarentena e distanciamento social: como seu tédio, egocentrismo e constante escrutínio dos detalhes cotidianos (para não falar nos traços hiperbólicos de seus amigos e vizinhos fictícios) chegariam a extremos hilariantes num ambiente de isolamento e ansiedade.



No entanto, o verdadeiro Jerry Seinfeld - aquele que há muito tempo desistiu do sitcom para se concentrar num talk show ocasional e numa carreira inigualável no stand-up - já não é o mesmo cara. Fechado em casa com sua esposa, Jessica, e seus três filhos, ele está mais devotado do que nunca a seus rituais e hábitos diários e, inevitavelmente, continua propenso a observações microscópicas sobre o comportamento humano. Mas também está autoconsciente de uma maneira que você nunca vê nas apresentações: ele faz a piada e depois se pergunta se ela é apropriada e se as pessoas querem mesmo rir nos dias de hoje. São perguntas difíceis de encarar quando você é comediante e, assim como todo mundo, Seinfeld está tentando descobrir quem ele é e o que deve fazer agora.

Embora prefira se apresentar publicamente no seu clássico traje de stand-up - terno e gravata - na quarta-feira passada Seinfeld apareceu com um velho moletom onde se lia a palavra “GARAGE”, numa sessão de Zoom de sua casa em Hamptons. Era seu aniversário de 66 anos, e a chamada de vídeo levou alguns minutos para entrar no ar, o que exigiu a intervenção de Sascha, a filha mais ligada em tecnologia, que tem 19 anos. (“A juventude da América”, disse Seinfeld, radiante de orgulho paternal).



Sentado numa sala decorada com fotos de família, livros, miniaturas de carros e uma cópia do álbum de comédia de Allan Sherman, My Son, the Nut, Seinfeld falou sobre a evolução de seus sentimentos em relação à comédia, sua força e suas deficiências durante este período. Nessa perspectiva, também refletiu sobre seu novo especial, 23 Hours to Kill [23 horas para matar], que a Netflix lançou na terça-feira, 5. Seinfeld sabe que suas piadas sobre as pequenas indignidades dos eventos sociais, da comunicação via internet e do Serviço Postal agora podem soar bem diferentes do que soavam quando o show foi gravado em outubro, no Beacon Theatre, em Manhattan.

Seinfeld disse que não ter certeza se o especial será sua despedida da comédia filmada, mas descreveu sua perspectiva profissional como um “pós-show business”: “Agora estou no estado mais puro da arte”, explicou. “Só o set, a plateia e o momento. Mais do que nunca, estou muito interessado nisso e pouco interessado em todo o resto”.


 


Seinfeld falou mais sobre suas reflexões de quarentena, sua necessidade de rotina e sobre o que ele espera da comédia e da cidade de Nova York quando tudo isso acabar. Aqui vão alguns trechos editados dessa conversa:

 

Quando você começou a sentir que a pandemia era séria mesmo?

Foi logo no começo. Liguei para o produtor da turnê e disse: “Pode se preparar para cancelar os shows”. Parecia que a gente estava correndo na frente do tsunami. Vamos para as colinas! Mas parte do segredo dessa profissão é adaptação. Você acaba ficando altamente adaptável a tudo. Então é só mais uma coisa a que você tem que se adaptar.

 

É mais difícil por não sabermos quando vai acabar?

Mas a gente sabe quando vai acabar. A gente sabe com certeza.

 

Quando?

Bom, eu vou assumir o poder (risos). Mas estou apostando no vírus. Dá para imaginar a inveja que as outras doenças devem estar dessa ideia de não apresentar nenhum sintoma por duas semanas? A poliomielite deve estar falando: “Como não pensei nisso antes?!”. E a varíola: “Eu podia ter sido muito maior!”.

 

Então você acha que ainda dá para fazer piada agora?

Não, para dizer a verdade, não. Não acho que seja engraçado. A doença está fazendo mal a muita gente, de um jeito muito brutal. Não estou no clima para fazer graça. É como se você fosse um pássaro e, de repente, alguém mudasse sua gaiola. Agora você não sabe mais quem você é.

 

Você tem uma reputação de maníaco da limpeza e da arrumação. Você sente que todo mundo está lhe dando razão agora?

Não sou germofóbico. Sou mais ligado nas rotinas organizadas. Sim, eu ponho minha pasta de dente no mesmo lugar todas as vezes. Não tenho TOC, mas adoro rotina. Fico menos deprimido com rotina. Sou um animal treinado no circo. Gosto dessa sensação: agora vamos fazer esse truque, agora vamos fazer aquele truque. Me sinto melhor assim. Não quero muita liberdade mental. Já tenho muito dessa liberdade.

 

Você tem vontade de voltar ao palco, depois de passar semanas sem poder se apresentar?

É como sentir falta dos amigos. Adoraria sair com eles, mas não posso. A gente tem que aceitar. Ainda faço uma sessão de escrita todo o dia. É mais uma coisa que organiza a mente. O café fica aqui. O bloco de notas fica lá. As palavras vão ali. Minha técnica de escrita é bem simples: você não pode fazer mais nada. Não precisa escrever, mas não pode fazer mais nada. Escrever é uma provação. É isso que me dá sustentação.

 

Você se preocupa com a possibilidade de a comédia de stand-up nunca mais voltar a ser o que era? De o público simplesmente não voltar como antes?

Sem chance. As pessoas vão voltar. Primeiro porque rir é o maior sentimento de libertação que existe. E segundo porque os comediantes vão se adaptar muito mais rápido que todo mundo. Os programas de TV não vão saber muito bem o que fazer. O cinema não vai saber o que fazer. Os comediantes, em três noites, vão saber o que fazer. Porque você recebe instantaneamente esse feedback sobre o que funciona e o que não funciona.

 

Você tem um material especial sobre as pessoas que amam Nova York exatamente porque ela é lotada e desconfortável. Não soa inesperadamente mordaz agora?

Não, se você ama a cidade de verdade, vai continuar amando. Estava conversando com uns amigos ontem e alguém disse a palavra “Williamsburg”, e eu fiquei com tanta vontade de estar em Williamsburg... Sinto muita falta da cidade. Da vibração da cidade. Tudo isso foi adiado, digamos assim.

 

Você se arrepende do tanto de tempo que passou tirando sarro do Serviço Postal?

Ah, sim, me arrependo um pouco. Mas é engraçado. Todo o conceito do Serviço Postal se baseia em caminhadas, lambidas, números estranhos e moedas de um centavo. Isso ainda é engraçado.

 

Grande parte de sua comédia se constrói em torno de observações perspicazes sobre as maneiras como as pessoas interagem umas com as outras. Tudo isso cai por terra quando nossas maneiras de interagir mudam drasticamente? Você tem 15 minutos de material sobre aperto de mão. Será que você ainda poderá usá-lo?

Acho que sim, mas ficaria chateado. Filmei o trailer do especial na primeira semana de março. Ainda não estávamos mantendo a distância de dois metros, mas foi a primeira vez em que encontrei várias pessoas e ninguém apertou a mão de ninguém. Ninguém tocou em ninguém e, no final do dia, ficou um pouco estranho. E olha que eu nem gosto de apertar a mão das pessoas. Mas, depois de passar um dia inteiro trabalhando com um monte de gente, quando saí, senti que tinha alguma coisa errada.

 

O que o inspirou a começar o especial com uma sequência de ação na qual você pula de um helicóptero para o rio Hudson?

Sessenta e cinco anos! Quem faz isso aos 65 anos? Se tivesse um monte de alguma coisa bem onde aterrissei, teria sido uma bagunça. Mas foi legal. Foi assustador. E de uma coragem impressionante (risos). A brincadeira com o helicóptero veio do título. Quando pensei em 23 Hours to Kill, parecia um filme de James Bond. Aí a gente falou: vamos fazer uma sequência de filme de 007.

Fizemos a filmagem no final de agosto, quando a água estaria mais quente. E lá estou eu no helicóptero com diretor da cena. Estamos a uns quatro andares acima do rio Hudson. Estou sentado na porta, me preparando para pular. Aí falo para o cara: “Você já viu um ator fazer uma coisa dessas?”. E ele diz: “Trabalho nesse negócio há trinta anos e nunca vi um dublê precisar fazer uma coisa dessas”. Mas um dublê pulou antes de mim. Pensei que seria fácil. Não sei por que pensei isso. Que estupidez. Não é nada fácil.

 

Por que pular era importante para você?

O especial era uma coisa muito pessoal para mim - um documento de quem eu era e do que fiz na vida. Era isso que eu queria que fosse. Não sou muito fã das pessoas que envelhecem muito na TV. Não quero ser uma delas. Então quis fazer tudo agora. Também pensei que minha idade era um aspecto engraçado da coisa toda. Ter 65 anos e ainda fazer um negócio tão absurdo - é parte do que eu queria que fosse a minha marca registrada. Continuei fazendo coisas estúpidas, até o fim.

 

Você sente que está chegando ao fim de uma coisa, profissionalmente?

Um pouco. Eu meio que estou no - qual é a palavra? - pós-show business agora. Fiz show business. E amo show business, mas já passei dessa fase. Passei da fase de tentar jogar ou entender esse jogo. É uma coisa que não me interessa mais. 

 

Você acha que pode ser seu último especial de stand-up?

Não sei. É o que estou sentindo agora. Gosto de caras como Cary Grant, que não quiseram passar de certo ponto nas telas. Ao vivo é diferente - e vou me apresentar ao vivo para sempre. Mas, na tela, existe um ponto em que... não sei. Vou saber quando chegar lá.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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